Reflexões Em Torno De Um Aniversário de Casamento

 

transferirDecorrem hoje 19 anos desde o dia do meu casamento. Foi um casamento sem pompa nem circunstância.

Casámos no Registo Civil. Só não fomos simplesmente viver juntos, porque a menção desse desejo provocava graves problemas familiares numa das famílias e nenhum de nós queria começar uma vida em conjunto sabendo que os nossos pais estavam de algum modo zangados connosco. O enlace no Registo Civil lá foi aceite porque anos antes alguém da família tinha desafiado as tradições e tinha – ó vergonha! – renunciado a casar pela Igreja.

Depois de quase três anos de namoro, a vida em conjunto pareceu-nos o caminho lógico a seguir. Aquilo era o que ambos queríamos. Era, no fundo, um percurso natural. Tomámos a decisão de forma tranquila. Embora eu achasse que aquilo era coisa para durar poucos anos. Talvez essa ideia tenha pairado como um fantasma e tenha contribuído para isto quase dar em separação.

E decidimos dar seguimento ao ditado «Ano Novo, Vida Nova». Sendo sempre ou quase sempre «do contra», tínhamos que ter casado num mês que noivos nenhuns escolhem. Não foi um dia para fotografias lindas, não foi dia para se atirar arroz aos noivos (e mesmo assim, apanhámos com tanto!), não foi dia para sair do Registo Civil e ir tranquilamente até ao carro. Foi, antes, dia de fugir da chuva e do frio.

Ainda assim, foi um dia bem passado com amigos e família. Muitos daqueles amigos eram muito mais do que família. Uma parte de uma das famílias foi, como em quase todos os casamentos, convidada por obrigação. Parecia mal convidar amigos e não convidar familiares. Mesmo assim, por motivos orçamentais, alguns familiares tiveram que ficar de fora. A polémica que isso gerou, céus! Como as pessoas adoram meter-se nas decisões dos outros e como se sentem zangadas e acham saber tudo, quando, na realidade, e na maior parte dos casos, nada sabem!

Fica bem, sei que fica bem, dizer que têm sido 19 anos de pura felicidade, de um amor sem fim e etc. Pois isso não é verdade!

Têm sido 19 anos de muitos altos e baixos. Felizmente, mais altos do que baixos.

Houve momentos duros em que o que existia era tudo menos amor e cumplicidade. Houve revolta, ressabiamentos, sentimentos escondidos, atracções por outras pessoas, vícios exagerados, discussões, tantas discussões e novamente ressabiamentos.

Mas também houve momentos de amor, de cumplicidade, de amizade. Momentos que acabaram por ser mais fortes, mais intensos e permitiram que este casamento se mantivesse de pé.

Alguns dos piores momentos, foram precisamente depois do nascimento das filhas. Nunca ninguém me diga que os filhos salvam casamentos. Não acredito nisso. Acho que mais facilmente os filhos acabam casamentos do que os seguram. Acredito é que muitas vezes, pela existência daquelas vidas tão pequenas e dependentes de ambos os progenitores, as pessoas adiem a separação ou, até, a esqueçam totalmente, acomodando-se ao que existe. O momento de maior ruptura, de quase, quase divórcio foi exactamente aquele que decorreu entre os nascimentos de ambas as filhas. Lembro-me de que o meu primeiro pensamento quando soube que estava grávida pela segunda vez foi algo deste género: lá vai aquele desgraçado ter que viver comigo mais uns anos!

É verdade, embora eu estivesse extremamente infeliz no casamento, tinha pena de o meu marido ter que viver comigo. Eu tinha de tal forma fechado o meu coração aos sentimentos, vivia de tal forma amargurada e azeda com a vida, que achava que alguém ter que viver comigo era um pesadelo e um sacrifício.

Não imaginava que ele ainda pudesse sentir fosse o que fosse de belo por mim. Ali estava eu, gorda, cada vez mais gorda e mais feia e novamente grávida. Quem gosta de uma mulher assim? Que mulher gosta de si assim? Nenhuma!

Era isso, claro, sem amor-próprio, eu tinha-me tornado uma sombra de mim própria. Se a Noémia de 26 anos tivesse visto a Noémia de 38 ou 40, ter-se-ia enfiado num buraquinho cheia de vergonha. Eu tinha-me tornado naquilo que nunca fui: uma pessoa amargurada, cinzenta, uma triste pessoa.

Felizmente, houve aquilo que deveria haver em todos os casamentos: uma conversa franca, uma conversa de tudo-ou-nada. Ou resolvíamos ali os problemas ou cada um seguia o seu caminho. Acabámos por escolher a via mais fácil, mas também a que melhor resultou até agora.

O amor adormecido despertou. Regressou o respeito. Foi preciso um esforço tremendo de ambos. Foi preciso estarmos à beira do divórcio para percebermos que não queríamos viver um sem o outro, que a nossa vida é feita a dois e a quatro (falo das filhas e não de nenhuma prática sexual arrojada, ó suas mentes perversas!) e nunca sozinhos.

Escrevi acima sobre a forma como me sentia e de como isso me «fechou», mas, acreditem, eu não fui a única culpada. Nunca ou raramente há apenas um culpado. Há frequentemente duas pessoas que preferem isolar-se a abrir-se perante o outro, mostrando as suas fragilidades e vulnerabilidades. Há coisa pior do que mostrarmos a quem nos ama que somos pessoas frágeis, que precisamos de apoio, de afecto? O medo, esse maldito medo, sempre presente, faz-nos ficar fechados numa concha, esconder quem realmente somos. Receamos ser mal-interpretados. Receamos que nos gozem, abusem de nós. Sei que, da minha parte, havia esse medo. Se eu casei habituada a ter alguém que me declarava o seu amor e fazia tudo por mim, mas também convencida de que o casamento iria ser de pouca dura, poderia mostrar o meu amor a essa pessoa? Poderia, ao fim de anos de casamento e discussões, quando eu achava que tudo estava a acabar, abrir o meu coração, correndo o risco de ser rechaçada? Claro que não! Aliás, queria eu abrir o meu coração e continuar a amar um homem que tinha um vício cada vez mais absorvente, que, manifestamente, tinha defeitos grandes (tal como eu e todos os temos)? É duro lidarmos com a nossa mudança, mas ainda é mais duro lidarmos com a mudança do outro. Contamos que o outro permaneça sempre igual a si próprio e isso claro que raramente acontece, sobretudo se nós próprios mudamos.

A minha baixa auto-estima (ainda hoje não percebo como isso me aconteceu, como de repente me tornei numa pessoa que não se ama a si própria) não me deixava perceber o potencial que sempre tive como pessoa. Não via, como vejo agora, que eu era e sou uma pessoa espectacular. Tão espectacular como muitos seres humanos com quem nos cruzamos e a quem não damos atenção. Que eu era e sou merecedora de dar e receber todo o amor que exista por aí. Hoje vejo-me com outros olhos. Sinto-me uma pessoa feliz, porque me faço feliz. Porque me dou valor e dou valor a quem me rodeia. Porque, em vez de ver apenas defeitos (embora por vezes me «fuja o pé») é muito melhor ver qualidades.

As vidas estão cada vez mais difíceis e temos que encontrar urgentemente o amor dentro de nós para não darmos em doidos ou em amargos, que é bem pior do que ser doido. Estou convencida de que só com amor (próprio e pelos outros) conseguiremos dar a volta a isto. Mau e hediondo já é quase tudo o resto. Quando tudo corre mal, o que é que habitualmente fazemos? Em vez de agradecermos o facto de termos companheiros e família, de agradecermos as suas pequenas atenções, o que fazemos é virarmos para eles as espingardas do nosso ressentimento e da nossa frustração, muitas vezes estragando o que de melhor existe nas nossas vidas.

Ao fim de 19 anos de vida em conjunto, mais quase três de namoro, um total de quase 22 anos, o que fica, sabem o que é? A cumplicidade, a amizade. É fantástico como ainda hoje, há situações que nos remetem a ambos para uma outra situação que vivemos no passado ou para um filme ou uma série que ambos vimos. Continuam a existir aqueles momentos em que, mesmo zangados um com o outro, nos apetece rir em conjunto de algo ou comentar alguma notícia que ambos vimos.

E, sim, ao fim destes anos todos, apetece-me agora mais ir para casa do que me apetecia há uns anos atrás. E não é devido à existência das filhas, que essas já existiam e eu detestava ir para casa.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Gostei muitissimo da sua crónica. A clareza do texto, deixa transparecer a sua honestidade “intelectual”.
    Sabe Noémia, Amor é isso mesmo, o que descreve. Para gostarmos de alguém temos de gostar também de nós.
    Conhece o livro de Francesco Alberoni, sobre o amor?
    A sua crónica encaixava muito bem num capítulo do livro.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Parabéns pelo aniversário, mas parabéns sobretudo pela coragem que conduziu ao reencontro pessoal e familiar.

    A sinusóide da vida é algo de inultrapassável. Cabe-nos a nós ter o suficiente sangue frio e inteligência, para a tornarmos o mais lisa possível.

  3. Paula Sofia Luz says:

    Um beijinho aos dois, Noémia. 🙂

  4. Fernando Torres says:

    Eu já fiz 15. Bom texto. Boa reflexão.

  5. Orlando Sousa says:

    É o que se diz, “casamento molhado (chuva) casamento abençoado”.


  6. Gratidão pelo texto!!!!! Noémia!!!

  7. marau56 says:

    Parabéns pela coragem em escrever este texto.
    Tudo de bom, Noémia!

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