Como seria se a política trocasse de lugar com o futebol?

LopesCartoon: Luís Afonso@O Jogo

Não há sociólogo que me valha nesta dúvida existencial que partilho com o Lopes, o repórter pós-moderno que chega pelo lápis do cartoonista Luís Afonso às páginas no jornal O Jogo. Há qualquer coisa de muito especial no futebol que mexe nas entranhas do português comum e que o coloca na posição de enveredar pelas mais profundas discussões ideológicas e, se “necessário”, pela violência física e/ou verbal descontrolada.

Se dessem a escolher ao português benfiquista entre ver Pinto da Costa atrás das grades ou 10 banqueiros e/ou políticos corruptos na mesma posição, a esmagadora maioria dos adeptos do Benfica não hesitariam um segundo e enviavam o histórico líder dos Dragões para Custóias. Se dessem a escolher ao português portista entre entra a revelação factual e em praça pública de esquemas de corrupção desportiva envolvendo o Benfica ou a exposição de redes de tráfico de influências envolvendo destacadas figuras políticas em relação de promiscuidade com interesses privados, a grande maioria dos portistas não perderia a oportunidade de provar adeptos encarnados que afinal a verdade desportiva que Luís Filipe Vieira lhes vende é uma bela treta.

Exactamente de que é que este país precisa para ter a mesma atitude implacável e fervorosa com a criminalidade politico-partidária que tem com o futebol? Para a viver com a intensidade com que vive cada jogo, cada golo, cada conquista? Não quero com isto lançar qualquer anátema sobre um desporto que também aprecio e gosto de acompanhar. Só queria tentar perceber como seria viver num país onde toda a raiva, todo o sentimento, toda a loucura e toda a paixão que é canalizada para o futebol fosse canalizada para o escrutínio permanente da central de negócios em que se tornou a governação do bloco central e todas as relações de promiscuidade, que tantos milhões nos custam anualmente, que gravitam à sua volta. Será que alguém se arriscaria a roubar escutas de políticos e empresários corruptos em segredo de justiça e as exporia no Youtube?

Comments

  1. Acho que a razão é a seguinte.. Se um dirigente de um clube rival for condenado por corrupção, isso traduz-se numa vitória “nossa” contra “eles”. O futuro imediato parece mais risonho para o nosso clube, porque o rival acabou de sofrer um revés que o coloca numa situação de desvantagem nas suas aspirações.

    Contrariamente, quando falamos de banqueiros ou políticos corruptos é mais difícil vermos um “nós” e “eles”, porque estamos todos neste mesmo barco chamado Portugal. Ao provar-se que um político foi corrupto num negócio, do qual tirou proveito em detrimento das contas públicas, o futuro apresenta-nos a todos nós a tarefa de ter de apanhar os cacos. Se um banqueiro corrupto leva um banco à falência, cabe-nos a todos nós a tarefa de resolver o problema que isso provocou na economia nacional.

    Obviamente que as pessoas têm de uma forma geral uma forte vontade de ver banqueiros e políticos corruptos atrás das grades, mas ao mesmo tempo sabem que o dia de amanhã não será propriamente mais risonho se hoje condenarmos um político ou banqueiro…

    Agora imagine que dava à escolha a um aleatório benfiquista entre condenar-se hoje Pinto da Costa por corrupção ou então Angela Merkel (por muito que não esteja em causa aqui a sua seriedade)? Se calhar a escolha não seria tão fácil…

  2. Como seria se a política trocasse de lugar com o futebol?

    -Marques Mendes substituído por Gabriel Alves ao sábado na SIC.
    -Luís Freitas Lobo substituiria a pitonisa do regime, domingo à noite na TVI.
    -Manuel Fernandes, Toni ou Rodolfo poderiam aspirar à liderança parlamentar.
    Rogério Alves, Manuel Serrão, Miguel Guedes, Oliveira e Costa, Dias Ferreira, Guilherme Aguiar, António Pedro Vasconcelos, João Gobern ou Rui Gomes da Silva seriam destacados governantes…

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    Rio de Janeiro

  4. Nightwish says:

    Concordo consigo, mas acho que escolheu mal o exemplo.
    É que ” a exposição de redes de tráfico de influências envolvendo destacadas figuras políticas em relação de promiscuidade com interesses privados” já aconteceu várias vezes com o BES, BPN, grupo GPS, Mota-Engil, submarinos… Para quê desejar o que não dá em nada?

    • Não me expliquei bem: por norma alguns destes esquemas são expostos mas existe sempre alguma neblina. eu referia-me a um nível de exposição em que todos os detalhes eram efectivamente expostos. como no caso das escutas envolvendo Pinto da Costa (sou portista, mais imparcial que isto impossível 🙂 )

  5. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Respondendo à sua pergunta, dir-lhe-ei que teríamos, com certeza, a população mais esclarecida e participativa na vida do País. Mas para chegar a tal objectivo, era preciso que a gente deste País fosse, ou culta ou se esforçasse para adquirir cultura. Mas não é o caso.
    A população portuguesa, na sua grande maioria é imediatista, tal como o governo que ela tanto critica. São almas gémeas, num misto de incompetência, de indecisão e de absentismo, praticando a crítica e desprezando a autocrítica.
    Por isso temos sempre 50% de absentistas, 30% de “indecisos” (uma figura que, pessoalmente, me é irritante mas que, reconheço define vencedores) que se balançam entre os laranjinhas e rosinhas e 20% de gente, apenas, que sabe o que quer. Ou seja, somos um País sem convicções em termos de maioria e por isso vamos andando e penando por aqui.

    E é aqui que entra o futebol, o todo-poderoso. Todos somos mais ou menos amantes da bola, mas não podemos ter “palas”. Futebol é diversão, é discussão, é brincadeira é paixão, mas sobretudo não pode ser aquilo que nos afasta da vida social e política do País (já da vida económica tenho dúvidas, porque “eles vivem” em loja maçónica sem portas, sem janelas e sem vergonha).

    Em todo o caso quando neste cantinho à beira mar plantado se editam três publicações diárias sobre futebol que constituem as publicações mais vendidas, estamos conversados.
    O futebol serve os interesses políticos e por isso se condecora um Cristiano Ronaldo e se lhe levantam estátuas (nada tenho contra o profissional, excelente e uma lenda por mérito próprio). O mesmo poder político que condecora os Zainal Bava deste País para valorizarem um tipo de “empreendedorismo” que nos depena. Tal como não vai ao funeral de um prémio Nobel Português, nem condecora quem tanto fez pela música portuguesa. Tal como condecoram antigos Pides, para valorizarem uma política de que nunca se afastaram e que ainda hoje admiram.Maquilharam-se, caricaturaram-se, mas nunca de cá saíram.
    E é aqui que entra a Educação.

    Mas para que a educação e cultura possam ser adquiridas, não basta existirem os meios. É necessária vontade para a recepção de mensagens, para as digerir e integrar no dia-a-dia.
    O problema é que a maioria do português não o deseja, porque isso corresponde a uma resistência à mudança que constitui sempre uma “vassourada” no seu “deixa andar”. E exactamente por isso assistimos hoje, à mudança de liderança do Centrão, saltando da sertã para a frigideira e vice-versa, mas deixando tudo como dantes e no fundo, sendo uma e a mesma coisa.
    Por isso, ainda hoje os dizeres de Eça de Queirós e de Guerra Junqueiro de há mais de 120 anos sobre a alternância que existia nos partidos monárquicos (regenerador e progressista), são tão actuais.
    O povo já digeriu o célebre ditado aplicado à política: “A merda é a mesma, as moscas é que mudam”.

    Percebemos assim o poder da bola como campanha de estupidificação e embrutecimento.
    O combate ao ser que pretende distorcer, passa pela educação e pela vontade de a receber por parte do ente distorcido.

    Mas vistos com estes resultados à vista e transformando tudo no poderoso futebol, dir-se-á:
    Ente distorsor 40 – Ente distorcido 0

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