O Alexandre, a Mariana e António Nóvoa

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© Alfredo Cunha 2015

Laura Santos

“Não deixemos que a esperança também emigre”.

Apesar da falta de forças e dos azares da vida, quis estar presente na apresentação da Carta de Princípios de António Nóvoa (AN) no Teatro Rivoli do Porto. Nóvoa e o meu falecido Irmão Ademar tinham estreitado amizade nesse pós-25 de Abril “inteiro e limpo”. Eu acabara por ter o meu pequeno espaço dentro dessa amizade. Ademar falecera num 22 de Maio, a apresentação era a 25. Como não estar presente?
Primeiro problema: onde deixar o carro, vindos de Braga, pois eu e o marido decidíramos ir cedo para arranjar lugar no Teatro? Estacionámos, mas havia um problema com o parcómetro. Um arrumador perguntou delicadamente se podia ajudar. Pelo modo como se expressava, vi que não era como os arrumadores habituais. Disse-lho. Ele confirmou que outros já lhe tinham dito o mesmo. Perguntei o que lhe acontecera. De modo humilde e tentando esconder a tristeza, lá foi dando alguns pormenores. Tinha razoáveis habilitações académicas – indicou algumas -, mas há dois anos que não conseguia emprego. Já não tinha carro nem net, e o estado dos dentes da frente, para cuja recuperação não tinha dinheiro, também tinham sido um obstáculo à obtenção de emprego. Perdera a vergonha e tornara-se arrumador. Uma professora amiga dissera-lhe que vergonha era ficar de braços caídos. Ele sabia que era diferente dos outros arrumadores, mas sabia também que não era isso que lhe ia arranjar emprego. Percebi-o bem: a interminável construção civil à volta da nossa casa, dantes tão sossegada, e a falta de alternativas logísticas, mesmo para descanso de verão, agravaram a minha situação oncológica. Mas em que é que essa explicação me retira as dores e o perigo de vida? Seguimos as sugestões deste arrumador – só fixei um dos seus nomes, Alexandre – e sei que nunca mais o esquecerei.
No Rivoli, ao tentar explicar porque se candidatava, AN falou de Mariana, 19 anos, estudante universitária, que lhe mandara uma mensagem em que falava da sua tristeza por viver num Portugal cinzento que sentia sem alegria, sem esperança e sem futuro, temendo ter de emigrar para ganhar o seu sustento. Veio-me de imediato à memória um magnífico jovem enfermeiro de Lisboa que, depois do mestrado, não satisfeito com as más condições em que tinha de trabalhar, emigrou para Londres e foi tão bem recebido no hospital onde agora estava. Esses enfermeiros, qualificados e pautados pela ética do cuidado, queria-os em Portugal, não no estrangeiro. E tantos outros jovens de outras áreas. Nunca mais me esqueço do dia em que, a um e-mail meu, me respondeu já de um café em Londres.

Não sei se AN vai ganhar ou não. É certo que, como disse no Porto, representa uma candidatura improvável. Mas isso nada diz dos resultados que irá alcançar. O que sei é que a candidatura de AN veio trazer muita esperança, a meu ver fundada, a muitas portuguesas e muitos portugueses. Como disse no Rivoli, “A política não serve para justificar inevitabilidades, para se conformar com a fatalidade, serve para dar o exemplo, para abrir caminhos. Com coragem, com alegria, porque a alegria é a coisa mais séria da vida. Todos temos direito à humanidade da vida, à felicidade. Espero que voltemos a acreditar. Não deixemos que a esperança também emigre”. Recordei-me então de um antigo Daily Show de Jon Stewart (já agora, porque é que não há um programa do género em Portugal?), em que, aquando da vitória de Obama em 2008, o opositor republicano Mccain tivera de dizer aos seus correligionários que era preciso respeitar um homem que elevara tanto a esperança dos americanos. AN convenceu muitos de nós de que a esperança substantiva não tem que emigrar. Só posso querer que esse desejo, essa audácia da esperança, se vá concretizando.

Professora aposentada da UMinho (laura.laura@mail.telepac.pt) in Público 14-06-2015

Comments


  1. Tambem tenho esperança de que tudo isto tem que mudar !!! Muito obrigado pelo testemunho e pela esperança que vai alimentando a nossa vida já longa !!!

  2. joão lopes says:

    a propaganda que a austeride é o unico caminho e que em portugal esta a resultar sem grandes sacrificios(basta ler as cronicas da d.helena matos e de todos os cronistas do mirone) é do mais nojento que eu alguma assisti em portugal.a austeridade está literalmente a matar a esperança neste país.e sabemos que esta “austeridade” serve unica e exclusivamente para “limpar” as dividas dos bancos e passa-la para a divida publica(daí o aumnte da divida publica em portugal que já vai em 125% do PIB)

  3. Rui Moringa says:

    Espero que o AN ajude a mudar a situação do país.
    Mas eu inclino-me para escolher o Henrique que é mais pragmático e sabe o que é “ferrugem”.
    Opções, sem dúvida…Espero que Todos ajudemos a sair desta desgraça coletiva.

  4. Manuel Santos says:

    Desabafos – como os entendo -, crónicas e comentários-dos-sempre-os-mesmos-pagos-a-peso-do ouro prerorando acerca do estado miserável deste país são aos magotes! Faltam acções (sim, com a consoante muda). Até quando vamos continuar a apenas reagir? Não será altura de agirmos. Quem? O Povo. Eu vou agir: voto nulo. Por tudo… Chega…

  5. Rui Silva says:

    A austeridade não é uma opção, é uma obrigação. E a sua dose depende do tempo que durou a festa socialista. Quem é que sofre mais? Os mesmos de sempre , o povo, que os mandantes da festa dizem defender.
    O AN se fosse eleito, preocupar-se-ia com outros assuntos. Os assuntos que lhe dizem alguma coisa. Só para dar alguns exemplos:
    1)Financiamento para a “Ciência”, e Universidades (Este homem para mim ficará sempre associado a um fenómeno fantástico: Greve dos Reitores – triste estado em que as elites fazem greve, enquanto o povo passa fome)
    2) Horários de 35 horas para a FP.
    3) Cultura
    4) RTP
    Este é que é o seu mundo.
    Claro que a ajuda ao povo será de forma indireta…Será sempre amanha, quando estes “investimentos” com a ajuda do “multiplicadores” Keynesianos fizerem o seu trabalho…
    Ao fim de mais 20 anos disto teremos nova falência.
    O habitual…

    cps

    Rui SIlva

    • joão lopes says:

      “a austeridade não é uma opçao,é uma obrigação”:uma mentira muitas vezes ditas,torna-se uma “verdade”_joseph goebbels-ministro da propaganda nazi

      • Rui Silva says:

        “A austeridade é uma opção”.
        Uma mentira muitas vezes dita ,torna-se uma “verdade”_joseph goebbels-ministro da propaganda nazi.

        João Lopes, grande argumento….

        cumps


  6. A estatistica que mostra os paíse que mais contrubuem com licenciados e doutorados para a gloria das empresa alemas e ingleses tê a Grecia , Espanha e logo a seguir Portugal. Esse esforço de solidariedade das universidades portuguesas -muito tempo com o Novoa ao leme, deve ser enaltecido pois com os estudos muito subsidiados pelo dinherio de todos nós , damos uma prova de agrand eresponsabilidade na construção de empresa europeis fortes. Como se entende a culpa da emigração estar a drnar tanto investimento de todos é do P.Coelho que devia criar empresas para empregar todos os jovens ; ou no minimo apoiar os sindicatos que tanto lutam e promovem o emprego publico produtivo. Ma não os do governo passam a vida a dar apoio aos empresarios que como sabemos não criam tantos empregos comocas camaras, sindicatos e sector do estado..

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