Um olhar breve sobre os programas eleitorais

Santana Castilho*

Não podendo ser exaustivo nesta análise, fico-me por algumas perguntas e comentários, relativos a temas mais controversos.

Depois de ler os programas eleitorais vindos a público, há uma primeira pergunta que se impõe: do ponto de vista das previsões económicas e financeiras que estabelecem, serão o programa eleitoral do PS e o Programa de Estabilidade e Crescimento para 2015-2019 (o verdadeiro programa eleitoral da coligação PSD/CDS) substancialmente diferentes? Para responder importa tomar por referência as variações previstas em cada um deles, relativamente a indicadores clássicos, isto é, PIB, FBCF (Formação Bruta do Capital Fixo, relevante por dar uma noção da evolução da capacidade de produção do país), exportações, consumo público, consumo privado, custo unitário do trabalho, prestações sociais e taxa de desemprego.

Tendo os dois programas como objectivos a redução do saldo orçamental, actualmente negativo, o aumento do saldo primário (receitas menos despesas sem juros da dívida) e a diminuição da dívida pública, tudo junto supondo uma forte redução, no mínimo contenção, da despesa pública, como conciliar isso com as promessas de melhoria de prestações nas áreas sociais, designadamente na Educação?

Afirmando o PS que quer criar mais emprego e melhor emprego, será isso compatível com a diminuição do custo unitário do trabalho, que propõe?

Poder-se-á crescer economicamente, única via para criar emprego, respeitando as regras do Tratado Orçamental, que impõem um défice orçamental abaixo dos 3% e uma dívida pública que não supere 60% do PIB?

A expansão do ensino pré-escolar é a medida que faz o pleno nos programas eleitorais do PS, PSD/CDS-PP, CDU, BE e Livre, no que à educação respeita. O programa do PSD/CDS-PP, sem surpresa, propõe a continuação de um caminho ruinoso para o sistema de ensino. O programa do PS é um repositório de generalidades, não se pronunciando ou sendo dúbio sobre muitos aspectos importantes (PACC e municipalização, por exemplo) e retomando conceitos que melhor ficariam no limbo do passado (escola a tempo inteiro, entre outros).

É chocante ver que, subliminarmente, o PS tem uma ideia pouco favorável da competência dos professores portugueses, tal é a avalanche de intenções de desenvolver e relançar formação de todo o tipo: inicial e contínua; nos domínios da pedagogia, da didáctica e das competências técnicas. Para nenhuma área de actividade que o programa aborda se prevê tratamento semelhante para os respectivos profissionais. Não há formação reforçada para médicos, engenheiros, enfermeiros, advogados, juízes ou políticos. Mas sobra para os professores. Tem um significado.

O PS, em matéria de educação, tem um esqueleto no armário. Chama-se Maria de Lurdes Rodrigues. Com este programa não se libertou dele. Um bom exemplo é a recuperação do conceito de escola a tempo inteiro. Que quer isso dizer?

Temos hoje milhares de pequenos emigrantes do quotidiano, que andam dezenas de quilómetros para ir à escola. São as vítimas do encerramento compulsivo de milhares de pequenas escolas das suas aldeias. Juntam-se a outros milhares de crianças nacionalizadas em nome dum estranho conceito de escola a tempo inteiro. Todas juntas, constituem uma espécie de órfãs de pais trabalhadores, com quem pouco estão. É preciso debater o papel que este sequestro e este desenraizamento podem jogar no comportamento destas crianças.

O PS fala de reavaliar a realização de exames nos primeiros anos de escolaridade. Depois de tudo o que já foi dito, estão claros os argumentos e os fundamentos para ser pró ou contra. Faltou coragem para assumir um lado.

O PS fala em criar mecanismos de incentivo à fixação de professores em zonas menos atractivas. Como se nos concursos tivéssemos vagas sem candidatos, quando o país conhece que o fenómeno é o inverso, na expressão de milhares a disputarem cada horário, seja ele aonde for. Sobre ideias para devolver condições de trabalho dignas e esperança de futuro numa carreira congelada há mais de uma década e em marcha de retrocesso acelerado há duas legislaturas, o silêncio é olímpico.

O BE prevê a criação de bolsas de empréstimos de manuais escolares. É algo que já existe um pouco por todo o país, por iniciativa de várias organizações de cidadãos. O movimento é socialmente meritório, particularmente no quadro das dificuldades que as famílias vivem. Mas a generalização da medida merece ponderação. Será que o papel do livro, mesmo que didáctico (sem falar dos dicionários, gramáticas e atlas geográficos, por exemplo) caduca com o fim da frequência da escola? Estamos conscientes de que se não fomentarmos a propriedade dos livros escolares estaremos, provavelmente, a varrer de milhares e milhares de lares portugueses os únicos livros que algum dia lá entraram? A reposta a esta pergunta é implicitamente dada pelo PSD/CDS-PP que, embora de modo faseado, quer acabar com os manuais escolares em suporte papel, substituindo-os por conteúdos digitais. Saberão em que país vivem?

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Comments

  1. Dora says:

    “O PS, em matéria de educação, tem um esqueleto no armário. Chama-se Maria de Lurdes Rodrigues. Com este programa não se libertou dele. Um bom exemplo é a recuperação do conceito de escola a tempo inteiro. Que quer isso dizer?”

    1- Eu também gostaria de saber o que é a “escola a tempo inteiro”.

    2- MLR é 1 verdadeiro esqueleto no armário. Amada por PS e PSD.Odiada pela escola, professores e perturbando seriamente as aprendizagens dos alunos no meio da confusão criada, sem pés nem cabeça.

    3- “a criação de bolsas de empréstimos de manuais escolares” seria 1 boa ideia , não fosse dar-se o caso de as editoras os terem vindo a transformar em verdadeiras fichas de trabalho onde os alunos escrevem as respostas.

    4- “PSD/CDS-PP que, embora de modo faseado, quer acabar com os manuais escolares em suporte papel, substituindo-os por conteúdos digitais. Saberão em que país vivem?”

    Não, não sabem.

    Nenhum partido político entende o que se passa nas escolas, como o não sabe a maioria da população que não tem filhos a estudar (e mesmo assim….). Contudo, toa a gente fala sobre o assunto. Sorri-se quando se ouve os políticos e comentadores tudólogos falar em “liceu”. Basta esta palavra.

    – O PS fala em escola a tempo inteiro, em contra corrente com o que se passa em tantos países europeus que fazem o inverso;

    – O PSD quer a escola pública para os pobres, para os cursos profissionais e vocacionais a produzirem mão de obra barata e precária.. E continua a investir nos privados, com uns toques de uma alegada social-democracia lusa, acenando com cheques ensino, também em contra corrente com estudos recentes sobre as conclusões desta “opção”.

    Enquanto isto, no ensino superior, cujas políticas destroçaram a visão inteligente de Mariano Gago, assiste-se à continuação do “brain drain” dos seus melhores alunos, pesquisadores e investigadores.

    Não, ninguém percebe nada do assunto. E os programas destes 2 maiores partidos sobre a educação não passam de generalidades e de ideologias bacocas.

  2. Nascimento says:

    “Afirmando o PS que quer criar mais emprego e melhor emprego, será isso compatível com a diminuição do custo unitário do trabalho, que propõe?”

    Mais emprego pode criar,mas, melhor emprego? Ó professor,mas então o senhor não sabe,que istio já é o país do quinhentinhos?Só pode é baixar ainda mais.Á la chinoise….

    “Poder-se-á crescer economicamente, única via para criar emprego, respeitando as regras do Tratado Orçamental, que impõem um défice orçamental abaixo dos 3% e uma dívida pública que não supere 60% do PIB?” Pois é claro que não pode. Olhai a França senhores! Déficit? 3%? Tá bem ….


  3. Prestem atenção ao que o que foi dito num paragrafo e meditem: “como conciliar contenção da dívida pública com aumento das prestações sociais “.
    Agora se acham que vale a pena meditar antes de votar em aldrabões, seja eles os “nossos” aldrabões ou do inimigo façam-se adultos.
    Estranho só, que perante os resultados reais do ensino ,o articulista se admire que os partidos prevejam a necessidade de ajudar a classe de professores, tão bem defendida pelos seus “excelentes” representantes!!!

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.