Sobre a engenharia política do desemprego

sofista

Passos Coelho, o sofista, afirmou ontem na Assembleia da República que o desemprego baixou, apesar deste ter aumentado entre os jovens.

Por outras palavras, quem nunca teve emprego está a ter mais dificuldade em o conseguir e baixou o número  de inscritos nos centros de emprego entre aqueles que já alguma vez trabalharam, já que esta é a definição de desemprego para fins estatísticos. Esta última situação acontece por várias razões:

  1. O desempregado atingiu a duração máxima da atribuição do subsídio de desemprego,  nada o obrigando a fazer os diversos rituais que o manteriam inscrito no centro de emprego (apresentação quinzenal, por exemplo), assim vendo a sua inscrição cancelada pelos serviços.
  2. O desempregado foi colocado num estágio profissional ou numa acção de formação, ambas de aceitação compulsiva, sob pena de perda do subsídio de desemprego, assim deixando de contar para a estatística do desemprego. Tem sido exemplo disto os estágios na administração pública e a prática da chamada requalificação.
  3. O desempregado emigrou, tal como o fizeram centenas de milhares de portugueses nestes últimos 4 anos, tendo deixado de contar para os números do desemprego, seja porque comunicaram ao centro de emprego que emigraram, seja porque faltaram a duas apresentações quinzenais.
  4. O desempregado encontrou emprego. É pública a enorme dificuldade que desempregados com mais de 50 anos têm em conseguir emprego, a tal ponto que até se inventou o conceito da pré-reforma. Entre os 25 e os 35 anos, muitos emigraram,  à procura do el dourado enquanto a força da juventude ainda brilha. É conhecida essa bolsa de emprego precário em sectores como restauração, serviços e comércio, pelo que haverá desempregados a encontrar emprego nestas áreas. Tal como haverá empregados a irem para o desemprego ao não virem renovado o contrato que os tornaria efectivos na empresa – prática frequente nestes sectores.
  5. O INE tem mudado algumas vezes (2011, 2014) a metodologia de contabilização do desemprego, o que, só por si, deveria impedir qualquer primeiro-ministro honesto de fazer comparações directas de números.

As notícias de novas falências têm sido abundantes, ao contrário daquelas sobre o início de novas actividades, sendo legítimo perguntar como é que é possível o desemprego baixar sem criação de emprego. E a resposta é que o desemprego não baixou. Baixou, isso sim, o número de inscritos no centro de emprego, o que nada tem a ver com baixar o desemprego, devido às regras de inscrição nestes centros.

As empresas gostam de contratar jovens por várias razões. Por um lado, estes estão dispostos a ganhar menos e a trabalhar mais para compensarem a sua falta de experiência. Por outro, as empresas que pretendem ter quadros estáveis apreciam a capacidade de aprendizagem dos jovens, encarando a contratação de jovens como um investimento. Já empresas que funcionam com quadros precários de pessoal aproveitam-se das menores responsabilidades familiares dos jovens para lhes retirarem maior rendimento.

É inequívoco, havendo geração de emprego, cresce a  contratação entre os jovens. Se a economia estivesse a gerar emprego, tal como pretende Passos Coelho, os jovens estariam a encontrar emprego mas não é isso que está a acontecer.

A falácia do primeiro-ministro consiste em não dizer que as estatísticas do desemprego melhoraram devido a engenharia política. Pegar na estatística do INE, que como vimos não representa a realidade, e que contém dados provisórios e alterados por diferentes metodologias, como se pode ler mais abaixo, é uma tentativa de demonstrar que o rumo político escolhido é o correcto, já que, supostamente estaria a produzir resultados desejáveis. Mas a propaganda tem pés de barro e estes quebram-se pela demonstração dos efeitos da emigração e das regras de inscrição nos centros de emprego sobre o número de inscritos nesses centros, a par com a evidenciação da mudança de metodologia do INE para o cálculo da taxa de desemprego.

Ler também:

Extractos da tese O Desemprego Jovem em Portugal:

desemprego-1980-2012

 

desemprego-jovem-1980-2012

desemprego-jovem-1992-2013-grupo-etario

emigrantes-1993-2012

“(…)foi possível verificar que o desemprego jovem tem apresentado um crescimento algo exponencial, sobretudo a partir de 2008, ano em que Portugal foi atingido pela atual crise económica e financeira, registando quase 40% de jovens desempregados, em 2012. Esta situação parece assim refletir a estagnação económica que o nosso país está a atravessar (…)”

Extractos de Desemprego jovem voltou a aumentar em Portugal:

desemprego-2000-2015

 

populacao-empregada-2000-2014

O Instituto Nacional de Estatística (INE), que divulgou nesta quinta-feira, 29 de Janeiro, as estimativas mensais de emprego e desemprego de Dezembro, dá conta de 127 mil jovens dos 15 aos 24 anos sem emprego. Trata-se de um aumento de 4100 pessoas face a Novembro e é preciso recuar a Junho de 2013 para encontrar um aumento semelhante.

(…)

A melhoria da taxa de desemprego está relacionada, realça o instituto na nota divulgada à imprensa, com o decréscimo da população empregada e com o aumento do emprego.

João Cerejeira, economista e professor na Universidade do Minho, alerta que os dados mensais devem ser lidos com cautela, por se tratar de uma sub-amostra da amostra utilizada pelo INE no inquérito trimestral. Mas ainda assim, confessa que ficou “surpreendido” com o aumento do desemprego jovem, numa altura em que o emprego cresce mais do que o desemprego desce. “É preciso esperar pelos dados trimestrais para percebermos melhor as causas”, refere.

(…)

Os dados  apresentados pelo INE nesta quinta-feira foram sujeitos a uma revisão, o que influencia os números de Novembro (que tinham sido tornados públicos no início de Janeiro). Embora a tendência identificada anteriormente pelo INE se mantenha, a taxa de desemprego foi revista de 13,9% para 13,5%. Também a população empregada sofreu um ajustamento que leva a que a redução do emprego tenha sido menor do que o estimado. Nos dados apresentados inicialmente, apontava-se para uma redução de 28.200 postos de trabalho entre Setembro e Novembro. Afinal, foi de 24.300 empregos. (P)

 

Extracto de Passos diz que austeridade perde relevância e prioridade é o crescimento:

Relativamente à taxa de desemprego, assinalou que o Instituto Nacional de Estatística “corrigiu as suas previsões estatísticas” em meio ponto percetual. “É uma diferença assinalável e que mostra que até hoje, tirando um dado isolado mensal, não se registou qualquer evolução de tendência e que, portanto, nós continuamos a manter uma trajetória descendente do desemprego e a evidenciar um aumento do emprego”, acrescentou.

O primeiro-ministro referiu, no entanto, que se registou um “agravamento ligeiro” do desemprego dos jovens.

Comments


  1. Este número circense do desemprego faz lembrar o esforço de um ilusionista de 2.ª categoria em fim de carreira. Tenta iludir o povo com dados falaciosos, insultando-o na sua inteligência. Senhor primeiro ministro, isso tem um nome: o irrevogável canto do cisne.
    Nota: onde se lê “irrevogável”, leia-se “definitivo”, só para que fique claro.

  2. Nightwish says:

    Alguém que aumenta a taxa de desemprego de ex-ministros e secretários de estado, fáz-favor.


  3. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

Trackbacks


  1. […] recentemente a incapacidade do país em lidar com o aumento da pobreza. A pobreza que avança, o desemprego catastrófico apesar das manipulações governamentais e a emigração em massa são variáveis cada vez mais difíceis de mascarar. Até quando […]


  2. […] pelo Rectângulo, apesar das mais variadas manipulações, o cenário continua pouco animador. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento […]


  3. […] corruptos, clientelistas e incompetentes e não as redes sociais – só desce por via da engenharia política do desemprego e do estratagema dos estágios profissionais, a emigração em massa de centenas de milhares de jovens reduz o número de cérebros e afecta a […]


  4. […] que abandonou o país nos últimos quatro anos, entre outras artimanhas que caracterizam a engenharia política do desemprego desenvolvida pelo actual governo, a realidade voltou a cair-nos na cabeça e os números do […]


  5. […] insiste em deitar por terra as mais variadas tentativas de manipulação do departamento de engenharia política do desemprego. Depois das notícias da passada semana, o Publico revelou ontem novos números que deitam por […]


  6. […] governo alterou as regras de manutenção da inscrição nos centros de emprego, o que se traduziu numa forma de baixar os números do desemprego sem que isso tenha paralelismo […]


  7. […] mil emigrantes que saíram do país durante o seu mandato, aos desempregados que deitam por terra a manipulação dos números, aos pobres que assistem a um permanente aumento do fosso que os separa das elites e a todos os […]


  8. […] nas regras de contabilização do IEFP ou pela recente patranha de Bruno Maçães. É a engenharia política do desemprego em todo o seu […]


  9. […] Engenharia política do desemprego, como já se tinha constatado. Um saco de propaganda. Por isso, faz muito mais sentido falar da taxa de emprego do que da taxa de desemprego. Até porque os desempregados ao deixam de se inscrever no IEFP quando acaba o subsídio mas não se evaporam. […]


  10. […] pode ser uma questão sazonal, um esquema qualquer de engenharia política ou um programa de estágios manhosos oculto, daqueles que o governo PSD/CDS-PP usava para […]


  11. […] E as descidas do desemprego, propagandeadas pelo seu governo, será que as interligou com a engenharia política alicerçada em estágios profissionais e emigração em massa? E o embuste da saída limpa, será que o interligou com aquele Banif que estava escondido debaixo […]


  12. […] O líder do PSD fez a habitual visita à Ovibeja, terra de perigosos comunistas, e aproveitou os seus cinco minutos de imprensa para dizer ao país que o mérito pela descida do desemprego é das reformas laborais implementadas pelo seu executivo. E desta vez, honra lhe seja feita, o Dr. Passos Coelho até tem alguma razão. Só em não-piegas que naqueles anos abandonaram o país, o governo liderado por Passos Coelho conseguiu a proeza de reduzir significativamente os números dos centros de emprego. Dos centros de emprego e da população jovem, fértil, activa e licenciada, alegadamente a melhor preparada de sempre. Tem toda a razão, o senhor deputado. Ainda no outro dia, o seu colega Carlos Abreu Amorim fez questão de recuperar esse grande feito. Saudades daqueles tempos de boa engenharia. […]


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