O poder

power to the people

Imagine que há 16 anos lhe teriam dito que optar pelo euro significaria perda acentuada de rendimento, transferência de soberania para entidades não democráticas e destruição súbita de direitos lentamente conquistados. Resumindo, imagine que em 1999 lhe teriam dado um vislumbre de um futuro, que seria hoje, onde a aniquilação do controlo sobre a política monetária viria a ser uma arma de guerra capaz de subjugar nações inteiras com maior eficácia do que as bombas. Capaz de concentrar a riqueza num grupo restrito, graças ao desaparecimento do mecanismo de, equitativamente, distribuir os problemas do país por todos, via desvalorização da moeda.

Neste cenário, teria aceite o euro? Possivelmente, não. E no entanto, aqui estamos nós presos a essa decisão, incapazes mesmo de a questionar.

É esta a capacidade do poder, a de moldar as pessoas por forma a não pensarem fora da caixa.

O euro é apenas um exemplo, poderíamos falar da forma como as listas de deputados são construídas, da pertinência das obras públicas, da concorrência desleal entre a produção sub-humana nas chinas deste mundo face ao que consideramos civilizado, da ideia de seguir os interesses da Alemanha como se fossem nossos  e de se votar alternadamente nos partidos que nos serviram mal no passado.

Poderíamos ainda falar do discurso binário sobre se ter chamado a troika em 2011, uma variante da política “não há alternativa”. E no entanto, esta semana o BCE anunciou que iria “imprimir” dinheiro a uma velocidade de 60 mil milhões por mês. Em dois meses serão lançados no mercado financeiro mais euros do que aqueles que a troika nos emprestou. Afinal, há alternativa e esta consiste, essencialmente, em retomar a capacidade de desvalorizar a moeda, essa mesma de que voluntariamente prescindimos há 16 anos.

Mas o poder cega, não apenas aqueles que o exercem, como também os que por ele são dominados. Bate-me, que eu gosto.

Comments

  1. Mário Reis says:

    Mas desde há 20 anos que houve quem o disse com todas as letras. Dúvidas? Vejam aqui http://www.pcp.pt/actpol/temas/moeda/folheto.html

    Quem não quis fazer um grande debate com o povo português? Quem não quis o referendo? Foi incompetência? Ignorância? Ou obediência e comprometimento com os donos disto tudo?

  2. Vamos por partes:
    A entrada no Euro teve aspectos positivos. Lembram-se do tempo em que a taxa de juros tinha 2 dígitos? Quando foram cumpridos os critérios de convergência que Sousa Franco quase diariamente falava e ficou decidida a adesão de Portugal ao Euro, qual foi a baixa das taxas de juro que beneficiou Portugal? Se acrescer a isto a descida do petróleo nos mercados internacionais, com Guterres a manter teimosamente o preço dos combustíveis fixos (a gasolina rondava os 130 escudos), deixo uma pergunta. Quanto poupou Portugal? E quantas vozes se indignaram então? Isto serviu como luva ao “Guterres bonzinho” para implementar a política do tudo para todos…
    O pior foi quando a moeda única entrou em vigor. À boa maneira portuguesa, os benefícios estavam esgotados, os encargos nem tinham sido correctamente avaliados.
    Devem os Estados poder aderir à moeda única? Sim! Ninguém deve ser excluído se cumprir os requisitos. E devem poder sair se assim o entenderem. Como também em meu entender devem poder sair da U.E., sem dogmas ou tabús.
    Mas as decisões têm encargos. Foi vergonhosa a chantagem ou ameaça velada sobre os eleitores gregos. Que devem escolher ser governados por quem escolherem. E ninguém os irá bombardear se não cumprirem. Mas também não podem argumentar que estão em causa a Liberdade e Democracia se não lhes emprestarem dinheiro para continuarem a financiar bizarrias como 1 semana de férias para todos numa das suas paradisíacas Ilhas. Até porque quem os financiou foram indirectamente os contribuintes dos outros Estados, entre os quais os contribuintes portugueses…

  3. Ao longo dos tempos vou questionando e até duvidando de mim..sereu só eu a pensar assim..http://arteagostinho.blogs.sapo.pt/bce-e-pt-mais-do-mesmo-720907

  4. adelinoferreira45 says:

    E o “coelho tirado da cartola” antes das últimas eleições gregas, que deu ao Partido mais votado +(mais) 50 deputados? Foi a invenção do século para manter os equiparados aos nossos PS/PSD/CDS no poder. Sim, pode-se estar fora, estando dentro…Hoje, Domingo, muitos foram os europeus que foram à igreja. É que o dito “coelho” pode decidir.

  5. http://www.pcp.pt/actpol/temas/moeda/munica1.html Já nos anos 90, o PCP denunciava. E também denunciou a entrada na União Europeia, e CEE.

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