O efeito Sócrates e o risco de “pasokização”

Na semana passada, o Fernando Moreira de Sá falou-nos sobre a mais recente sondagem da Católica que coloca a coligação PSD/CDS-PP à frente do PS. E apesar deste estranho alinhamento com a propaganda assente na manipulação de dados que tem caracterizado a narrativa da coligação:

O país está melhor? Está. O desemprego baixou, a economia parece estar a melhorar, o consumo das famílias a crescer (é um bom indicador de confiança económica), o sector imobiliário a mexer, o sector automóvel a vender, a banca novamente a emprestar, o Portugal 2020 a dar esperança.

penso que estamos de acordo no essencial: o problema do PS de Costa chama-se José Sócrates. Tal como daqui por outros quatro anos o problema do PSD se poderá chamar Marco António Costa caso o resultado final deste filme seja o expectável e os socialistas saibam, tal como os sociais-democratas convertidos em pseudo-neoliberais e os irrevogáveis centristas tão bem estão a saber fazer, instrumentalizar o caso. Aliás, o PSD parece mesmo querer entrar nesta arena à força com a reabilitação política em curso de Miguel Relvas.

O caso Sócrates, porém, veio para ficar pelo menos até ás eleições. Isto se tivermos em consideração as declarações do procurador Rosário Teixeira, que afirmou recentemente que a fase de inquérito não estará concluída antes das Legislativas. Imaginem o confronto directo entre a coligação e o PS: de um lado, grita-se Sócrates, do outro Marco António Costa. Vamos ter animação, este ano nem vale a pena gastar dinheiro em comícios, basta manipular uns fóruns da TSF e a coisa deve ficar resolvida.

Ainda sobre Sócrates, a mesma Universidade Católica que no dia 19 tornou públicos os resultados da sondagem referida publicou no dia seguinte um novo estudo, a pedido dos mesmos orgãos de comunicação social, em que era perguntado aos inquiridos se consideravam que o processo judicial que originou a detenção de José Sócrates iria influenciar ou não o resultado do PS nas Legislativas. Sem surpresa, 54% dos inquiridos não parece ter dúvidas que sim. Desses 54%, 88% afirmou o óbvio: o efeito Sócrates terá um resultado prejudicial para o PS.

Mas nem só de Sócrates vive a hecatombe em curso no PS. Olhando para os resultados surpreendentes da sondagem que coloca a coligação à frente dos socialistas, ainda que com uma vantagem magra, sobressai a ideia de que, apesar dos escândalos, dos sucessivos erros de gestão, da manipulação de indicadores ou do não-atingimento de metas associado ao actual governo, o Partido Socialista parece estar em processo de “pasokização”. Deposto o homem que atravessou o deserto socrático, António Costa foi anunciado como um D. Sebastião que chegava para nos salvar. Porém, a tropa socrática que o rodeia, as constantes hesitações, a falta de uma alternativa concreta face à situação actual do país ou a oscilação entre a defesa do Syriza e a componente liberal presente no programa económico de Mário Centeno revelam dois aspectos altamente prejudiciais às expectativas do partido. Por um lado o fantasma de Sócrates, por outro um encostar aos ditames da austeridade, ainda que com outras vestes. Digam o que disserem, seria no mínimo ingénuo acreditar que Costa terá a ousadia de desafiar as instituições internacionais que seguram o garrote em torno do nosso pescoço.

Achamos sempre que determinadas coisas só acontecem noutras paragens. No entanto, a sondagem da Católica demonstra que, a 4 meses do acto eleitoral, o PS vai perdendo gás e mesmo que ganhe, dificilmente conseguirá mais do que uma maioria relativa, o que obrigará o partido a coligar-se para governar com estabilidade. E se os sinais que vêm de dentro nos demonstram que coligações com o BE e o PCP parecem estar descartadas à partida, a coligação à direita é a hipótese que se apresenta como a mais provável, algo que seria facilitado caso o amigo Rui Rio ocupasse a posição de Pedro Passos Coelho. E se o PS se coligar à direita, o eleitorado de esquerda não o irá perdoar. A “pasokização” é já ao virar da esquina. E já vem tarde.

Comments


  1. se o ps ganhar estas eleições… dificilmente voltará a ter relevância eleitoral nos próximos 20 anos.
    o eleitorado de esquerda, que vota ps por achar que é o “voto útil”, nunca mais pensará em votar ps.

  2. Nightwish says:

    O bloco central Costa-Rio é mais um dos acontecimentos invetiváveis e completamente previsíveis desta crise.


    • De acordo. Parece-me apenas uma questão de tempo. E parece-me também o inicio do fim do PS mas aqui já estou a entrar em território da Maya 🙂

      • Nightwish says:

        O João tem demasiada fé nos portugueses, eles gostam mesmo de ser servis pobres a qualquer bronco que lhes conte umas estórias para dormir. Aliás, o objectivo de destruir a educação é mesmo para as pessoas continuarem sem perceber o que se passa.

        • Rui Silva says:

          Claro o povo é um bronco, não sabe pensar como o amigo Nightwish, que ao contrário é uma máquina racional.
          Depressa chegará á conclusão que nem era preciso eleições. Nomeava-se um partido patriótico e de esquerda e até se poupava dinheiro em campanhas absolutamente desnecessárias.

          ´cumps

          Rui SIlva

          • Nightwish says:

            Não respondo a comentários ao que não disse. Mas as pessoas como o Rui têm o governo que merecem, disso não há dúvida.

Trackbacks


  1. […] Partido Socialista atravessa tempos conturbados. O caso Sócrates afunda-o, a pesada herança do anterior governo afunda-o, o alinhamento envergonhado com o diktat alemão […]

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