Dr. Passos Costa

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As claques do PàF festejaram durante vários dias a vitória de Pedro Passos Coelho (PPC) no debate radiofónico transmitido em simultâneo pela TSF, Renascença e Antena 1. Motivo: António Costa (AC) meteu os pés pelas mãos com os números relativos aos cortes de 1000 milhões em prestações sociais que constam no seu programa e o sucedido resulta imediatamente num triunfo absoluto do homem que abria portas na Tecnoforma. Interessante a ausência de comentários dos abanadores de bandeiras da coligação sobre o grande momento que marcou a agenda da campanha na passada Segunda-feira, quando o ainda primeiro-ministro anunciou, há hora do almoço, que o seu governo se preparava para efectuar um pagamento antecipado ao FMI no valor de 5,4 mil milhões de euros para, no final do dia, vir emendar a mão e explicar aos portugueses que afinal o pagamento diz respeito a um empréstimo obrigacionista. Costa desculpou-se no Facebook, Passos Coelho num comício, devidamente protegido pela bolha para que não se volte a encontrar com senhoras de cor-de-rosa ou a protagonizar momentos patéticos como a da subscrição pública a favor dos lesados do BES.

Se houve, no meu entender, alguma vitória de PPC, essa vitória residiu apenas no facto de ter percebido o quão ridículo foi no primeiro debate e de ter aceite fazer aquilo que os assessores e gurus eleitorais lhe mandaram fazer: retirar Sócrates da equação. Estou certo que não terá sido fácil para alguém tão básico e de argumentos tão fracos, que foge a debates e entrevistas que não sejam dadas a jornalistas-fãs e que precisa desesperadamente de um político mais odiado que ele para respirar. Passos guardará Sócrates para sempre no coração.

A verdade é que o debate, à semelhança do primeiro, foi uma vez mais fraquinho. Os representantes da ruína económica e social do país voltaram a reunir-se para simular um debate honesto, debitar propaganda pré-definida e fugir a todas as questões incómodas não fosse alguma telha de vidro cair. O costume.

PPC voltou a colar o PS ao Syriza – para quando um socialista que cole os fascistas húngaros à coligação PàF, esses pelo menos são da mesma família política – e AC recordou o ímpeto além-Troika do governo e trouxe à baila um artigo escrito por PPC no Wall Street Journal onde defendia que a austeridade proposta por Sócrates não era suficiente. Fizeram-se promessas, assumiram-se compromissos, regressou-se à polémica da dívida de Lisboa e à venda dos terrenos da ANA, insistiu-se no fracasso da venda do Novo Banco, ouviram-se assobios para o lado no que a precariedade laboral galopante diz respeito, com Passos em negação a falar num país que com certeza não será o nosso e que aparentemente produz emprego “digno capaz de competir com outros países desenvolvidos“, e ainda tivemos direito a um momento de humor do primeiro-ministro, que acusou AC de estar agarrado ao passado quando é PPC quem não “deslarga” José Sócrates. Enfim, quase hora e meia de mais do mesmo: ataques pessoais, vocabulário inacessível ao comum dos mortais, demagogia e poucas respostas para os problemas do mundo real.

O melhor resumo que podemos fazer do debate da passada Quinta-feira ficou plasmado num outro lapso que ficou por referir, quando Graça Franco se dirigiu a um dos contendores como Dr. Passos Costa. Mais do que Costa ser o herdeiro de Sócrates ou de Passos se fazer acompanhar de gente tão distinta como Miguel Relvas, Marco António Costa ou o amigo e conselheiro Dias Loureiro, a verdade é que, ganhe qual deles ganhar, pouco ou nada irá mudar que não seja umas quantas moscas e o monopólio do tacho. Serão, no fim de contas, mais quatro anos de bloco central, amigos, favores, incompetência, desculpas esfarrapadas e má despesa pública. Têm notado grandes diferenças nos últimos 40 anos?

Foto@Diário de Notícias