É muito difícil ser-se político

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Digo eu, apesar da minha experiência no ofício ser mínima. Toda a honestidade do mundo não basta: ainda assim está-se sempre sob suspeita. Os enxovalhos são constantes, digamos o que dissermos, e há momentos em que apetece desistir de todo e qualquer envolvimento cívico.

Quantos portugueses, entre os que não participam na política, suportariam ler as toneladas de “hate mail” e de comentários anónimos injuriosos e difamantes que invariavelmente se lêem na internet sempre que os nossos depoimentos, quaisquer que eles sejam, são publicados?

Se defendes ideais de Esquerda, és um comuna. Se de Direita, és um facho. Se moderados, és do centrão. Se fores filiado num partido, és um “boy”. Se não fores, és um arrivista. Se inicias a vida política num período tranquilo, és um carreirista. Se a inicias num período conturbado, és um oportunista. Se te diriges ao eleitorado, és um populista. Se te diriges às elites, és um autista. Se defendes o investimento público, és um despesista. Se não defendes o investimento público, és um retrógrado. Se tens um passado impoluto, és um moralista. Se tens um passado atribulado, és um corrupto.

Não obstante, os políticos só existem em regimes democráticos; a sua alternativa são os déspotas. Por isso admiro quem se entrega à política para propor um rumo aos seus concidadãos, e se dispõe a defender sinceramente aquilo em que acredita apesar do opróbrio sobre ele lançado.

Comments

  1. joao lopes says:

    eu não sou do PCP,mas cada vez que faço um comentario(poderia agora falar da lista VIP,por exemplo) sistematicamente sou apelidado de “comuna”.porquê? porque não gosto de listas VIP(por exemplo) e mais uma vez tenho que criticar este governo.criticar este governo faz de mim um “comuna”? não,não faz.o que acontece é que os portugueses já não sabem,sequer…dialogar.


  2. Hate mail?

  3. António says:

    Muito bem!

  4. Ricardo Sousa says:

    Gostaria muito que houvessem esses tais politicos que só enveredaram por essa via, mas para servir o país.
    Infelizmente o que abunda neste país e não só, são aqueles que se filiaram em partidos politicos para governarem a sua vida.
    Veja por exemplo no you tube a serie Brasileira ” A politíca na Suécia” e compare com a ppolitica e os politicos portugueses.
    A diferença é abismal. Não é a toa que os países nordicos são considerados o primeiro mundo.
    São países em que a cidadania funciona e quando não funciona a justiça encarrega-se de que funcione.


  5. Pelo post depreendo que o autor considera os políticos todos iguais e a maioria é colocada no “altar” quando diz:

    “e se dispõe a defender sinceramente aquilo em que acredita apesar do opróbrio sobre ele lançado”

    Seria fastidioso demonstrar que esta sarna que nos governa à cerca de 40 anos, tem alguma crença em servir o povo e o País.

    P.S. Só posso concluir o “aquilo em que acredita” como o Bem Público.

  6. Pedro says:

    Caro Adelino Ferreira,
    O artigo não é uma apologia da maioria actualmente no governo, nem da sua oposição. É uma simples constatação. Tampouco presume serem os políticos todos iguais, antes lamenta que a opinião pública os trate todos por igual na desconfiança.
    PBA


  7. Pedro Amaral, pelo seu comentário fico com a sensação que considera a “maioria” de que falo, a maioria que nos governa. Se assim for corrija p.f.,pois o que quero dizer é “maioria dos políticos”
    Cumprimentos


  8. Os políticos podem não ser todos iguais, acredito que não o sejam, mas às vezes é difícil descobrir as diferenças. Em primeiro lugar por serem necessários alguns anos nas jotas para atingir um patamar de destaque. Depois porque funcionam em pirâmide numa lógica de dependência interna. Para serem candidatos a algo, seja uma autarquia ou lugar de deputado devem o lugar ao Partido, com toda a carga de favores e dependências que isso acarreta. Existissem círculos uninominais onde se apresentassem ao eleitorado, o caso mudaria de figura, porque ganhariam uma legitimidade própria. Claro que isso arrepia os partidos pela dependência dos cabos eleitorais e populismo, veja-se o exemplo de Alberto João Jardim. Verdade que apareceram alguns figurões nas autarquias, mas serão escassas dezenas entre mais de 300 câmaras municipais. A A.R. passaria a albergar mais alguns, mas seria seguramente uma parte ínfima que se diluiria. A grande vantagem seria o escrutínio a que seriam submetidos antes de eleitos. No actual sistema temos a devassa à posteriori. Seguramente os partidos e seus boys têm pólvora suficiente guardada, à espera que figuras de segundo plano ganhem relevo no Partido rival. Tem sido sempre assim. Todo este sistema parasitou o Estado. E não interessa aos Partidos mudarem, porque dele dependem.

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