Os sítios e os nomes

Finalmente, após um longo – e, certamente, sábio – silêncio no que diz respeito a propostas concretas, António Costa irrompe, firme, com uma das ditas. Dar o nome de Humberto Delgado ao aeroporto da Portela. Compreendo o embaraço das outras bancadas. É difícil e mal compreendido fazer oposição a este tipo de proposta. E, note-se, não duvido da boa vontade dos proponentes nem da sinceridade da sua consideração pelo homenageando. Mas reparem: quando se fazem estes exercícios de toponímia, que consistem em substituir um nome ou referência tradicional e popularmente consagrados por novas designações – independentemente dos méritos dos homenageados -, raramente o novo nome se sobrepõe ao antigo na fala popular, o que reverte em prejuízo da intenção com que a alteração é feita. Portela, continuará a ser Portela, excepto nos comunicados oficiais e, eventualmente, nas notícias da Imprensa. E, aqui, surge a segunda objecção: é que raramente se ouve ou lê uma boa notícia quando se fala de aeroportos. “Avião aterra de emergência no aeroporto Humberto Delgado”, “aviões desviados, devido ao mau tempo no H.D.”, “avião retido com grave avaria no H.D.”, ” ameaça de atentado no H.D.”, “avião despenha-se após descolagem no H.D.”, “voos adiados e caos no H.D.” e por aí fora, estão a ver a ideia.
Abreviando: esta é mesmo a melhor forma de homenagear alguém?

Comments

  1. Konigvs says:

    A mim faz-me muita confusão que se ande sempre a mudar os nomes das coisas, sejam as ruas, os monumentos, ou outros empreendimentos. Muitas vezes, como acontece no Porto, até se deita (estupidamente) abaixo um palácio, e o sítio continua a ter o mesmo topónimo: “Palácio de Cristal”, levando os turistas ao engano. “Sabe-me dizer onde está o palácio”? Não, não tem nenhum palácio, deitaram-nos abaixo nos anos cinquenta. Outros pensam que o palácio afinal é aquele disco voador feito de betão, ou arranjam outras explicações mirabolantes para ficarem como burros, a olhar para o tal palácio feito de cristal.
    E chegamos ao ridículo de vender os nomes. O capitalismo tudo compra e compra agora também os nomes das coisas. O Pavilhão Atlântico é agora de uma marca francesa, que comprou os antigos TLP, que entretanto tinham mudado de nome para PT e depois para MEO.
    Eu sugeria a este governo que se vendesse os nomes todos, de tudo que seja do Estado. Mas tudo mesmo! Façam leilões para que se vendam os nomes das pontes, das auto-estradas, dos tribunais, das escolas, dos hospitais, até da assembleia da república. Vendam até o nome da própria República e retirem a esfera armilar da bandeira e metam lá o logótipo de uma qualquer empresa portuguesa sediada na Holanda. Mas vendam mesmo tudo!

  2. António Duarte says:

    Como nome de aeroporto, Humberto Delgado nem fica pior do que Francisco Sá Carneiro, que substituiu a bem mais agradável designação de Pedras Rubras.

    De resto, e curiosamente, os dois têm bastante em comum, foram políticos populistas e com indiscutível carisma, mas nem um nem outro, prematuramente desaparecidos, deixaram para a posteridade algo que justifique este tipo de homenagem.

    Num caso e noutro, foram as esperanças que despertaram entre os seus apoiantes, num contexto histórico muito específico, que os destacaram entre os políticos do seu tempo, não as grandes realizações que são, gostemos ou não, aquilo que realmente projecta alguns estadistas para além do seu tempo.

    A maioria dos aeroportos não tem nome de pessoa, e a verdade é que isso só se justifica perante figuras marcantes e consensuais como é o caso de JFK nos EUA ou De Gaulle em França, e a verdade é que não temos ninguém comparável no século XX português, pelo que nos deveríamos abster de certo tipo de homenagens demagógicas que, mais do que invocar os homenageados, se fazem para marcar pontos na luta política.

  3. Marquês Barão says:

    Sugestão séria ao Dr. Costa: Aeroporto TAPOLHOS extensão BEJAOTA.

  4. Ferpin says:

    Sempre achei má pontaria dar a um aeroporto o nome dum gajo que morreu num desastre de avião.
    A não ser que seja para distinguir o maior aeroporto de Portugal onde o Sá Carneiro sempre aterrou bem.

    Sendo o Humberto delgado quem foi, ao que dizem foi quem criou a TAP, não acho inapropriado o nome dele no,aeroporto de Lisboa, apesar de reconhecer que ninguém vai usar o nome.

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