Henry Ford: “Porque sou a favor de cinco dias de trabalho, com um pagamento de seis dias”

A revista World’s Work publicada entre 1900 e 1932 nos EUA, celebrava, em edições mensais, o American way of life, a par do crescente papel da América no contexto mundial. Na edição de Outubro de 1926,  páginas 613-616, publicou-se uma entrevista a Henry Ford, um perigoso socialista/comunista/radical de esquerda (escolher o que se preferir), onde este explicava porque é que defendia uma semana de 5 dias de trabalho, ao invés dos habituais 6 dias de então, com uma jornada de oito horas e sem redução de pagamento.

Estas 40 horas semanais permitiam, segundo Ford, que os trabalhadores voltassem na semana seguinte mais concentrados e a melhor rentabilizar a sua maquinaria. Este defendia, também, que era preciso que os americanos tivessem tempo para usufruir dos bens que produziam, assim conduzindo ao aumento da procura interna e, conclui-se, a maior venda dos carros que este produzia. Argumentava, ainda, que pagar-lhes bem contribuía para esse mesmo crescimento económico, do qual todos beneficiavam.  Melhores salários e mais descanso, argumentava Ford, conduzia a maior produtividade e a maior crescimento interno.

Seria bom recordar esta entrevista ao nosso grupo de supostos liberais, encabeçados por Pedro Passos Coelho, que teve a brilhante ideia de aumentar a carga de trabalho dos portugueses (redução de feriados e férias), de lhes reduzir os salários e ainda chegou a propor que no privado se trabalhasse 44 horas por semana, em vez das actuais quarenta horas. E para que não restassem dúvidas sobre quem estava certo, se Ford ou Passos Coelho, registe-se que a pouca recuperação que tivemos aconteceu a partir do momento em que o Tribunal Constitucional obrigou o governo a descontinuar alguns cortes que foram considerados inconstitucionais. O ligeiro aumento no poder de compra traduziu-se num impacto positivo na economia e não, como defendeu o governo, num retrocesso.

Comments

  1. J.Pinto says:

    Políticas à parte, o Passos Coelho é tão liberal como o Henry Ford. Talvez seja um bocadinho menos socialista do que os anteriores.

    Nunca o liberalismo defendeu mais horas de trabalho; as horas de trabalho estão sempre dependentes da produtividade. É assim que deve ser.

    Como várias vezes referi, não faz nem fez qualquer sentido o aumento do número de horas de trabalho (através da abolição de feriados) feito por este governo.

    No entanto, também não faz sentido que algumas classes (funcionários públicos) trabalhem menos do que os privados. Onde é que para a igualdade? Qual é a razão de uns trabalharem 40 horas e outros 35 horas?

    Relativamente ao Henry Ford, que eu admiro, gosto muito de ver socialistas/comunistas (riscar o que não interessa)referir o Henry Ford como exemplo.

    Também gostei muito da parte que diz que foi a partir do momento em que o TC interveio que a economia começou a recuperar. Decerto, o TC também teve alguma influência na recuperação dos outros países…..

    Isto é o socialismo puro: os seus defensores pensam que são os políticos ou o TC que fazem a economia crescer. O que faz a economia crescer é um conjunto muito grande de agentes económicos, baseados em escolhas individuais.

    • j. manuel cordeiro says:

      Passando por cima dessa necessidade do J. Pinto colar um rótulo no autor do post, não vê uma única referência no post a 35 horas na FP e 40 para o privado, pois não? Nem encontra nenhum texto meu anterior onde tal defenda.

      “Relativamente ao Henry Ford, que eu admiro, gosto muito de ver socialistas/comunistas (riscar o que não interessa)referir o Henry Ford como exemplo. ”

      Não me vou colocar em adivinhações quanto ao que quererá dizer. O facto é que um capitalista como Ford poderia dizer, caso fosse vivo, que Passos Coelho é um nabo.

      “Também gostei muito da parte que diz que foi a partir do momento em que o TC interveio que a economia começou a recuperar. Decerto, o TC também teve alguma influência na recuperação dos outros países…..”

      O que e factual. E explica-se pelo que um capitalista havia enunciado décadas antes. Quanto à recuperação nos outros países, sem saber a que países se refere, lembro-me que o BCE com a sua política de injecção de capital contribuiu em larga escala para a recuperação. Ah! espere, o BCE foi um socialista a interferir na economia.

      “Isto é o socialismo puro: os seus defensores pensam que são os políticos ou o TC que fazem a economia crescer. O que faz a economia crescer é um conjunto muito grande de agentes económicos, baseados em escolhas individuais.”

      Tenho para mim que será melhor o J. Pinto ir aos livros ver a definição de socialismo. Mas adiante. Todas as políticas têm impacto em todos os aspectos da sociedade, sendo a economia um deles. Leia a entrevista do seu admirado Ford, aqui linkada, e tire as suas conclusões.

    • Nightwish says:

      Contra o zero lower bound é o governo e o banco central a quem cabe a responsabilidade e os instrumentos para resolver a recessão.

  2. J.Pinto says:

    Não vê mesmo nenhuma referências aos FP. Tem razão. Fui eu que decidi (num país livre, as pessoas ainda podem decidir o que escrevem) introduzir o tema, já que perguntei muitas vezes, a pessoas que defendem as 35 horas dos FP, que me dessem uma única razão para haver a distinção entre FP e privados. Ainda não obtive uma única resposta. E continuo igual, sem resposta.

    Como falou em diminuição de horas, foram os FP os únicos que sofrerarm aumento do número de horas de trabalho, exceto na abolição do feriados.

    No que respeita ao henry Ford, como disse há bocado, dá imenso prazer ver um socialista/comunista (riscar o que não interessa) utilizar um capitalista como exemplo. Duvido que não concorde sempre com as ideias do henry Ford, não é verdade? Só lhe interessa as que corroboram a sua opinião certo? Apesar de, neste caso, eu concordar consigo – não houve nem há qualquer ganho na abolição dos feriados.

    No que respeita às suas palavras “o Passos Coleho é um nabo”, quem sou eu para o defender. Já o critiquei muitas vezes, por isso…..

    Explique-me, por favor, e se souber, como funcionou a injeção de capital por parte do BCE. Eu sei a que se refere (plano Juncker), mas explique-me como é que ocorreu….

    Porque é que estes princípios económicos que refere não foram aplicados pelos socialistas na Grécia? Eles estiveram cerca de 6 meses no governo. Podiam ter aproveitado para aplicar as medidas. saíam do euro e aplicavam as medidas que quisessem. a economia começava a crescer, o desemprego a diminuir e toda a gente estava mais feliz. Mas atenção que podia acontecer isto:

    https://economiaegestao.wordpress.com/2015/08/24/noticias-da-venezuela/

    • Nightwish says:

      “Como falou em diminuição de horas, foram os FP os únicos que sofrerarm aumento do número de horas de trabalho, exceto na abolição do feriados. ”
      Esta frase é de uma ignorância atroz de quem não conhece o país e as empresas que temos.

      “Porque é que estes princípios económicos que refere não foram aplicados pelos socialistas na Grécia?”
      Porque preferiram o inferno que conhecem ao inferno que desconhecem, à revelia de muitos economistas que continuam a acertar em tudo nos últimos 7 anos.

  3. Nascimento says:

    Ena pá, …..”Podiam ter aproveitado para aplicar as medidas. saíam do euro e aplicavam as medidas que quisessem. a economia começava a crescer, o desemprego a diminuir e toda a gente estava mais feliz.”….

    És giro. Em 6 meses? Os socialistas? És mais um “engraçadinho “. Sabem,é giro ver um “liberal” abanar o rabo quando lhe passam a mão pelo dorso. Como ele se contorce.
    E o “liberal” disfarça ( direita extrema,fáscista, é só escolherem que eu não me importo), brinca no sofá com as palavrinhas e frases graçólas,enquanto vê um povo que, apesar de tudo o que sofre, ainda tem a grandeza de auxiliar numa Catástrofe humanitária…sim, desde há 6 MÊSES( enquanto era esmagada a vontadae de um povo, por um bando de escroques burucratas) 100 MIL REFUGIADOS ENTRARAM NA GRÉCIA! COM OS SOCIALISTAS!
    Mas isso não interessa nadinha ao ” liberal ” não ,ele prefere ver ,sentadinho, ao lado do amigo da cadeira de rodas.


  4. Henry Ford foi um visionário empreendedor, que contribuiu para o desenvolvimento dos EUA na 1ª metade do sec XX. Muito para lá da indústria automóvel, o principal legado terá sido a linha de montagem. Pelas capacidades que possuía enfrentou a concorrência com sucesso, mas de liberal pouco ou nada tinha. Para lá das suas inegáveis e reconhecidas capacidades, nutriu alguma simpatia pelo regime nazi, ” http://rarehistoricalphotos.com/henry-ford-receiving-grand-cross-german-eagle-nazi-officials-1938/ “, que nele se inspirou para a produção em série.
    Muito depois da sua morte a FORD continuou a ser uma empresa de vanguarda e inovação, sei do que falo pois trabalhei na principal concorrente em início de carreira. Mas nunca apreciaram a concorrência, o que lhes provocou alguns problemas com o Japão e mais tarde não ficaram imunes à falência de Detroit, ainda que a globalização os tenha salvo de males maiores…
    Quanto à economia o princípio é sempre o mesmo, “queres mandar? mostra-me o dinheiro!!!” A não ser que o Estado intervenha e isso acaba sempre mal, tanto pior quanto maior a intervenção. Da felizmente já extinta ex-URSS à outrora isolada Albânia, passando pela China de Mao e Jugoslávia, podendo incluir toda a execrável ex cortina de ferro, de Cuba ao triste exemplo da Venezuela já neste século, sempre que um povo tem a triste desdita que crer nos amanhãs que cantam, dá-se mal. Experiências pífias como o PREC em Portugal ou Grécia 2015, nem o chegaram a ser, com o resultado que sabemos, exemplos não faltam, é escolher à vontade do freguês…
    O capitalismo visa o lucro, nada a opor, mas por vezes pretende seguir uma via facilitada, eliminando a concorrência com proteccionismo, aliando-se por vezes a socialistas ou burocratas. Já o socialismo nem rumo tem, em nome do igualitarismo acaba lançando tudo e todos na miséria. Uns e outros podem e devem ser combatidos através da defesa da Liberdade. Quanto mais livre for um povo, quanto menos depender de regras e regrinhas burocráticas, maior o seu desenvolvimento e riqueza criada, que inevitavelmente acabará redistribuída por todos. Nas regras e regrinhas não deixo de incluir horários administrativamente fixados, salários mínimos, contratação colectiva e outros factores…
    Mas cada país tem o que quer e merece, há que respeitar a Democracia, Portugal tem as conquistas de Abril, consagradas numa Constituição que continua a dizer que vão rumo ao socialismo. Por isso continua e continuará na cauda da Europa…

    • Nightwish says:

      Está a omitir a eliminação da concorrência por aquisição e despedimentos, vendas abaixo do custo de produção, contractos com vendedores para terem descontos se não venderem a concorrência.
      Afinal, para um liberal vale tudo não vale? Não percebo como daí esperam concorrência ou estabilidade.

    • Nascimento says:

      “Nas regras e regrinhas não deixo de incluir horários administrativamente fixados, salários mínimos, contratação colectiva e outros factores…”
      Ora nem mais. Aqui está umas boas patacoadas á la Anarka!! Vai um cházinho dançante? Com bolinhos? Ai que giro não haver contrataçôes coletivas, sindicatos, salários minimos,etc. Tudo fctores desviantes,não é’ E só prejudicam ….POIS.
      Sabes uma coisinha; nas Asturias já foi experimentado, mais ou menos , esse ” tipo” de “sistema”, E sabes quando? Pois devias saber! E sabes como acabou?Mal, muito mal…para os trabalhadores agrários e mineiros!!! Lê um bocadinho, vá lá… tens é que recuar uns anitos….


  5. Mais um contributo que pode ser analisado sob vários ângulos. Em ambiente fabril existem linhas de montagem, mas também existem trabalhadores que não dependem de ninguém, ainda que o resultado do seu esforço vá naturalmente servir a empresa. No final dos anos 80, a multinacional concorrente experimentou na Suíça, em Portugal experimentar o que quer que fosse seria complicado, inovador para a época.
    -Eram praticadas 40 horas de trabalho semanal na empresa.
    -Foi permitido aos trabalhadores gerirem o seu tempo.
    -Das 00h00 de Domingo às 23h59 de sábado, um grupo de trabalhadores seleccionado teve a oportunidade de trabalhar os dias que entendeu, fazendo o horário que gostava ou lhe convinha mais.
    -A única condição seria observarem as 40 horas, cada um sabia se as prestaria em 3, 4, 5 ou 6 dias, se optava por horário diurno ou nocturno.
    -Liberdade total, responsabilidade máxima e todos os focos no resultado dos testes.
    -Sem surpresa, a produtividade daquele grupo disparou, bem como o grau de satisfação dos trabalhadores envolvidos…
    -Em Portugal teríamos os sindicatos a dizerem que era exploração, havia pessoas a trabalhar em horário nocturno, blá, blá, blá…
    -A filial portuguesa até já encerrou, a helvética continua a laborar, apesar dos custos salariais serem superiores aos de países asiáticos…

    • Nightwish says:

      A menos que me mostre porque foi encerrada, apenas está a mostrar causalidade, e não correlação. E um exemplo também não cria uma regra.

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