O Marcel das minhas vindimas

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(c) Gérard Landau (INA)

Aquele velhote chamado Marcel que tinha ido ajudar o sobrinho (Francis) e a mulher dele (Madeleine!) na vindima. Esse velhote pândego e brejeiro a tratar-me por Marguerite, “Marguerite des Champs”, para dizer a flor que eu era e que ele teria colhido se fosse ainda então rapaz novo. Esse velhote do Languedoc a falar na língua cantada e antiga daquele lugar da Occitânia onde me fixei brevemente para ser Marguerite – Marguerite des Champs de nome completo, “Des Champs-Élysées”, quando Marcel evocava Paris para dizer o que nos separava para além da diferença de idades.

Marcel como Proust mas sem livros, mas sem a consciência aguda da literatura, mas sem precisar de ser salvo pela leitura, mas sem poder reparar na eternidade de grande mistério do que se passa entre a voz que lê e a existência do corpo que a transporta, mas sem perturbações poéticas ao atravessar a paisagem da vinha – a vinha só vinha, o mistral só vento, apesar de todos os que enlouquecia. Marcel poupado à transcendência, liberto da incitação metafísica que por vezes nasce da comunhão entre um que escreve e um que lê, abandonado à cegueira benfazeja que deixava o seu espírito em paz.

Marcel de outras ânsias, sem a avidez nos olhos dos que atravessam as várias camadas do silêncio para além das quais se agita o génio humano do desassossego que vive dentro dos livros. Ignorando esse lugar de inquietação encafuado nos interstícios das palavras, que Proust percorreu com fervor crescentemente religioso, através da sua própria experiência do que foi ler e escrever: procura, encontro, salvação, perdição também.

Marcel sem procurar mais nada a não ser pousar os olhos nas belas raparigas, sem precisar já de encontrar o que quer que fosse, nem de ser salvo de coisa alguma, a não ser um dia pelo salvador que serve de porteiro ao caminho bifurcado que conduz alguns ao Paraíso – assim acreditava esse Marcel das minhas vindimas no sul de França em meados dos anos 1980. Aconteceu isto no rigoroso momento em que a CEE (era assim que então se chamava a UE) começou a pagar aos viticultores para arrancarem as vinhas da região vinícola do Languedoc.