Iémen. Razões para o massacre.

O ponto de partida para uma melhor compreensão das dinâmicas actuais no Iémen, deve passar por uma leitura prévia do texto publicado a 23 de Janeiro, A Crise no Iémen.

As razões para o massacre da passada 6ª-feira em duas mesquitas xiitas de Sana’a (entre 137 e 142 mortos, as fontes contradizem-se), uma vez mais de forma quase telegráfica, sem no entanto ser simplista, são as seguintes:

1º É necessário clarificar, relativamente a um dos dados do referido texto, que a demissão do Presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi não foi irrevogável, continuando no cargo. Após a tomada de controlo da capital Sana’a pelos houthis, a Presidência, o Governo, as Embaixadas e demais instituições públicas, abandonaram a capital e rumaram até Áden, no sul, num movimento táctico, cujo objectivo principal foi o da procura da legitimação por parte da Comunidade Internacional, garantido de imediato e em simultâneo, já que as Embaixadas e respectivo pessoal, acompanharam institucionalmente o Governo legitimo do Iémen;

2º Esta descida até Áden visa isolar política e internacionalmente os houthis, apenas reconhecidos pelo Irão;

3º Visa também diluir e travar as intenções separatistas do Harak Janouby, Vanguarda Sulista, liderada pelo marxista-leninista Ali Salim al-Beidh, movimento em crescendo e que pretende voltar à geografia política da Guerra Fria, com um Iémen do Norte e outro do Sul. O pior que poderia acontecer, caso o Governo de Hadi se mantivesse em Sana’a, era entrar em escaramuças permanentes com os houthis, possivelmente numa guerra civil, cujo caos permitiria, ou pelo menos facilitaria, um fortalecimento das posições separatistas, certamente apoiadas por uma aliança de interesses russos e iranianos. (Ali Salim al-Beidh é identificado no texto anterior como sendo socialista. Também, já que ele é tudo o que represente a secessão com o norte);

4º O actual Iémen é um excelente exemplo da Real Politik, já que se trata do território de uma crescente Proxy War entre a Arábia Saudita e o Irão, os quais se confrontam em território iemenita por interesses regionais antagónicos (Golfo Pérsico, Estreito de Ormuz, populações xiitas em território saudita, mais a questão do nuclear iraniano), apesar de colaborarem (sem se falarem, bem entendido) nos ataques ao “Estado Islâmico”, no Iraque e na Síria, já que são também uma ameaça para ambos, para além de o serem para todo o Mundo;

5º Os ataques de 6ª-feira foram reivindicados pelo estado dito islâmico, o que confere uma surpresa total. Esta reivindicação parece ter algum fundo de verdade, por ter sido o mesmo órgão de informação (Gabinete Media da Província de Sana’a do “Estado Islâmico”), a reclamar a autoria dos atentados em Tunes e Sana’a. No entanto, é sabido que o “Estado Islâmico”, por muito que queira, ainda não tem chão político no Iémen, a não ser que haja uma transferência em massa de operacionais da Al-Qaeda da Península Arábica (AQPA), para este novo grupo, o que é possível, já que se sabe que pagam bem;

6º Bastaria uma pequena célula, deste novo grupo, ou até mesmo da AQPA, ao engano, para perpetrar o atentado e depois ser reivindicado com grande pompa e ameaças futuras, como o foi. Também não colocar fora de hipótese haver aqui interferência do antigo Presidente Ali Abdullah Saleh (ler texto referido);

7º O Iémen sempre foi palco de lutas tribais e regionais, mas as mesmas também sempre tiveram como pano de fundo a normal e humana lógica do acesso ao Poder e/ou a recursos naturais, nunca foi tão sectarizada religiosa, tribal e regionalmente como o está agora, sendo este massacre a prova de que o interesse é o de potenciar esta nova realidade até ao limite. A ser verdade que se tratou de um ataque idealizado, preparado e levado a cabo pelo “Estado Islâmico”, é assim concretizado por um terceiro, por um outsider, que pretende semear o caos para assegurar a sua própria sobrevivência e ascensão e, não pela parte logicamente mais interessada, as forças governamentais a quererem recuperar o controlo da capital, que perderam para os houthis.

Consequências:

Os houthis estão de momento numa “cavalgada” em direcção a Áden, tendo já tomado o aeroporto de Taiz, a terceira cidade do país, a “meio caminho” entre Sana’a mais a norte e Áden mais a sul e a escassíssimos minutos (3 a 4 min. de Áden) de caça-bombardeiro que a partir daí podem levantar voo (fala-se de pilotos iranianos no local e demais “conselheiros militares”). De referir que neste eixo de cerca de 300 km, Sana’a é controlada pelos houthis, Taiz pelos homens do ex-Presidente Saleh e Áden, pelos homens do actual Presidente Hadi. Será sensato concluir que caso se queira chegar a bom porto, o fiel da balança aqui terá que ser obrigatoriamente Saleh, que aliás sempre se mexeu nesse sentido, desde que teve que ceder o Poder para o seu Vice-Hadi, em Junho de 2011.

Sabe-se também que 20 houthis já foram mortos na região sul, próxima de Áden e que 100 operacionais da AQPA também estão a caminho da antiga capital do Iémen do Sul, já que terão naturalmente uma palavra a dizer nesta competição com o “Estado Islâmico” e/ou, estão a ser manipulados por alguma das partes (mais que provavelmente por Saleh e/ou Arábia Saudita/Qatar), para agirem consoante o interesse da desestabilização, ou estabilização.

Ao nível institucional, as movimentações são claramente favoráveis ao Presidente Hadi, com o Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Omã, Kuwait, Qatar e Emiratos Árabes Unidos), reunidos neste preciso Domingo em Riad, no sentido de apoiar e reforçar os poderes do Governo legítimo do Iémen e isolar o Irão.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas também se reunirá de emergência este domingo, exclusivamente pelo escalar da situação no Iémen, tendo já na declaração que marca a agenda, referido condenado os ataques de 6ª-feira, afirmado o reconhecimento do Governo Hadi, bem como identificado os houthis como os grandes perturbadores e ameaça à paz e segurança no país.

Quanto aos Estados Unidos da América, tendo como prioridade da sua agenda internacional as negociações com o Irão sobre o programa nuclear destes (retiraram o Irão e o Hezbollah da lista dos Estados/Organizações terroristas há uma semana) e estando as mesmas a 10 dias de mais um prazo final, sempre revogável, irão certamente ver em cima da mesa a questão houthi/Iémen como mais um elemento de moeda de troca, certamente favorável aos iranianos, já que são estes que comandam as movimentações xiitas da e na região. Para não serem apanhados no fogo cruzado, os americanos fecharam a Embaixada bem como recolheram o seu pessoal militar que numa pequena base, algures no sul do país, combate a AQPA.

De momento e nas próximas horas, o que será decisivo para os próximos dias, é o que se passará no terreno, nomeadamente a partir da cidade de Taiz, a qual tem na sua juventude a maior resistência a este avanço houthi, acusando-os de promoverem a guerra no país. Quem controlar Áden, controla Bab-el-Mandeb, o Estreito das Lágrimas (Portão, na tradução literal) tão bem conhecido e controlado pelo nosso Afonso de Albuquerque e que liga o Oceano Indico ao Mar Vermelho e por sua vez ao Mediterrâneo pelo Canal do Suez, o que está a deixar também os egípcios demasiado ansiosos.

Ano Novo Persa e Curdo.

O início da Primavera, coincide sempre com o início do Ano Novo Persa e Curdo, pelo que foi opção ter escolhido esta fotografia/cartaz, para ilustrar este texto a propósito de assunto tão pesado. Parabéns também à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que não deixou passar em branco esta data e se associou à sua celebração.

Nowruz Moubarak Habibis!!!

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

Também publicado no Blogue Maghreb/Machrek

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