António, recebi a tua carta.

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Fui encontrá-la no chão da entrada, onde aterram até que alguém os apanhe os envelopes que o carteiro enfia por debaixo da porta da rua. Havia outra, imaginas de quem, não é? Lá dentro estava um texto em Português acordizado, razão bastante, caso não houvesse outras, para não passar das primeiras linhas. Não aguento ver assim tratada a única pátria que conheço, compreendes?

No verso do teu envelope, lá estava aquela frase a afirmar na sua importância maiúscula que «PORTUGAL PRECISA DE SI.» Quando, depois das viagens formadoras da juventude, voltei para Portugal, fi-lo a achar isso mesmo: que Portugal, onde estava tudo por fazer, precisava de mim, mesmo se na justa medida em que também eu precisava de Portugal, pelas razões de superlativo mistério que fizeram com que uma imigrante (ou estrangeirada, chama-lhe o que quiseres António) se ligasse a este lugar mental ainda tão novinha, e desafiando as mais avisadas advertências que me exortavam a abraçar outra pátria.

Volto à tua carta: abri-a, lá te descobri na imagem de cabeçalho junto a uma réplica dessa frase: «PORTUGAL PRECISA DE SI». Pronto, afinal sempre era verdade. Foi preciso chegar aos quase 50 anos para ouvi-lo de forma tão clara. Mas já se sabe: mais vale tarde que nunca.

Ainda assim, espero que o voto de emergência nacional a que me propus, integrando esse vasto grupo de teus «simpatizantes» (não te iludas relativamente ao que pode unir muitos de nós ao teu partido António) possa servir um desígnio maior. Ou, como escreveste na carta que chegou esta manhã, «um programa de recuperação económica e social», de par com a inequívoca afirmação de «uma nova atitude na Europa em defesa dos interesses nacionais». Assim seja, e sejas tu capaz António, português da minha geração, de ser o timoneiro de tão substanciais acções políticas.

Comments

  1. Um excelente pretexto e um belo texto. Ontem, estive na Aula Magna. Estava cheia. No Domingo, lá estaremos. Tu do lado de lá e eu do lado cá. No propósito seremos iguais. Um abraço, CF.

  2. Carlos de Sá says:

    Também me inscrevi, na expectativa de acontecer algo de novo. Mas nada. Fora a postura e, já agora, o traquejo, são ambos a mesmíssima coisa. Nenhum compromisso sério, apenas a vontade de serem PM, isto é, de ocuparem o Poder tendo por única finalidade de distribuírem benesses e sinecuras; o que quer que façam pelo País terá por fundamento apenas a permanência no Poder.

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