Guia para as eleições na Grécia: poderá o Syriza obter a maioria absoluta?

Jorge Martins

Tudo indica que, hoje, será um dia histórico para a Grécia e para a Europa, com a muito provável a vitória do partido de esquerda SYRIZA nas eleições gerais. A dúvida que se coloca é se obterá uma maioria absoluta ou apenas relativa, o que o obrigará a fazer coligações com outras forças políticas.
Para percebermos as probabilidades de isso acontecer, há que atender a três particularidades do sistema eleitoral grego:
a) o partido vencedor tem um bónus maioritário, que lhe permite ocupar, automaticamente, 50 dos 300 lugares do Parlamento helénico;
b) existe uma cláusula-barreira de 3% dos votos validamente expressos, pelo que os partidos que não atinjam essa percentagem ficam sem representação parlamentar;
c) os restantes 250 lugares serão distribuídos a nível nacional, através de um quociente eleitoral simples, pelo partidos que ultrapassaram a cláusula-barreira, sendo, posteriormente, distribuídos pelos círculos regionais.
Daqui resulta que se o partido vencedor obtiver mais de 40% dos votos validamente expressos assegura uma maioria absoluta no Parlamento. Basta multiplicar 250 por 0,4, que será igual a 100. Somando os 50, ficaria com 150 (metade do hemiciclo). Mas, como há sempre partidos que não chegam aos 3% dos votos, aquela percentagem é suficiente.
Caso a maior força política não chegue aos 40% (como, tudo indica, será o caso das eleições deste domingo), a possibilidade de obter uma maioria absoluta dependerá da percentagem de votos obtidos pelos partidos que ficarem fora do Parlamento. Quanto maior for esta, mais fácil será para o partido maioritário atingir aquele objetivo: necessitará de 38% se o número de votos desperdiçados em pequenos partidos for de 5%, de 36% se chegar aos 10% e apenas de 34% se atingir os 15%.
Relativamente a estas eleições, apenas sete ou oito partidos deverão ter representação parlamentar. São eles o SYRIZA (“partido-irmão” do BE), a Nova Democracia (o equivalente ao PSD e ao CDS), o PASOK (o PS local, muito enfraquecido e aliado da ND no atual governo), o KKE (um partido comunista ortodoxo e de extrema-esquerda, que faz o PCP parecer muito moderado), a XA (partido de extrema-direita de inspiração neonazi, bem pior que o PNR português), o To Potami (que significa “O Rio” e é um partido de centro-esquerda, de inspiração populista e unipessoal, um pouco como o PDR de Marinho Pinto), o ANEL (de direita, mas nacionalista e antiausteritário, um pouco como o “nosso” PND) e, por fim, o KIDISO (uma dissidência do PASOK, liderada pelo ex-primeiro-ministro Papandreou).
Se os seis primeiros parecem ter garantida representação no Parlamento, há algumas dúvidas relativamente ao ANEL (embora as últimas sondagens o coloquem acima do limiar de 3%) e muitas relativamente ao KIDISO (com quem ocorre exatamente o contrário). Dos atuais partidos parlamentares, é praticamente certo que o DIMAR (o Livre “lá do sítio”, que foi aliado do governo do “bloco central” até há cerca de um ano) ficará de fora.
De acordo com as últimas sondagens, a minha previsão é a seguinte: SYRIZA, 37% (149 lugares); ND, 30% (80); Potami, 7% (19); XA, 6,5% (17); KKE, 5% (13); PASOK, 5% (13); ANEL, 3,5% (9), KIDISO, 2,5% (0); outros, 3,5% (0). Ou seja, com 6% de votos desperdiçados, os 37% obtidos pelo SYRIZA deixam-no à beira da maioria absoluta.
Vejamos, agora, o que aconteceria se 0,5% dos votos no PASOK se dirigiam para o KIDISO, permitindo que este chegasse aos 3%. Então, o quadro passaria a ser o seguinte: SYRIZA, 37% (146 lugares); ND, 30% (78); Potami, 7% (18); XA, 6,5% (17); KKE, 5% (13); PASOK, 4,5% (11); ANEL, 3,5% (9), KIDISO, 3% (8); outros, 3,5% (0). Como se pode ver, havendo apenas 3,5% de votos não transformados em mandatos, o SYRIZA ficaria mais longe da maioria absoluta.
Tal como cá, as urnas encerram às 19 horas (17 horas em Portugal Continental). Depois, haverá sondagens às 21:30 e 24 horas locais (19:30 e 22 horas no continente português). Os resultados oficiais poderão ser seguidos no site do ministério grego do Interior.

Comments

  1. Marquês Barão says:

    Que o Syriza alastre até dar á nossa Costa o Setepiras de cá.

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