Postcards from Liverpool #3

«All the lonely people, where do they all belong?»*

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Visitei hoje Another Place. Outro lugar. Uma das razões principais por que vim a Liverpool. Já lá iremos a esse outro lugar onde parece que estão todas as pessoas sós em frente ao mar. Talvez achem estranho vir a uma cidade de propósito para ver, afinal, outro lugar.

O dia começa cinzento. Devo dizer que acaba do mesmo modo. Mas estou no Reino Unido, suponho que faça parte do cenário, o cinzento dos dias. Chovia quando acordei, quando tomei banho e me vesti e saí para tomar o pequeno almoço no bar que serve o hotel. Pedi à menina se podia trocar os feijões e restantes vegetais por fruta. Que sim. Preparou-me uma bela taça com maçã, uvas e, suprema amabilidade, morangos. Dispensei o bacon e comi os ovos, desta vez estrelados como dois sois amarelos a subsitituir o que faltava no céu. Empurrei isto tudo com sumo de laranja e aí vou em em direção a Lime Street Station onde, pensava eu, apanharia o comboio para Waterloo. Passo em frente aos St. John Gardens, subo mais um bocadinho e aqui está a bela estação de Lime Street. Aproveito e tiro os bilhetes, que comprei via internet, da máquina. Tendo comprado 4 viagens, a máquina parece, ao produzir cada bilhete com o respetivo recibo, oferecer-me um jackpot de bilhetes de comboio, o que faz – claro está – todo o sentido, já que adoro viajar assim.

No hall da estação, antes de perceber como e onde comprar o bilhete de ida e volta para Waterloo, reparo numa escultura muito engraçada – Chance Meeting – que retrata o encontro casual de dois liverpoolianos (espero que seja assim) de gema. Tiro fotografias. Peço a um senhor que me tire uma a mim, junto da mulher da escultura. Imito as suas mãos para alegria do filho pequenino do senhor, que se ri divertido. Depois deste encontro casual com estes dois habitantes da cidade vou tentar perceber como comprar os bilhetes para ir a Crosby Beach. Pergunto nas informações onde um rapaz extraordinariamente solícito me imprime um mapa e escreve as indicações. Tenho de sair da estação, apanhar o metro para Liverpool Central e depois daí o comboio em direção a Southport. Assim faço, sem me enganar.

A viagem de comboio até Waterloo dura pouco, apesar de ter de mudar uma vez, já o disse, em Liverpool Central. 15 minutos e saio em Waterloo. Na plataforma apanho o elevador para a rua, juntamente com um casal. Quando entro o homem pergunta-me: ‘What number luv?’ Eu olho para o painel e não vejo número nenhum e devo fazer uma cara esquisita porque o rapaz tranquiliza-me: ‘there’s no number luv, it is just the british sarcasm, I am sorry’. Respondo que não faz mal e que até aprecio e ele pergunta de onde sou. Portuguesa. ‘Oh my wife is from Argentina’. Olho para a rapariga, grávida, e digo ‘Hola, que tal?’. Ela sorri e responde em castelhano que tudo vai bem e chegamos à rua. Waterloo parece uma cidadezinha costeira minúscula. Confirmarei rapidamente que assim é, daqui a pouco. Na rua acendo um cigarro. O rapaz do elevador afasta-se e a rapariga pergunta-me onde vou. Respondo em inglês que para a Crosby Beach. Diz-me que não fala, ainda, inglês e eu explico-lhe em castelhano para onde vou. Diz-me que falo muito bem castelhano e pergunta onde aprendi. Digo que Portugal é mesmo ao lado de Espanha e que não é complicado aprender a língua. Pergunta-me quantas línguas falo e, diante da minha resposta, fica perplexa. Quando o rapaz regressa diz-lhe:’ sabes que ela fala 5 línguas?’ O rapaz sorri e pergunta-me quais. Respondo-lhe e acabo o cigarro, dizendo que vou e adeus. O rapaz pergunta para onde vou. Digo-lhe que a Crosby Beach. Ri-se e diz: ‘It’s a lovely day for a bath’. Rio-me também eu e digo que me esqueci do fato de banho, por isso… o banho terá de ficar para mais tarde. ‘Adiós’, ‘Goodbye’ e abro o chapeu de chuva e começo a descer a South Road em direção ao mar.

Quase no fim da rua entro num pub. Bebo um café e uma água. Saio e continua a chover. Entro, um pouco mais abaixo numa área verde, uma placa informa-me que entrei no Crosby Coastal Park. Continua a chover enquanto vou andando pelos caminhos estreitos, no meio da erva, à beira das lagoas onde abundam patos, gaivotas e outros pássaros. Não reparam em mim. Mas eu reparo neles e em tudo. Outra vez o silêncio profundo, apenas cortado pelo marulhar da água, pelo grasnar dos patos e pelos lamentos das gaivotas. Ao longo do caminho há bancos de madeira. Reparo que o primeiro que encontro tem uma placa. ‘In loving memory of Susan Marie Feehan…’, o segundo, um pouco mais à frente também – ‘Remembered with Love, Chris Findley…’ – e outros ao longo do carreiro até alcançar as dunas. Enquanto leio a placa do segundo banco, penso: que coisa extraordinária, dedicar um banco num sítio tão tranquilo como este, tão bonito, a alguém. A mim nunca ninguém me irá dedicar um banco de jardim em frente a um lago, um banco onde pousam as gaivotas nos intervalos do voo. Invade-me uma certa tristeza mas pára de chover, no mesmo momento, e eu continuo pelo carreiro, agora cheio de poças de água e de areia, a aproximar-me das dunas.

Atravesso as dunas e chego finalmente a Crosby Beach. Chego a Another Place. Mal saio do carreiro e olho em frente, começa qualquer coisa a nascer dentro de mim. A enorme praia está deserta. Exceto o vento nada mais se ouve. E há qualquer coisa que começa a nascer dentro de mim, como uma flor, chamada maravilha. Ou espanto. Tinha visto fotografias de Another Place, na internet, antes de vir. Mas ainda que o dia esteja cinzento, que o céu e o mar se confundam com a areia, nada me tinha preparado para estas figuras, tantas, a nascer no areal. Another Place é um projeto de Antony Gormley. Cada figura pesa 650 quilos e é feita a partir de um molde do corpo do autor. Apesar do seu peso, cada figura parece leve, a olhar o mar, de costas para as outras, a contemplar fixamente o horizonte numa expetativa silenciosa.

Desço para a praia, depois de longuíssimos minutos de contemplação cá de cima. Passam alguns barcos. Há um porto logo ali. O mar da Irlanda está calmo. A areia está molhada e isso é bom para caminhar. Deambulo entre as figuras, percorrendo uma parte do areal. Só conheci uma pessoa capaz de estar ali comigo, em silêncio, como as figuras, com uma flor chamada maravilha ou espanto a nascer dentro de si. Essa pessoa está comigo em Another Place. Essa pessoa está em outro lugar que não existe sobre a terra e, no entanto, nesta praia absolutamente deserta, onde o céu e o mar e a areia se confundem no mesmo cinzento frio, sei que está ali comigo. Em silêncio. A olhar o mar através de cada escultura. A contemplar o horizonte fixamente. Há tanta beleza neste sítio que me sinto espantosamente feliz. Não sei, no entanto, dizer-vos ainda, se Another Place é um lugar feliz. Talvez o recorde para sempre assim. Não consigo abandonar este lugar com facilidade e uma hora ou duas mais tarde – é difícil dizer – quando regresso ao carreiro, ainda me sento a fumar e a contemplar fixamente o horizonte numa silenciosa expetativa que sei, porém, já se ter cumprido.

Aparece, finalmente, uma pessoa. Uma japonesa que solta um ‘oh’ ao sair do carreiro. Olha para mim confusa. Sorrio-lhe no meio do vento e do fumo do cigarro. Aproxima-se e pergunta-me que sítio é este. Respondo-lhe com a verdade: ‘Another Place’. Pergunta-me ainda o que significa. Digo-lhe o que li, mas acrescento que talvez varie o sentido deste lugar para cada um de nós. Sorri e agradece e vai maravilhar-se – suponho e desejo – para o grande areal, enquanto chegam mais pessoas pelo carreiro e eu decido que é tempo de ir andando. Agradeço não sei a que deus ou entidade este tempo silencioso e absolutamente só em que me foi permitido conhecer Another Place sem gente. Há poucas coisas na vida que me interessem genuinamente – embora pareça que sim e, por isso, se calhar, estarei enganada – mas agarro com força na conchinha que arranquei suavemente da areia junto a uma das esculturas e sei tudo o que há a saber sobre o universo em que me encontro.

Refaço o carreiro, entre a erva, as lagoas, os patos e as gaivotas. Encontro umas pessoas mais à frente e peço que me tirem uma fotografia. Parece que fiquei com ar feliz nessa fotografia. O que eles não sabem é a razão dessa felicidade, mas se continuarem pelo carreiro até às dunas e se as atravessarem, saberão. Quando saio do Crosby Coastal Park, vejo um casal de noivos. A noiva segura um ramo de flores, mas não são girassóis e desinteresso-me. Páro no bonito café ali ao lado e bebo um café e como uma fatia gigante e bolo de chocolate e penso. Penso no que acabei de ver. De sentir, melhor dizendo. Talvez seja o mesmo. Muitas vezes é. Percorro a South Road em sentido contrário ao que me levou a Another Place e alcanço a estação dos comboios. O mesmo silêncio na estação. O comboio chega. Saio em Liverpool Central e depois apanho o metro para Lime Street Station. Faço tudo devagar como quem está ainda no areal de Crosby Beach a olhar o mar.

Decido que vou subir à Torre da Rádio. Ando um bocadinho, atravesso um centro comercial ruidoso e encontro a entrada da torre. Lá dentro, uma rapariga diz-me que faltam 15 minutos para fechar. Digo que vou mesmo assim lá acima. Aparecem três rapazes e dizem o mesmo. Subimos os 4 no elevador. A rapariga que nos acompanha diz que se chama Nathalie e pergunta de onde somos. Portugal, digo eu. Germany, dizem os três rapazes. A Nathalie quer saber o que viemos fazer a Liverpool. Eu digo que vim para ver Another Place e o rosto dela ilumina-se. Mora em Waterloo. Do cimo da torre vê-se Liverpool inteiro. Reconheço todos os sítios que visitei. A Metropolitan Cathedral, Albert Dock, Pier Head, o Royal Liver Building e as outras Três Graças e a estação e os museus e os jardins. A torre tem 140 metros de altura. Lá em cima é também outro lugar. Vê-se o rio Mersey mas não o mar, a não ser lá muito longe. Parece que as coisas andam à roda. Tenho vertigens mas isso nunca me impediu de subir a torres e ver o mundo lá de cima, como num mapa. já se sabe. Os mapas são também outros lugares.

Quando desço da torre já escureceu um bpcadinho. Sento-me na Williamson Square a olhar a água e as crianças que brincam. Ainda não voltou a chover. Percorro, depois, enquanto escurece devagar, a Richmond Street. Há muito movimento e, apesar das gaivotas, ninguém olha o mar e o horizonte numa expetativa silenciosa, mesmo que o mar ali não chegue e o horizonte sejam os prédios. Chego ao Cavern Quarter e continuo até ao hotel. Hei-de sair mais tarde para jantar no Piccolino, falar italiano com os empregados simpáticos e beber uma Carling no pub de ontem, a seguir. É sexta-feira. Há gente e barulho em toda a parte. Olho para as pessoas, muito menos maravilhada do que em Crosby Beach olhei para as esculturas. Parecem-me todas muito sós e sem mar e horizonte que possam contemplar.

‘All the lonely people, where do they all come from? All the lonely people, where do they all belong?’*.

* palavras de Eleanor Rigby, uma canção dos Beatles** (https://www.youtube.com/watch?v=GnkEZcTXu4k)

Mais informações sobre Another Place aqui

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