O debate do passado num país de futuro incerto

Debate II

O debate entre Pedro Passos Coelho e António Costa foi um reflexo do bloco central que temos: velho, gasto, sem ideias e sempre pronto para fugir às questões essenciais. Quem ali pretendia encontrar respostas para o que será o futuro do país ficou a saber o mesmo. Quem aprecia o enchimento de chouriços terá com certeza tido um serão animado.

De um lado tivemos um primeiro-ministro agarrado à herança socrática e à narrativa da austeridade inevitável, puxando dos indicadores enviesados do costume e substituindo, quatro anos após o célebre conjunto de promessas fraudulentas, o discurso exageradamente optimista por um outro assente na velha máxima “agora é que vai ser”. Como um piegas, Passos Coelho esquivou-se como pôde da questão da emigração e congratulou-se pelo facto de metade dos portugueses não pagarem impostos, como se os rendimentos que a sua governação lhes permitiu ter os tornasse elegíveis para tal. Esquivou-se também da questão das gorduras que continuam instaladas no abdómen obeso do Estado, aludiu a um SNS em grande forma, fruto de uma eventual confusão com a instituição privada de saúde a que habitualmente recorrerá e ainda teve tempo para iludir os portugueses sobre a questão do Novo Banco, afirmando que “Não haverá, na solução que adoptamos para o Novo Banco, custos directos para os contribuintes“. Quem vier atrás que feche a porta.

No outro lado do ringue tivemos António Costa, focado nas promessas falhadas do Pedro Passos Coelho e nos indicadores que melhor serviam a sua estratégia, com uma mão cheia de compromissos tímidos e vagos e uma capacidade argumentativa mais apurada, decorrente da posição mais confortável em que se encontra e que lhe permitiu encostar Passos Coelho às cordas várias vezes durante o debate. A ridicularização do programa VEM ou a forma como entalou o primeiro-ministro quando, a propósito do auto-elogio das contas saudáveis que Costa exibiu enquanto esteve à frente da autarquia lisboeta, Passos Coelho gracejou pelo facto de tal só ter sido possível com a venda dos terrenos do aeroporto ao governo a que o líder do PS respondeu recordando que tal só aconteceu porque a privatização da ANA forçou a decisão, foram bons golpes de esquerda que deixaram Passos sem resposta. Mas o melhor mesmo foi o arremessar de José Sócrates contra Passos que, perante a insistência, foi brindado com um convite para visitar o preso domiciliário. Ainda assim não convence, e esperava-se – eu pelo menos – que Costa tivesse tido a capacidade de golear Passos Coelho. Acabou por ser uma vitória tangencial.

Infelizmente, um destes senhores será o nosso próximo primeiro-ministro. Infelizmente para mim e mais uns quantos claro, porque a maioria dos portugueses continua contente com as soluções do passado para os problemas do futuro. Este debate não trouxe nada de novo, apenas o reforçar da certeza que teremos mais do mesmo. Foi mau como o futuro que nos espera e uma demonstração clara do quão esgotado está este regime.

Foto de José Sena Goulão@Lusa

 

Comments


  1. Excelente relato. Também tenho pena que não apareçam alternativas.

  2. Isabel Atalaia says:

    Repegando a frase – “Aos costumes disseram – nada”. À educação disseram nada, à justiça idem, à Europa nada disseram, à pobreza – silêncio, à crise dos refugiados disseram nada, cultura – o que é isso? Agora temos a análise, a análise da análise, os forums. E, assim para todo sempre, de frente para trás e de trás para frente…Até à náusea. Infelizmente vamos ter uma abstenção recorde e a repetição da alternância o que é bastante diferente de alternativa. Obrigada pelo texto que é bom resumo de noventa minutos de vazio.

  3. Filipe says:

    A maioria dos eleitores dos partidos do arco da governação são pessoas também já velhas e gastas, a malta mais nova não quer saber de partidos, espero que daqui por 20 anos a coisa seja bem diferente.

  4. martinhopm says:

    Sou velho e gasto mas nem por isso voto nos partidos do «arco».

Trackbacks


  1. […] verdade é que o debate, à semelhança do primeiro, foi uma vez mais fraquinho. Os representantes da ruína económica e social do país voltaram a […]

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