Mistérios sortidos

…Continuo a encarar com alguma perplexidade a perfeição da natureza, porque há três mistérios humanos para os quais continuo a não conseguir descortinar a utilidade, a saber, as mamas do Homem, os testículos do Papa e as mensagens presidenciais de Cavaco Silva. Se alguém puder e quiser, que me ajude.” (Pedro Pezarat Correia).

Li isto e, apercebendo-me da inquietude do ilustre autor, que muito prezo, apresso-me a dar, correspondendo ao seu apelo, a minha modesta contribuição. Por pontos:
– Quanto às mamas do homem, deve sublinhar-se que a sua inutilidade é, ela própria, sinal de grandeza. A grandeza das coisas que só existem porque são esteticamente imprescindíveis. A importância da elegante simetria dos corpos. E, sobretudo, que diabo, já imaginaram o gozo a que as nossas queridas parceiras de espécie nos sujeitariam se nós, homens, nem uma – inútil, sim, mas existente e no seu lugar – imitação dos seus belos – e, ainda por cima, úteis – atributos peitorais? Em nome da paz entre os sexos, fiquemos por aqui, deixando uma bênção agradecida à criatividade da natureza, dos deuses, ou seja lá de quem for a autoria de tais maravilhas.
– Já quanto aos testículos do Papa – e seus subordinados, diga-se – não se pode alegar algum mérito quanto à sua inutilidade nem cantar-lhes alguma grandeza estética ou outra. Respeitosamente sublinho que eles são, eventualmente, inutilizados mas não inúteis, uma vez que subsistem na sua função quer o proprietário lhes dê uso, quer não. Isto é, permanecem em potência – em sentido aristotélico, claro – mas não em acto. Por vontade do dono, não dos próprios, já que são, por sua essência, indomáveis. Trata-se, pois, de renúncia voluntária, não por natureza.
– Quanto aos discursos de Cavaco Silva, lobrigo-lhes grande utilidade cívica. É que, ao ouvi-los, quantos portugueses não descobrirão, subitamente, a evidência de que eram capazes de fazer mais e melhor que o de Boliqueime? Quantos de nós não sentimos já o apelo da participação cidadã, pois se aquele pode chegar a presidente da República, para nós o limite é o céu? Ora, tal efeito sobre os cidadãos é um importante factor de democratização da sociedade, um promotor de uma fundamental percepção de igualdade. E mais: quem não estiver disposto a sujeitar-se a esta iluminação espiritual, tem bom remédio: desliga o televisor e dispensa a leitura de tais discursos. Ora, isto só é possível pelo seu carácter polílico-cultural. Coisa muito distinta acontece com os mistérios anteriores – as mamas do homem e os testículos do Papa – já que, estando os atributos neles descritos e as interrogações que suscitam sujeitos aos ditames necessários da natureza, se situam num outro nível problemático.
Espero, com esta modesta, mas não menos profunda, filosófica incursão por tão densos mistérios, ter ajudado a clarear o horizonte nebuloso que tanta perplexidade gera no espírito do nosso ilustre amigo. Assim seja.

Comments


  1. Genial, a parte relativa à (in)utilidade do de Boliqueime.
    Mas acrescento outra: graças ao aparecimento da sua triste figura nos ecrans, tenho lido muitos e bons livros, pois desligo imediatamente a televisão e vou dedicar-me a algo muito mais útil.
    De resto, não são apenas os discursos que são inúteis: é toda a tenebrosa e repugnante figura dele.


  2. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

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