A sobrevivência do mais apto

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Em Portugal como no resto do mundo, os partidos não são todos iguais. O cliché é bastante útil para as elites dirigentes, mas a verdade é que o nosso regime tem duas faces: PS e PSD. Às vezes, como é o caso actual, o regime traz um CDS-PP atrelado que, por ter um líder mais hábil do que praticamente todos os militantes dos dois outros partidos, consegue ter mais poder do que seria de esperar de um partido cuja base eleitoral ronda os 10%. Uma reduzida expressão eleitoral que contrasta com o poder de um partido com dirigentes de topo envolvidos em quase tudo o que é falcatrua neste país sem que um único seja sequer beliscado pela lei. Abençoado São Jacinto Leite Capelo Rego.

Temos então um país controlado por um bloco central, com ou sem “táxi”, que, olhando para os principais indicadores que caracterizam a sua economia e tecido social, teve uma intervenção manifestamente negativa durante os 40 anos que governou em sistema de alternância com o ocasional bloco central à mistura. É verdade que o Portugal dos dias de hoje não é o Portugal de 74, com as suas auto-estradas, passeios, saneamento, luz eléctrica e, entre outros aspectos, um conjunto de serviços públicos que, apesar de cada vez mais espremidos e sacrificados em nome de um ajustamento selectivo, ainda desempenham um papel fundamental no bem-estar das populações. Mas não será menos verdade que a esmagadora maioria destes “saltos evolutivos” se fizeram à custa de fundos europeus, fundos esses que vieram a troco da destruição de parte significativa da capacidade produtiva do país em sectores chave como a agricultura ou as pescas, hipotecando o nosso futuro. Para além disso, e o português tende a esquecer esse “detalhe”, é para isso que pagamos aos políticos: para trabalhar.

Por outro lado, a falta de supervisão e a letargia social permitiram que a maioria dos protagonistas desse mesmo bloco central endividassem o país até limites incomportáveis, colocando o eleitoralismo à frente do agora tão em voga rigor financeiro, servindo clientelas com obras públicas megalómanas, pagando campanhas com ajustes directos, viciando contratos públicos e apostando num sistema de distribuição cadeiras que, em cascata, tornou milhares de portugueses indirectamente “reféns” destas manobras eleitoralistas. Porque existem famílias inteiras dependentes do tacho de um único boy, quando não são todos os membros dessa família a receber, cada um, a sua própria panela. E assim se criam as redes que representam um dos principais pilares que mantêm esta gente no poder. Claro que, para quem opta por não pensar e engolir a mais básica das propagandas, todo este parágrafo poderá ser substituído por “os portugueses viveram acima das suas possibilidades”. Excepto as castas que, como devem imaginar, integram o grupo dos únicos portugueses a levar uma vida responsável e espartana, longe da nossa fúria consumista feita de frigoríficos, refeições de carne e idas ao dentista.

Para facilitar esta missão, na era em que a manipulação e o controle mediático substituíram, com eficiência, o uso da violência física, o regime dispõe de outras ferramentas. Uma rápida viagem pelo universo da maioria dos órgãos de comunicação social nacionais permitirá ao leitor perceber que as colunas de opinião e o comentário político na rádio ou na TV são maioritariamente dominados por deputados, dirigentes e militantes afectos aos partidos do regime. Como não poderia deixar de ser, a esmagadora maioria destas personalidades limita-se a traduzir os discursos ideológicos e estratégicos dos partidos que representam, substituindo uma análise criteriosa e assertiva por outra que vá de encontro aos interesses dessas mesmas estruturas. Na blogosfera o cenário mantém-se, com o adicional de alguns destes opinadores optarem por se esconder atrás de um pseudónimo. Alguns tentam demarcar-se dos interesses que verdadeiramente representam, mas o esquema cai por terra quando percebemos que a imparcialidade fica sempre em casa. Entre boys socialistas de T-shirt do Ché Guevara, sempre prontos para se banquetear no que de melhor tem para oferecer o capitalismo selvagem, e alguns ditos liberais cujo conceito de liberdade pelo qual se batem assenta fundamentalmente no esvaziamento do Estado e na luta por uma iniciativa privada sem restrições, orientada exclusivamente para o lucro e para o esmagamento da sociedade civil, qualquer tentativa de apresentar uma alternativa ao seu próprio espectro é imediatamente manipulada, demonizada e ridicularizada. E quem neste ofício se destaca arrisca-se a conseguir uma boa secretaria de Estado como ficou provado com a ascensão de Pedro Passos Coelho e dos seus “bloggers da corda” manipuladores de fóruns da TSF.

Tudo isto a propósito do ataque feroz à ascensão do Syriza e à possibilidade do Podemos vir a ganhar as Legislativas em Espanha. Reparem que o ataque destas castas à Frente Nacional ou a outras forças políticas da extrema-direita europeia é manifestamente mais suave. E não à toa porque, entre os soldados do regime, o saudosismo fascista impera, apesar de subterraneamente para não assustar mais a prole. Por outro lado, o emergir de novas forças políticas prontas para governar à esquerdas dos PS’s desta vida , antevê uma imensa onda de pasokização europeia. A paciência é uma virtude e o regime não se pode queixar das condições do mundo clientelista em que vive. Tudo a seu tempo.

Eu não me considero em condições para avaliar um mês e meio de Syriza, sob permanente chantagem e ataque por parte dos cães danados do regime, muito menos para especular sobre o que poderá um governo liderado pelo Podemos fazer. Ambos podem significar uma nova página na vida política europeia ou acabar por se revelarem um desastre total. O que me intriga é o radicalismo com que são tratados, apesar das concessões, radicalismo esse que contrasta profundamente com a candura com que se abordam temas como o fundamentalismo da corrupção, do tráfico de influências, dos grandes bancos que promovem a evasão fiscal, da má gestão de recursos públicos que gera despesa excessiva e inútil e/ou de qualquer outra forma de criminalidade de colarinho branco. A justificação para esta dualidade de critérios, a meu ver, assenta fundamentalmente na possibilidade da ascensão destas forças políticas representar o início do fim deste regime. E o fim deste regime seria o fim do sistema clientelista como o conhecemos. E, como seria de esperar de um regime que quer prevalecer, todas as armas estão apontadas para estes inimigos do feudalismo da idade moderna.

É que eu até aceito, em certa medida, a opinião daqueles que consideram que o voto no Syriza foi um voto de protesto e desespero de um povo em enorme sofrimento por tempo demais. Não que concorde com ele, mas aceito. Agora ver um partido como o Podemos, nascido há meses, ser permanentemente atacado com argumentos patéticos como a ligação venezuelana, quando a Venezuela tem sido um parceiro privilegiado do Estado português e um dos destinos habituais de Paulo Portas, ou assistir aos soldadinhos do regime espumarem-se com acusações vagas de financiamentos ilegais deste partido quando os partidos que suportam tem sido reis no uso do dinheiro obscuro e opaco sem que estes imbecis abram a boca para dizer o que quer que seja, é algo que me perturba. Porque a maioria destes teóricos do regime não são jotas ignorantes e manipuláveis. São pessoas verdadeiramente inteligentes, perfeitamente informadas e capazes de juízos racionais. E, assim sendo, aquilo que os move não é o que será melhor para o país ou para a Europa mas antes aquilo que melhor serve o seu status quo. Independentemente de quantos pacientes morram nas urgências, de quantos trabalhadores sejam forçados à precaridade, de quantos jovens tenham que emigrar, de quantos idosos tenham que ficar sem as suas pensões ou de quantas pessoas sejam empurradas para a pobreza, o regime seguirá o seu caminho, inflexível e nós continuaremos iguais a nós próprios. Passivos e domesticados.

Comments

  1. Nightwish says:

    Quem ler as declarações dos membros do Syriza, principalmente de Varoufakis no encontro-das-esquerdas-que-não-sei-o-nome em 2012 só pode ficar assustado por quanto não querem mudar o sistema, porque não têm muito de radicais, só de um mínimo de bom senso.


  2. Tinha que estragar tudo ao falar nesses dois partidozecos de trazer por casa. Que pena, até estava a gostar do artigo.

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