Os homens não usam gravata

Fazer uma gravata a alguém consiste em ir pelas costas e apertar-lhe o pescoço com o braço. Uma boa definição do objecto mais ridículo que pode conter uma indumentária moderna.

Ter o pescoço amarrado com um trapo qualquer sem utilidade alguma seria puro masoquismo se a sua imposição não fosse sádica. Recorda-me sempre a lenda patética do Egas Moniz, da família amarrada pelo pescoço.

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Tendo sempre recusado tal nó (e não me venham com os protocolos, já tive de invocar o mesmo direito que os eclesiásticos a tapar o pescoço de outra forma, abençoadas camisolas de gola alta) e se não entendo o seu uso compreendo o gosto de alguns pelo penduricalho, tal como compreendo os homossexuais, gostos não se discutem e cada um é como cada qual, já a sua obrigatoriedade sempre me fez espécie.

Vem tudo isto a propósito da escandaleira e tolice, para moderar a linguagem, que aí anda porque a maioria dos novos governantes gregos não usam gravata.

A coisa ultrapassa o ridículo quando se podem ler os depoimentos de consultores “de informação”, especialistas “em moda”, profissionais da futilidade e outras aves de arribação, com todo o respeito que tenho pelos pássaros, assegurando que os homens fazem aquilo de propósito, a ideia será passar uma mensagem disto ou daquilo. No mundo onde vivem nem lhes passa pela cabecinha que há pessoas, absolutamente normais, que nunca usaram gravata, e não têm de começar a fazê-lo só porque ocupam o cargo de ministro. E que não se vestem para transmitir uma mensagem, mas muito simplesmente para não andarem nus.

Claro que há política nisto tudo. Historicamente a gravata é um adereço típico da burguesia e vulgarizado aquando da sua ascensão, que tal como o chapéu servia para a distinguir as classes sociais na rua, embora nem se pode dizer que ainda o seja, convém não esquecer que os anos 60 já ocorreram há algum tempo.

E é óbvio que há duas formas de encarar um lugar no governo: uns fazem-no para se governarem, a si e aos seus, tiveram essa meta como uma ambição social e ego-coisa, vestem a gravata simbolicamente, mesmo que pouco a usassem antes. E quando escrevi “vestem a gravata” pensei mesmo nos Coelhos deste mundo, perfeitamente capazes de se vestirem apenas com uma gravata.

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Outros vêem um cargo de governo como uma forma de servir o seu povo, prescindem das mordomias, dos carros com motorista, das viagens em lugares reservados a quem os pode pagar, e da gravata.

É o caso de Tsipras e Varoufakis. Faz toda a diferença.


Nota: A pesquisa para encontrar a segunda ilustração deste artigo ensinou-me duas coisas: que nalgumas línguas “fazer uma gravata” é uma acto heterossexual que não conhecia por este nome, e implica uma senhora de seios avantajados, e que entre homossexuais à falta de mamas deve ser mais qualquer coisa, porque o google imagens me mandou para uma série de sítios do ramo. Poupei-vos a um nu mais helénico, ou michelangelesco, porque sem erecção não apareceu outra além desta e o Aventar é uma casa onde até aparece gente sem sentido de humor, e nem por isso menos respeitável.

Comments

  1. Ausente says:

    E’ uma opiniao como outra qualquer.
    Por exemplo: podiamos andar descalcos em vez de usar sapatos.
    Esta e’ a minha opiniao.

  2. João Mendes Fagundes says:

    Não se preocupe com pesquisas no google João José Cardoso. Quando lhe fizerem uma gravata, vai ver o que tem perdido.


  3. Eu usei um desses paninhos ridículos atados ao pescoço quando era bebé. Penso que a minha mãe lhe chamava “babette”. Depois cresci, como todos, e deixei de precisar. Nunca mais.
    Usar paninhos apaneleirados atados ao pescoço é coisa de gente acéfala e obtusa. SEMPRE o disse e sempre o pratiquei. Devemos pensar no que fazemos e não fazer coisas sem sentido apenas porque toda a carneirada o faz.


    • Se só faz coisas com sentido é lá consigo. Já dizia Pessoa que homem sem loucura é besta sadia que procria! Pois eu gosto de me “apaneleirar” sempre que me dá na gana. E sabendo que isso o incomoda ainda me aumentará o gozo!


      • Se gosta de se apaneleirar, é lá consigo.
        Mas está enganado, isso não me incomoda. Porque você não tem importância suficiente para me incomodar, anónima nulidade acéfala.


  4. O festival que se tem feito a propósito da gravata que os actuais governantes gregos não usam é hilariante, para não dizer apenas patético.
    No entanto, suspeito que a ausência de gravata na sua indumentária seja mesmo uma manifestação de irreverência, de pretensiosa modernidade, sobretudo no que ao primeiro ministro Tsipras diz respeito.
    Ao contrário do que afirma o “post”, se estes governantes “não se vestem para transmitir uma mensagem, mas muito simplesmente para não andarem nus”, é estranho que optem sempre por aparecer com o tradicional fato completo com camisa clássica, que qualquer blusão deitaria abaixo em termos de conforto e de aconchego.
    Excluo Varoufakis do meu comentário, mas considero que se aplica a 100% ao primeiro ministro Tsipras: há uma intencionalidade na forma como se apresenta em público no que se refere ao seu vestuário, sim. Opta pelo traje formal de fato completo, aligeirado pela ausência de gravata. Não creio que vá ao cinema vestido da mesma maneira.
    Agora que atingimos o grau máximo da ridicularia com o relevo dado a este assunto ninguém tem dúvidas!

  5. filipeines says:

    Mas este Aventar é um Blog do BE ou do PS’ ainda não percebi.

    Não publicam nada de outros quadrantes?

    também é efeito 44?

  6. Staticman says:

    A gravata tem mesmo origem no pano que usava uma sanguinária brigada napoleónica de croatas, les croates…


  7. João Jose Cardoso
    Precisamente por a gravata ser um adereço que não serve para nada (embora a da imagem pareça servir para alguma coisa) é que ela é de extrema importância. A vida só com coisas necessárias e úteis seria uma sensaboria. Tornar o seu uso obrigatório tirou-lhe toda a graça. Digo eu que só a uso em alturas de grande festa e porque me apetece. No trabalho não uso e também não percebo a obrigatoriedade. É como os saltos altos numa mulher. Não são úteis mas que fazem toda a diferença ai isso fazem. Tanta que eu jamais me conseguiria equilibrar naquilo.


    • Os saltos altos vêm mesmo a propósito. Mas sobre isso não me quero pronunciar, com senhoras equilibristas não me meto, e aquilo é uma arma de arremesso que me parece particularmente perigosa.

  8. Jorge Martins says:

    Também eu sou um “antigravatista” primário. Sempre odiei tal artefacto do vestuário masculino. Aliás, nesse aspeto, sempre invejei as mulheres: quando há uma cerimónia, podem ir de saia, de vestido, de casaco, de calças e em tons variados; nós, parece que só podemos andar de fato e gravata. Como não sei, sequer, dar um nó na coisa, nunca a pus.
    Além de que, no verão, adoro andar de calções e de sandálias. E já tenho vestido estas com fatos, em casamentos e batizados.
    Já é tempo de libertar a moda masculina e criar alternativas ao fato e gravata.
    Aliás, se houve coisa que me fez logo simpatizar com o BE foi ver os seus dirigentes sem “coleira” ao pescoço.
    Uma amiga preconceituosa achava que eu gostava de me vestir assim para me exibir. Para ela, a ideia de que apenas me vestia assim apenas porque me sentia bem, “para não andar nu”, parafraseando o João José, era-lhe estranha.
    A minha resposta a isso é sempre a quadra do grande António Aleixo: “sei que pareço um ladrão/mas há muitos que eu conheço/que não parecendo o que são/são aquilo que eu pareço”.

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  1. […] o capitalismo em todo o seu esplendor não encontra melhor para criticar que a ausência de gravatas ou os trapos da companheira de Tsipras (os idiotas estão tão habituados ao conceito mulher-de […]

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