Cartoline d’Italia (14) (da Palermo)

Elisabete Figueiredo

IMG_5757

As pessoas interessam(me) pouco se não me acertarem diretamente no coração

Cheguei ontem às 10 da noite a Palermo, Sicilia, depois de um dia longuíssimo em que me perdi no mar, entre outras coisas. Palermo pareceu-me ontem uma cidade tranquila, quando depois de pousar as malas no hotel da Via del Celso, a voltei a descer, rumo à Via Maqueda que percorri por um bocadinho até alcançar o Teatro Massimo, imponente e luminoso no meio da noite. Estava tudo silencioso à minha volta. Pouco iluminado, excetuando o teatro. Sentei-me por ali numa esplanada e comi um gelado. Os sabores já os conhecem, ‘cioccolato, fragola e limone’. Tenho a originalidade que se sabe. Quero dizer, nenhuma e gosto de hábitos e de canções do Paolo Conte. Un gelato al limon, sprofondati in fondo a una città*… por exemplo. E como os gelados sem misturar os sabores.

(Não sei onde nasceu Paolo Conte e agora não me apetece ir procurar. Mas associo muito mais a sua música a esta outra Itália que só agora comecei a conhecer, ao mezzogiorno, que à Itália que conheço melhor, quase bem, creio poder dizê-lo, acima de Roma. Deve ser a voz quente como esta terra, deve ser a lentidão das letras, a longa sensualidade da maior parte das músicas que me levam a fazer tal associação. ‘Non importa’).

Hoje apanhei o autocarro turístico com, já se sabe, gosto de fazer quando chego a uma cidade pela primeira vez. Fico com uma melhor noção dos sítios. Consigo, depois, orientar-me melhor, perceber melhor as ruas, identificar as praças, compreender onde quero ir a seguir. Se ontem à noite, a mim que saí tão pequenina da imensidão do dia, Palermo me pareceu uma cidade enorme, neste momento em que escrevo, já noite outra vez, mas outra noite, parece-me perfeitamente dominável. Com o autocarro atravessei a cidade, do Porto à Piazza Independenza, da Stazione Central à Piazza Politeama, do Orto Botanico à Via Dante. A pé, cruzei o centro histórico, com muito menos praças que em Nápoles, com ruas, apesar de tudo, mais largas, com monumentos, alguns bem conservados, em cada esquina, com vestígios ainda (ainda?) dos fortes bombardeamentos da II Guerra Mundial. Palermo, como todas as cidades, tem mil caras e mil recantos e mil avenidas a desaguar no mesmo mar azul.

IMG_5801

Espantei-me diante da Fontana Pretoria, da Piazza Quattro Canti, da catedral, do mesmo teatro Massimo, do teatro Politeama, cheio de cartazes de protesto. Espantei-me diante dos mercados de rua e das flores e das melancias enormes. Surpreendeu-me também – eu que esperava a mesma gente de Nápoles, com a sua permanente gentileza – uma certa rudeza e arrogância nas pessoas. Aqui não parece ser possível encontrar no mesmo dia, três vezes, o sorriso mais bonito do mundo. Se calhar nem uma só vez. Nem pessoas que te estendem a mão e te desejam boa sorte, depois de terem apenas trocado duas ou três palavras contigo. Aqui apenas os homens te dizem ‘Ciao!’ quando passas e não se pode dizer que seja por simpatia. Este hábito tão italiano, tão presente em todas as cidades deste país, tão machistazito, assume aqui uma expressão ainda menos agradável. Aqui parece, mesmo, haver gente um pouco mais áspera, ou então…

IMG_5673

… serei eu, mais resistente, depois de ter visto Nápoles, a outros encantos. Que aqui também existem, já o disse. Serei, seguramente eu, que não me pasmo aqui tanto, ou me ilumino tanto. Serei eu que depois de ontem, não posso já apaixonar-me mais por um país. Ou será este país, desgarrado do outro, que não deixa que dele gostem. Esta ilha ‘lontana’ de muitas maneiras, que aprendeu a governar-se de outros modos, uma vez mais, com rudeza para dizer o mínimo, que aprendeu a sobreviver afastada do centro. Sabe-se bem a que preço. Ou se calhar não. Talvez a aspereza e a arrogância derivem desse destacamento. De se ser efetivamente de outro país, ainda que… Que sei eu disto? Nada. E também não me parece que vá encontrar aqui quem se disponha a explicar-me, mesmo que o pergunte.
Gostava de poder dizer que gosto de Palermo. Mas não sei ainda se gosto de Palermo e creio que não terei já tempo para saber. Há cidades onde chegas e te comovem no mesmo instante. Existem outras – como esta – que exigirão sempre muito tempo para as compreenderes. As cidades, penso que já o disse, são como as pessoas. E as pessoas interessam(me) pouco se não me acertarem imediatamente no coração. No entanto, hoje choveu, e o cheiro quente da água depois de encontrar as pedras continua a invadir tudo. Isso e os girassóis que vi hoje pelas ruas são razões suficientes para que eu dê algum tempo a Palermo.

IMG_5682

* Paolo Conte, ‘Un gelato al limon’: http://www.youtube.com/watch?v=hiF78XW8BP0 («un gelado de limão, mergulhado no meio de uma cidade»)

Comments

  1. Gosto da originalidade sempre saborosa dos gostos de sempre… ‘cioccolato, fragola e limone’.!
    É sempre um prazer viajar com quem sabe sentir a viagem.

  2. grazie mille,

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.