Recibos verdes

Flávio Martins

Sempre trabalhei a recibos verdes. Dos verdadeiros, mas sobretudo dos falsos. Nunca conheci outra relação com o mundo laboral. Nunca conheci outra cor de governo que não o rosa ou o laranja.
Foi o Mário Soares que trouxe esta nova forma de exploração para a economia portuguesa, que a vendeu como medida de futuro, de crescimento e desenvolvimento, de criação de postos de trabalho. Criou um monstro que devora Portugal.
Somos o novo Lumpemproletariado. Ninguém sabe quantos somos. Não convém sabermos quantos somos. Nos censos, o INE nunca se deu ao trabalho de aferir quantos vivemos sob este “novo” regime de exploração.
Somos a desresponsabilização social do estado e do empregador. Somos cobradores do estado.
Somos o fim do estado social.
Para quem dá mais do que metade do seu vencimento ao estado, para depois nem ter direito a reforma ou subsidio de desemprego, não faz sentido algum contribuir. Sem contribuintes não há estado social. E é isto que querem. Há anos. Décadas. E é isto que temos e somos. Uma carneirada crescente sem rebanho algum. Cada um isolado no seu posto de trabalho a alimentar o vírus.
Os recibos verdes são um vírus.
Espalhado por todas as profissões da economia, ataca isoladamente as suas vitimas na base da cadeia de alimentação do capital: o Lumpemproletariado. Não temos sindicato que nos valha, não temos quem nos defenda aguerridamente nos círculos eleitorais, eleitoralistas e populistas que ocupam os poderes. É simples, ninguém investe numa massa desorganizada de explorados sem poder reivindicativo, sem consciência de classe.
Nós trabalhamos à peça, para Marx somos equiparados a prostitutas, porque na realidade é o que somos: as finanças nas suas penhoras tratam-nos como mercadoria. O meu vencimento, a contra-partida da minha força de trabalho, é penhorável a 100% porque é vista como produto, mercadoria.
Sou técnico de som e músico, mas para o estado, vendo melões. Não há lei que nos valha.
E desenganem-se: também não há partido que nos valha. Quando denunciei no meu facebook que há mais de 7 anos e meio que eu e os meus colegas técnicos trabalhávamos em regime de falsos recibos verdes numa câmara comunista, fui saneado: uma carta registada para casa com aviso de recepção.
Saneado por delito de opinião: Portugal 2012. Fiz barulho. Alguém me valeu? Nem esquerdas nem direitas. Tá-se tudo a cagar para 1 gajo. Porque sou 1 gajo. Não sou 1 colectivo. Esta é a nossa condição.
Nós somos o Lumpemproletariado. Nós somos os recibos verdes, somos transversais a toda a economia. Somos invisíveis aos censos, somos falsos empregados intermitentes, seremos (quando maioria) o advento da economia paralela, o fim da natalidade.
Somos o novo Portugal: amordaçados, isolados na exploração, filhos do capitalismo neoliberal, a terceira via. É isso. À terceira é de vez. É a conta que deus fez.
Só há uma solução: o fim dos recibos verdes. Sim, assim, a sangue frio. Tem sido a sangue frio que nos violam o presente e hipotecam o futuro. “Queres empregar alguém em Portugal? – contrato de trabalho.”- era assim que devia ser. Assim e como na Inglaterra e outros países para onde fugimos a mando do Passos Coelho: ao fim do mês/semana tens o dinheiro na conta e um recibo na mão a dizer-te quanto descontaste e para o quê.
Discutir a reforma fiscal é também discutir os recibos verdes. Tem que ser.
Que se reúnam grupos parlamentares para acabar com esta praga, que se unam os explorados (não sei como), que haja coragem política de pegar nesta luta e levá-la até ao fim. Porque são precisas essas duas coisas: consciência de classe por parte dos explorados a recibos verdes e coragem política de quem ocupa cargos políticos. Porque sem coragem não vão lá. Nunca há-de ser pelos votos dos desorganizados que os políticos se irão organizar. Preferem infiltrar “movimentos sociais” para sacar votos, ou criar partidos uns atrás dos outros, para serem a alternativa à alternativa.
Só dá vontade de rasgar o BI e desaparecer. Tu também pensas nisso. É porque estamos cansados.
E sobre este nosso pensamento sobre os futuros possíveis muito haverá para reflectir, mas é preciso acção. O futuro já passou.

Comments

  1. luis says:

    Concordo com o que diz sobre a exploração, (roubo), dos trabalhadores a recibo verde.
    No entanto neste país, o direito a formar uma associação ainda não está proibido.
    Claro que esta enorme injustiça não devia vir da capacidade de lobi de cada um, devia partir dos partidos e seus deputados.
    Mas em Portugal cada qual trata da sua vidinha.

  2. martinhopm says:

    É de facto uma vergonha. «Invenção» do «pai da pátria»? Devemos-lhe isto e, infelizmente, muito mais. Os partidos, refiro-me aos dois partidos de esquerda com assento na AR, deviam ser mais sensíveis a este problema, que afecta milhares (?) de trabalhadores e que, no fundo. afecta todo o país que trabalha.

  3. ferpin says:

    A não ser que proíbam qualquer tipo de actividade de acumulação em relação à profissão por conta de outrem do trabalhador terá que haver recibos verdes.

    Os recibos verdes não têm a culpa. O uso que se faz deles sim.

    Era muito fácil impedir os falsos recibos verdes, ou seja o trabalho subordinado disfarçado de profissão liberal como aparentemente seria o caso do autor do artigo numa câmara (comunista ainda por cima).

    Se um trabalhador não tem qualquer actividade por conta de outrem e só tem recibos verdes, era a LEI estudar a situação.

    Se o seu rendimento é todo ou quase todo oriundo do mesmo Patrão, a LEI ia estudar a actividade do dito, para saber por exemplo se é ele que abre a porta da loja todos os dias de manhã ou outro conteúdo funcional (horários rígidos e fixos, subordinação funcional, etc). Caso se provasse isso, o trabalhador passava imediatamente ao quadro e a empresa seria multada fortemente por violação da lei do trabalho.

    Era fácil. bastava que houvesse LEI e JUSTIÇA em Portugal.

  4. Rui Moringa says:

    Queira adicionar a minha revolta com o que relata.
    Claro não tenhamos ilusões. Os que dizem defender os trabalhadores, apenas se servem deles também iludindo-os. Na hora de agir comportam-se da forma que relatou.
    Sim uma reforma fiscal deveria regular muito bem o trabalho, a única forma de criar riqueza.
    É por testemunhos como o seu que estou fora deste sistema de partidos vigentes.


  5. Flávio Martins, estou de acordo com o que diz, só não entendo porque omite o nome da dita Câmara comunista.

  6. Azamboar says:

    Pois eu já nem sei de quem é maior a culpa: se do explorador, se do explorado. Estou a trabalhar numa equipa. Todos os meus colegas são vigorosos defensores da lei da oferta e de procura do mercado, justificando assim as condições humilhantes que lhes oferecem em cargos de responsabilidade jurídica, que se transferissem para um contrato de trabalho, nem ao salário mínimo corresponderiam. Eu já vi que o pessoal gosta muito de ser sodomizado e portanto esta questão da luta de classes, tá bem abelha, que há boa gente que até desenvolveu agradecimento pelos tostões que recebe e devoção para com os seus abusadores.
    Pessoalmente quero que a sociedade se lixe com as tangas que aquele gajo do Norte andava a vender, (Miguel Gonçalves?) do que era preciso era bater punho e trabalhar sempre, nem que seja de graça. E que temos é que estar sempre activos, para que nos vejam. Pois o senhor da bomba de gasolina vê-me bastante mais do que qualquer eventual empregador e para perder dinheiro, vá quem quiser que eu passo de bom grado. Muito brevemente os meus “patrões” vão provar do seu próprio veneno e se “eu posso ir para a rua de um dia para o outro, sem explicaçôes”, o inverso também pode acontecer. Só para vê-los com as calças na mão, até abdico da esmola que receberia por mais uns dias de trabalho. Vão talvez ouvir o conceito “dignidade profissional” pela primeira vez. Mas nunca é tarde demais!! Vai ser bom.

  7. Rui Manuel de Carvalho Pereira Cabral says:

    gosto muito de trabalhar. no sentido de construir, fazer, ajudar, criar. tive, literalmente, dezenas de empregos. em vários países. não estou é disponivel para contribuir para a felicidade de quem acha que, por direito divino e esperteza saloia é melhor que os outros. temos de aprender a dizer não, quando não estiver certo. quem quiser, como empregador, um bom trabalhador, dê-lhe um contrato. se merecer. esta lógica do só não trabalha quem não quer é uma evasiva de quem quer ganhar muito, depressa e mal. subscrevo tudo o que disse o Azamboar, acima. boa sorte para todos. mas não se esqueçam de gritar, quando for o caso.

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