Crise na Volkswagen: a catástrofe capitalista que se segue e o silêncio pré-eleitoral do regime


German Chancellor Angela Merkel sits in a Volkswagen eco-up! auto during a visit to the Volkswagen exhibition at the International Motor Show (IAA) in Frankfurt September 15, 2011. REUTERS/Alex Domanski

Aproxima-se da Europa um furação de intensidade 5 que, aparentemente, não causa grande preocupação aos nossos governantes, que substituíram temporariamente as suas funções pelas de ilusionista, podendo, até Sexta-feira, ser encontrados em mercados e feiras, PME’s, associações e ruas da sua cidade, protegidos por um cordão jota de abanadores de bandeiras. Se os virem tenham cuidado. Alguns podem revelar-se perigosos.

O escândalo Volkswagen (VW), que já fez com que a gigante alemã perdesse mais de 24 mil milhões de euros em bolsa, é a mais recente catástrofe do capitalismo sem freios que clama pelo fim de todas as formas de regulação, o tal que os ultraliberais no governo querem impor ao nosso país. A Reuters, essa agência noticiosa marxista-leninista, citou Carsten Brzeski, um outro radical de esquerda que exerce a função de economista-chefe do banco holandês ING, e o aviso não poderia ser mais claro: a crise na VW representa um risco superior ao da crise da dívida grega para a economia alemã.

Temos portanto um gigante do sector automóvel que adulterou testes de emissão de gases para poupar uns trocos e o resultado da trafulhice poderá ser o início de uma nova crise na Europa. Porquê? Porque a VW é um dos motores da Alemanha, a maior economia da Europa. Estamos a falar de potenciais perdas de vendas (em 2014 a VW vendeu 600 mil viaturas nos EUA, número que será com certeza afectado quer pela situação em si, quer pelo jogo de bastidores que a indústria automóvel norte-americana fará), indemnizações que poderão ascender a 18 mil milhões de dólares e danos na imagem da empresa e da marca que poderão demorar anos até serem recuperados. Se algum dia forem na sua totalidade.

Agora aqui vai uma pequena conspiração: o governo está muito silencioso sobre o assunto. À parte de uma intervenção muito tímida de Pires de Lima, que procurou serenar quem percebeu, entre bandeiras, arruadas e comícios em feiras, aquilo que se está a passar, na qual afirmou que o IMT está a atento e que “é muito improvável que tenham sido produzidos automóveis com incorporação deste chip fraudulento” na Autoeuropa, algo que aparentemente nos deve descansar a todos, impera o silêncio sobre um problema de proporções grandes demais para ser ignoradas e eu acho que sei porquê: porque estamos em campanha e as ondas de choque que a colocação deste problema na ordem do dia teriam poderiam ser imprevisíveis. Não é a questão de se produzirem veículos adulterados ou não na unidade de Palmela. É saber se esta crise terá impacto numa das maiores exportadoras nacionais. E logo este governo que tanto gosta de falar em exportações!

É que, a confirmar-se a chegada do furacão, não será apenas a Autoeuropa a sofrer as consequências. Existe uma parte do tecido empresarial português que gravita em torno deste gigante, da indústria de componentes ao comércio local onde os mais de 3 mil trabalhadores da empresa fazem a sua despesa de bens de consumo. O próprio impacto que esta crise terá na Alemanha poderá resultar em danos profundos em toda a Europa e numa vaga extra de austeridade e recessão. O problema é grande demais para ser ignorado. Estar em campanha não poder ser justificação para não esclarecer os portugueses. A ameaça é real.

Foto: Alex Domanski@Reuters

Comments

  1. José almeida says:

    A Autoeuropa pode levar Portugal para um segundo resgate. Depois das eleições logo se verá. Em campanha acho que o Bloco Central vai andar cego, surdo e mudo a este respeito.

  2. Miguel Soares says:

    Bullshit: Pires de Lima esta’ armado em parvo ou entao nao ‘e uma pessoa informada. A Autoeuropa produziu e produz Vw Sharan e Seat Alhambra con os motores de que se fala( 2.0 tdi, tipo ea189). So’ que neste momento convem que o povo se mantenha na ignorancia.

  3. Uma vergonhas que entidades reguladoras, nos diversos países, não “queiram” detectar problemas de tal gravidade!!
    Quem é que nos pode valer? presumo que só ONG sem fins escondidos..

  4. Rui Silva says:

    A intenção do “post” parece claramente culpar o Capitalismo pelos problemas da VW.
    Mas em primeiro lugar, a vantagem do Capitalismo é mesmo essa, quem gerir mal a sua empresa arrisca a percas ou até a falência, ao contrario de uma “economia de estado “sobretudo em regimes Socialista/Comunista/Fascista/Nacional-Socialista”, em que por pior que a empresa seja gerida nunca pode falir.

    Mas o exemplo de mau Capitalismo com a VW é mesmo um tiro completamente na “água”.
    A VW é uma empresa “dominada” pelo Estado da Baixa-Saxónia. Ou seja é o exemplo acabado do intervencionismo na economia, ferindo um dos princípios básicos do Capitalismo.

    cumps

    Rui Silva

    • Miguel Soares says:

      Dominada pelo Estado da Baixa Saxonia parece-me uma afirmacao algo exagerada; este entidade detem 20,3% dos direitos de voto e 12,7% de shares…

      • Rui Silva says:

        Uma “Golden Share” domina uma empresa nas grandes decisões estratégicas .
        Era o caso da EDP… por exemplo.
        Mas concorda que uma “Golden Share” estatal configura ua economia Capitalista ?

        cumps

        Rui Silva

        • Rui Silva says:

          Cont.

          Por mais pequena que seja a “golden share”. Aliás é o que golden share significa. Ter poder de decisão sem a correspondente participação na capital social.

          Rui SIlva

        • Miguel Soares says:

          Concordo

          • Rui Silva says:

            Mas concorda mal, pois isto trata-se de Capitalismo de Estado, que origina o chamado Capitalismo de Compadrio, que á altamente prejudicial para o cidadão, porque destrói a livre concorrência.
            E a concorrência é a parceira dos preços baixos e da qualidade alta.

            cumps

            Rui Silva

        • Nascimento says:

          ” E a concorrência é a parceira dos preços baixos e da qualidade alta.” ui, a sério? A EDP? A GALP? Os Seguros da CGD ? E com que guito? Mil milhões ? Onde?

          Com-cu – rrência? Preços baixos? O que tu sabes de frases feitas. És uma Wikipédia aqui no Aventar…. vou já ligar ao “mercado” ( livre) chinês…

      • Miguel Soares says:

        Acho que nao nos estamos a entender Rui Silva; concordo que uma Golden share estatal configura una economia capitalista mas nao digo que tal seja benefico para um sistema economico. Nao o e’, de facto. A chamada “Volkswagen Law” e a contestacao da mesma por parte da Ue e’ um optimo exemplo.

    • Nascimento says:

      Atão não queres ver que a merdosa da Merkolina mais o Schauble agora viram comunas””???Ai este ruizinho faz-me lembrar sempre com imensa saudade o mê canito….

  5. Rui Moringa says:

    Não conheço, actualmente, nenhuma economia não capitalista.
    Volto à “Terceira Vaga”: A questão é saber ou determinar quem fica com o lucro, o capitalista ou a nomenclatura (militar ou outra).
    O resto são cantigas, oh rosa…
    Por isso é que os mecanismos de produção e distribuição são importantes para atenuar, amortecer a gula de uns e a inércia de outros.
    Aliás a segurança social nasceu, bebendo um pouco desta lógica: é um processo de distribuição económica e financeira para além de garantir uma vida melhor aos trabalhadores quando não podem mais trabalhar ou sofrem acidentes. Hoje esquecem-se desta premissa e o fiel depositário do dinheiro (Estado), muda as regras do jogo por força de quem se apropriou do seu aparelho (de estado).
    Aqui é um caso de batota, pura e simples com o objectivo de aldrabar outros que antes estavam à mesa das negociações e a quem emprestam dinheiro que lhes extorquiram por estes processos.
    Os gregos compraram submarinos e nós também. Vejam quem os vendeu e a manutenção?!
    Agora quero é sair deste clube (EU) onde mandam os aldrabões dos alemães (controlam o banco, ou seja as regras do negócio).
    Entretenham-se com “vidinhas”.

  6. anonimo says:

    No caso da VW o problema foi de falta de regulação?
    Faltará uma (nova) entidade fiscalizadora que coloque um fiscal à porta de cada fábrica e inspeccione cada veículo produzido?
    Se a empresa fosse (totalmente) estatal o problema da VW não aconteceria?

    A questão não é poderem ou não ocorrer fraudes (ocorrerão sempre, com e sem regulação, em empresas privadas e empresas Estatais). A questão é se é possível detectá-las e o que acontece quando essas fraudes ocorrem.
    Este caso provou que é possível detectá-las. E está a provar que as consequências podem ser devastadoras, nomeadamente para os accionistas. Como deve ser quando ocorrem fraudes.

    • Rui Silva says:

      Caro Anónimo,

      Perfeitamente de acordo. Mas os “idealistas” , sempre que acontece uma fraude ( que deve ser resolvida com a justiça nos tribunais) , aproveitam de imediato para clamarem mais regulação , mais Estado etc. Como se com as empresas estatais esses casos não acontecessem.
      O problema é que quando acontecem com as empresas do Estado ,quem paga é o inocente do contribuinte.
      Penso até que não é compreensível, aqui a malta da esquerda estar tão condoída com as perdas dos acionistas ( capitalistas),
      parece que estão com tanta pena que pretenderiam que as perdas fossem assumidas pelos contribuintes.

      cumps

      Rui SIlva

    • Miguel Soares says:

      Para os accionistas? ‘E bom nao esquecer todos os empregados do grupo que nao tendo alguma responsabilidade neste caso especifico, correm o risco de perder o emprego. E nao esquecamos os inumeros fornecedores da Vw por esse mundo fora.

      • Rui Silva says:

        Você acha que devem ser os trabalhadores da Seat da Fiat ou o empregado de mesa do seu restaurante que devem sofrer com os problemas da VW ?

        Rui Silva

        • Miguel Soares says:

          Nao acho mas e’ una possibilidade; dependendo das dimensoes que este caso possa vir a assumir. Uma possivel consequencia e’ o corte de postos de trabalho. Talvez ate’ da Seat. A Fiat nao tem qualquer ligacao ao grupo Vw. O empregado de mesa do restaurante que todos os dias serve refeicoes aos empregados de uma qualquer fabrica da Vw tambem pode sofrer consequencias se essa mesma fabrica fechar ou diminuir os postos de trabalho.

          • Rui Silva says:

            Ou o contrário, a Fiat pode vir a ser beneficiada com o caso e aumentar as suas vendas e isso resultar num aumento de nº de funcionários na própria Fiat, assim como nos restaurantes das imediações da Fiat…

      • anonimo says:

        “os empregados do grupo que nao tendo alguma responsabilidade neste caso especifico, correm o risco de perder o emprego”

        Existe a ideia (falsa) que é possível (de alguma forma) proteger as pessoas de todos os problemas de que não são responsáveis. Infelizmente isso é impossível. Qualquer trabalhador no sector privado está sujeito a que a sua empresa vá à falência (e consequentemente, perca o emprego) porque um gestor foi incompetente, cometeu uma fraude, a concorrência fez melhor, etc. Veja-se o caso da Nokia: que culpa/responsabilidade tiveram os trabalhadores da linha de montagem na sua falência?
        E, no entanto, qual seria a alternativa? Manter esses empregos à custa dos contribuintes? Ajudar os accionistas a manter o valor das suas acções?
        O que é preciso é deixar de acreditar em contos de fadas em que “só aos maus acontecem coisas más”. Infelizmente a vida não é assim e o máximo que podemos/devemos garantir como sociedade solidária é algum tipo de protecção social.

      • Miguel Soares says:

        Ora ai esta’ um optimo exemplo Rui; a Fiat vai aumentar os postos de trabalho na Polonia e/ou Servia e com isso criar novas oportunidades para todas as actividades que giram ‘a volta das suas fabricas. Pelo menos enquanto nenhum teste ‘as emissoes dos seus veiculos nao colocar a Fca numa posicao de dificuldade.

    • Isabel Atalaia says:

      30 milhões de euros de indemização para Winterkorn… que desgraça de consequências.

  7. José almeida says:

    Tetraplégico é um indivíduo que tem o corpo paralisado do pescoço para baixo. Como se chamam os indivíduos que estão paralisados do pescoço para cima? Os dedos mexem eles bem!

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