Portugueses em extinção

André Serpa Soares

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“Portugal pode perder até 4 milhões de habitantes”, até 2060. Nesse ano, cerca de 40% dos portugueses terão mais de 65 anos. Estas são as conclusões mais dramáticas de um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos divulgado a semana passada pelo Expresso. Este assunto de máxima gravidade não parece ter preocupado grandemente a “Praça Pública”, entretida a discutir outras questões mais rascas.

Devemos juntar a este estudo um facto tão relevante como o de, nos últimos 4 anos, estimar-se que cerca de 400 mil portugueses abandonaram o País. Portugueses dos mais jovens – em idade fértil, portanto – e qualificados, note-se. Foram procurar lá fora o básico que Portugal não lhes dá: perspectivas de vida.

Já vamos aos que partiram e, eventualmente, desistiram de Portugal. Falemos primeiro dos que vão ficando.

Conforme se pode ver na imagem, os portugueses são os que mais horas por semana trabalham na Europa, logo a seguir aos gregos. Mas a verdade é que a nossa produtividade é miserável. Somos mandriões e maus trabalhadores? Merecemos tudo o que (não) temos e ainda pior?

Então, como se explicam casos de inegável sucesso como a Auto Europa, que tem um dos melhores índices de produtividade da empresa alemã em todo o mundo? Ou o sucesso de tantos e tantos trabalhadores portugueses, qualificados ou não, pelos quatro cantos do mundo, onde gozam da justa reputação de incansáveis e dedicados trabalhadores?

Tenho para mim algumas ideias que adiantam respostas.

Os portugueses são de facto trabalhadores. O problema assenta sobretudo na deficiente organização do trabalho. Nas más condições de trabalho. Na baixa (e desmotivadora) remuneração que auferem os trabalhadores neste País. Na falta de estratégias adequadas de gestão por parte do “patronato”. Na aposta na produção de bens e serviços de pouco valor acrescentado. No mau “branding” e “marketing” da produção nacional.

Trabalhamos muito. Ganhamos pouco.

E, para quem viaja por essa Europa fora e fala com outros europeus, não se podem ignorar outras questões: o custo de vida em Portugal não é menor que nos países ricos. Desde o custo das escolas, até ao cabaz básico nos supermercados, já para não falar no preço da energia (luz, combustíveis, etc.), telecomunicações, transportes…

A verdade é que pagamos mais por automóveis, portagens, combustível, gás, electricidade, ou educação do que muitos países ricos da Europa.

Temos políticas de incentivo à natalidade que, comparadas com as melhores práticas na Europa, seriam risíveis, se não fossem dramáticas.

Sim, é verdade, uma garrafa de vinho, um maço de cigarros ou uma refeição num restaurante são mais caros noutros países. Mas quem se preocupa verdadeiramente com isso antes de se preocupar com o básico da sobrevivência?

Além de tudo isto, temos uma carga fiscal que é um autêntico esbulho. Uma máquina do Estado ineficiente, cheia de burocracia e pesada que trabalha sobretudo para si própria. Mercados semi-monopolistas, com preços elevados garantidos. Falta de verdadeira concorrência em sectores vitais.

Todas as verdadeiras reformas estão ainda por fazer. E passam, sobretudo, por começar a atacar os “custos de contexto”, libertando os recursos que engordam as contas bancárias dos “filhos do sistema” para benefício de todos os outros, os “enteados”, que somos nós, os cidadãos comuns, o povo.

Aumentar os salários. Reduzir o esbulho fiscal. Dar esperança. Perspectivas de vida. Ter visão. Estratégia. Melhorar as condições de trabalho. Isto é o que se tem de fazer para inverter o ciclo vicioso em que nos enredámos. Cuidar dos que aqui querem viver, crescer e, eventualmente, multiplicar-se.

Então sim, isto feito, poderemos pensar em recuperar todos aqueles que tiveram de procurar melhor sorte “lá fora”. E, eventualmente, nem será necessário criar programas pífios para o efeito. Eles voltam por si. Porque os portugueses, tenho para mim, gostam verdadeiramente de Portugal e uns dos outros.

Ou isto, ou continuar este programa eugénico em que nos deixámos enredar.

Comments

  1. JgMenos says:

    É como diz, mas que vale pouco, comparado com:
    os descontos do PPC
    os prefácios do Cavaco
    os silêncios do Costa
    as greves da CGTP
    ou seja, toda a merda é mais importante do que resolver os problemas…até à extinção de tanta mediocridade.


  2. O Estado absorve inúmeros recursos. Não tem emenda nem parece que a situação possa melhorar. Para se financiarem encontram sempre espaço no bolso do contribuinte. Muitos portugueses emigraram não apenas porque Passos Coelho os mandou, querem lá saber do Passos Coelho, de António Costa ou do político que estiver de turno em S. Bento, vai dar ao mesmo. O que não querem mesmo é continuar dividindo os ganhos com o Estado. Basta pensar um pouco, mas alguém quer ser esbulhado em 40% ou mais do seu rendimento? A que propósito? Portugal serve cada vez mais para passar uns dias de férias e pouco mais… Os que sairam e encontraram sucesso noutras paragens, não voltam…

  3. Rosa pinto says:

    Ora então hoje na tv no telejornal ouvimos o sr troica a constestar o aumento que houve no ordenado mínimo oh céus os deuses estão bestas …até aqui ao lado os spains auferem o dobro fosga se para esta estrumeira…estou cansada de ser pobre e de me sentir a cheirar mal porque este cantinho e ainda como dizia o nosso rei -os piolhosos

  4. amiguel says:

    “Os portugueses são de facto trabalhadores. O problema assenta sobretudo na deficiente organização do trabalho. Nas más condições de trabalho. Na baixa (e desmotivadora) remuneração que auferem os trabalhadores neste País. Na falta de estratégias adequadas de gestão por parte do “patronato”. Na aposta na produção de bens e serviços de pouco valor acrescentado. No mau “branding” e “marketing” da produção nacional.”
    Faltou acrescentar a mola real do bom desempenho: uma boa liderança, feita por verdadeiros líderes, por que líder não é quem quer, mas é quem pode. Aqui se encontra o “calcanhar de aquiles” o nó górdido da gestão e da produtividade dos portugueses !!!

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