Afunilamento Democrático: a verdade sobre o sequestro da democracia pelo bloco central

Who controls the past

É recorrente, em discussões com amigos ou conhecidos que apoiam os partidos do bloco central, ouvir da parte destes o argumento de que estamos em democracia, que o povo é livre para escolher ou para formar partidos e que todos têm iguais oportunidades de chegar ao poder. E se os dois primeiros são questionáveis, o terceiro é pura e simplesmente falso.

Trata-se de um argumento que serve essencialmente para justificar aos militantes e simpatizantes de partidos como o PS ou o PSD a sua permanência ad aeternum no poder. Porque por mais poder que as cúpulas possam concentrar, esse poder só existe e se mantém porque existe uma base de apoiantes leais, muitos deles permeáveis a qualquer tipo de propaganda e dispostos a (quase) tudo e que, regra geral, desconhecem os meandros podres e anti-democráticos por onde passa parte substancial das movimentações políticas de quem efectivamente manda. Se soubessem, PS e PSD assemelhar-se-iam mais a mafias do que a partidos políticos porque pouco mais que criminosos por lá permaneceriam.

Qualquer pessoa que se interesse pelo fenómeno tem plena noção que o acesso ao poder não é igual para todos e que desde a fundação da democracia, em 1974, a República foi tomada de assalto por um grupo cada vez mais restrito de pessoas. Na verdade, nós não escolhemos deputados e muito menos primeiros-ministros. É-nos apenas dada a opção de escolher entre as escolhas das elites do bloco central, escolhas essas que reflectem alinhamentos de conveniência e poder no interior dos partidos e não aspectos relacionados com a competência ou o mérito. Se assim fosse, Pedro Passos Coelho nunca teria sido primeiro-ministro, seria contranatura.

Depois existe a questão do financiamento. Com fortes redes clientelistas implementadas em todas as freguesias, fruto da distribuição de tachos e similares, o bloco central garante um eleitorado fixo e leal, mais não seja pelo medo de virem a perder o emprego, o estágio do filho, a nomeação da tia. Desta forma, é-lhes garantido um financiamento permanente decorrente das vitórias eleitorais, que ascende à casa dos milhões de euros e que permite colocar no terreno, eleição após eleição, máquinas esmagadoras cuja propaganda que abafa a dos restantes partidos, mesmo daqueles com assento parlamentar, e que lhes permite hoje colocar autênticos exércitos de manipuladores virtuais online como o clone-galdério recentemente desmascarado aqui no Aventar que dá pelo nome de Maria Luz.

Mas o afunilamento democrático não se resume ao poder das elites do bloco central. Reparem por exemplo na cobertura mediática das campanhas eleitorais. Os candidatos do PS e PSD (actualmente PàF, desde que engoliu o táxi de Paulo Portas) são frequentemente referidos como “o próximo primeiro-ministro de Portugal”, excluindo, à priori, a possibilidade de qualquer outro partido vencer as eleições. A imprensa, regra geral controlada por destacados militantes destes partidos ou por gente próxima do poder, decide quem pode ou não aspirar a governar.

E esta ideia, martelada até à exaustão, cria na cabeça de muitos eleitores a ilusão de que apenas PS e PSD são elegíveis e capazes de governar. Que os restantes são partidos de protesto que não querem governar, apenas ser oposição, a que se junta a narrativa de que “são todos iguais”, uma narrativa falsa que apenas serve para retirar ainda mais votos aos pequenos partidos, apesar de não haver um único entre estes que tenha qualquer responsabilidade no estado a que isto chegou, com a excepção de um período muito particular no pós-25 de Abril em que o PCP, através do PREC, causou alguns danos na economia, danos esses que ainda assim não têm sequer comparação com o que os governos de Cavaco Silva fizeram à agricultura.

Ainda no campo mediático, reparem que a cobertura das campanhas incide essencialmente no PS e PSD. Existe depois uma nesga de tempo para BE, PCP e CDS (quando não surge como muleta pré-eleitoral do PSD) e os restantes partidos nem sequer existem. Se juntarmos a isto o facto de, quanto mais pequeno menos verbas para fazer campanha e por conseguinte a menos pessoas se consegue chegar, nomeadamente quando saímos das grandes cidades do litoral para o interior, onde as redes clientelistas erguidas à décadas controlam parte substancial da população, as possibilidades de um partido exterior ao Parlamento conseguir lá chegar são diminutas, excepto em casos muito pontuais e raros.

Redes de clientelas, deputados, secretários de Estado e ministros em cargos-chave nos grandes escritórios de advogados que desenham legislação para os governos que integram, o monopólio das nomeações públicas, empresários-militantes que injectam milhões através dos Jacintos Leite Capelo Rego desta vida a troco de favores e outras corrupções, batalhões de jotas dispostos a tudo na esperança de virem a ser a próxima pop star no Parlamento e terrorismo virtual, tudo isto controlado ao melhor estilo siciliano. Orwell poderá ter exagerado em algumas coisas mas a frase que abre estas linhas é tão actual como o era em 1948. Quem controla o passado controla o futuro, quem controla o presente controla o passado. E consegue inclusive reescrevê-lo.

Democracia? Liberdade de escolha? Igualdade de oportunidades de acesso ao poder? Não seja ingénuo. Eles não o são.

Comments

  1. Escatota Biribó says:

    Excelente análise, e ainda que o Orwel não tenha sido português, ele parecia conhecer a natureza humana no que respeita ao poder, como pouco outros autores, já que que as classes mais baixas aceitavam (aceitam) qualquer orientação vinda de cima

  2. Rui Silva says:

    As questões que coloca são realmente pertinentes.
    São até factos.
    Mas como resolver este problema da Democracia ?

    cumps

    Rui Silva


    • mudando o sistema eleitoral. e diminuindo drásticamente o financiamento dado aos partidos. aqui sou radical ao ponto de defender uma soma igual para cada partido e que se não chegar se amanhem com as quotas dos militantes ou gastando menos dinheiro em lixo propagandístico.

      • Ana A. says:

        João Mendes ainda bem que fez este comentário, pois da forma como acabou o seu texto, parecia que só tínhamos como caminho o conformismo.

      • Rui Silva says:

        Apesar de não entender qual a alteração eleitoral que defende, e em que medida podia resolver algum destes problemas, posso dizer que até concordo com as outras suas propostas. Não penso nada que a proposta da redução do financiamento seja radical. Penso até que deveria ser 0 (zero), ou depender do nível de abstenção, pelo menos…
        No entanto, não sei se que a diminuição ou anulação do financiamento público dos partidos não será de algum maneira inconstitucional.
        Normalmente os poderes do Estado estão ” blindados ” a nível constitucional.

        Ru Silva

  3. Ferpin says:

    Dinheiro igual para todos os,partidos?
    Vou já abrir um partido com mais meia dúzia de pessoas. Dava um dinheirão a cada um.

    Dinheiro zero para todos os partidos?
    Era porreiro para os partidos com acesso ao financiamento oculto dos interesses privados. O PSD CDs e mesmo o oPS iam gostar.

    Para começar ponham a possibilidade de votar em nomes e não no partido. Depois juntem um ciclo nacional para afinar a coisa.
    Eu gostaria de chegar ao dia das eleições e poder votar num gajo que o partido meteu em último da lista, mas que eu acho ser honesto.

    Os elementos honestos e capazes dos partidos tradicionais ficariam mais livres para ser honestos e mesmo assim eleitos.

    Claro que as razões porque se devia fazer isto são as mesmas porque não será feito. Depois, como é que um tipo como o passos se fazia eleger chefe do PSD?


  4. O mais greve foi a alienação das grandes empresas públicas, que davam guarida aos políticos independentes do grande capital quando tinham que ir para a oposição. Isto é, aos políticos que não são empregados das empresas do PSI20 ou de outras grandes empresas a operar em Portugal.

  5. José almeida says:

    Excelente e pertinente Post. Não há dúvida que o sistema estrangulou a democracia. Enquanto não for alterada a lei eleitoral, está democracia transformou-se na mais perigosa ditadura, pois nada muda nem se altera. Defendo um sistema eleitoral directo, ou seja, não há deputados sem votos. Aos votos em branco corresponderem cadeiras vazias. Possibilidade de votar eletronicamente para que as abstenções fossem reduzidas. Democracia, não é eleger uma maioria absoluta com pouco mais de 18% dos eleitores, como aconteceu recentemente na Madeira. Como bem diz João Mendes, onde está a igualdade de oportunidades com acesso ao poder neste regime? Ou então permitir que o voto possa ser negativo, ou seja, votar para que determinado partido não ganhe. Talvez a abstenção baixasse e os resultados espelhassem a realidade de quem somos e o que queremos.


  6. Para males de raiz , remédios radicais !

  7. Manuel Veloso says:

    Parabéns pelo excelente texto Mendes,abraço!

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.