Outono Vermelho

Vermelho

Eles estão impacientes. A máquina de propaganda era uma das mais fortes e bem oleadas de que havia memória, a estratégia de se fingirem de mortos resultava a ponto de haver quem não soubesse que o PàF era afinal uma coligação entre o PSD e o CDS-PP, os trambolhões da campanha do PS faziam a sua parte e algumas sondagens chegavam mesmo a atribuir maioria absoluta às tropas de além-Troika. A coisa não correu como esperado mas nem tudo estava perdido. Não seriam os primeiros a governar com maioria relativa.

Até que o impensável aconteceu. Feitas as contas eleitorais, havia agora uma maioria de esquerda, ainda que feita de partidos sem grande vocação para se entenderem uns com os outros. A hipótese de uma coligação entre as forças à esquerda soava a absurdo e as bandeiras do PàF continuavam em riste como se não tivessem perdido 11,81% dos votos e pelo menos 24 deputados no Parlamento. O alarme soou poucos dias depois, quando mandatado pelo partido, António Costa se reuniu no quartel-general do PCP com o comité de Jerónimo Martins. Dispostos para “viabilizarem um executivo socialista”, os comunistas chocaram quase meio pais. Então e a lenga-lenga do partido de protesto? O tal que só quer estar na oposição? Aquele que não quer governar? Algo ali não batia certo pensavam os PàF’s, isto não podia estar a acontecer.

Os fazedores de opinião à direita correram a anunciar o cataclismo, o frentismo que iria destruir-nos a todos. Antevia-se a catástrofe económica, a ira dos mercados, o rating abaixo de lixo e o PREC ao virar da esquina que faria de nós a nova Albânia. Desenhava-se um golpe de Estado com vista à instauração de uma ditadura de esquerda. Era chegado o tempo da revolução do proletariado, das nacionalizações em massa e dos tratados internacionais rasgados, mesmo aqueles que, como o TTIP, o sectário de Belém anunciava como fundamentais apesar de não terem sequer sido assinados ou tão pouco explicados aos portugueses. O Outono Vermelho que deixaria o país em cacos.

O radicalização do discurso à direita agudizou-se. A máquina de comunicação do regime anunciava o PS fracturado, refém dos partidos à esquerda, onde a contestação, personificada no “costista” Assis seguido por uma multidão de seguristas, levaria o Largo do Rato ao confronto que deixaria o partido de rastos. Porém, a realidade encarregou-se de dar uma bofetada na propaganda. E se dúvidas restassem, o discurso radical de Cavaco Silva por altura da indigitação de Passos Coelho, acabaria por unir ainda mais a esquerda. Na Comissão Nacional do seu partido, Costa conseguia um apoio demolidor para prosseguir com as negociações à esquerda, o BE mostrava abertura e o PCP, inicialmente hesitante, acabaria por pôr de lado 40 anos de confrontação e anunciava o inesperado. A aliança à esquerda passou de abstracção a algo concreto.

Hoje, em absoluto respeito pelas regras democráticas plasmadas na lei fundamental que a coligação agrediu e desrespeitou durante quatro anos, o governo a prazo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas será sujeito a uma moção de rejeição que lhe colocará um ponto final. Quatro para ser mais preciso. Falta saber o que fará Cavaco Silva mas o expectável é que se veja encurralado e perante a opção de chamar António Costa a formar governo. Será o primeiro governo da história de Portugal que contará com uma aliança improvável de partidos de esquerda. Existem fragilidades, é certo, mas existe também um equilíbrio que permitirá respeitar os compromissos internacionais e promover mudanças estruturais que devolverão alguma esperança a milhões de portugueses sujeitos à violência de uma austeridade cega aplicada por apóstolos do poder financeiro com a sensibilidade de um tijolo.

Conseguirá este governo levar a cabo todas as suas propostas? É pouco provável. Mas que dizer do governo anterior, eleito com base em promessas de não aumentar impostos, não cortar subsídios e prestações sociais e não vender património do Estado “como quem vende anéis para ir buscar dinheiro? Os milagres não existem e a conjuntura internacional adversa não facilitará o caminho do novo governo. Mas estou certo – e preparado para engolir tudo o que agora estou a escrever – que entre o que tivemos até agora e uma alternativa de governo mais próxima do povo, não tenho dúvidas sobre aquilo que quero. Estou disposto a correr o risco. Mudança alguma ocorreu sem que o risco estivesse presente. Ainda bem que o podemos correr.

Comments

  1. Ana Moreno says:

    Desta vez vou ceder ao fácil 🙂 : Yeeeeeehhhh!!!!

  2. António Melo says:

    Absolutamente rigoroso no que toca às sucessivas alterações dos estados de alma dos pafiosos e ao desmoronar das suas ambições (continuarem a lambuzarem-se no pote e a destruir o país, devastando a coesão social, vendendo ao desbarato – muitas vezes em condições mais do que duvidosas – o património nacional, destruindo o Estado Social em proveito e benefício do sector privado, mentindo descaradamente, defraudando, traficando a torto e a direito) e na percepção de que uma corrente de esperança começa a unir todos aqueles que nunca se reviram nesta gente, nesta retórica balofa, nesta forma de tratar o povo, desconsiderando-o e rebaixando a sua dignidade, de favorecer os já favorecidos e de desprezar os mais carentes, de se vergarem até ao chão perante o poder alemão, o poder de Bruxelas, dos mercados, do raio que os parta, de serem, como se costuma dizer “fortes com os fracos e fracos com os fortes”, enfim de serem eles mesmos e as suas circunstâncias, ou seja, de serem os lacaios de poderes que os transcendem e que lhes encomendaram o serviço de traição ao Povo, à Constituição e à Pátria. Tal como o João, duvido que o programa do novo governo de esquerda seja cumprido em todas as metas que se propõe. Mas é preciso tentar, é preciso encontrar alternativas, é preciso olhar para os portugueses, dialogar com eles e com todos os parceiros sociais e, agora sim, encontrar consensos que nos permitam sair deste lodo, deste pântano infecto em que esta gente nos mergulhou. Amanhã, com toda a certeza, vamos respirar um ar mais limpo, mais saudável, carregado de incertezas e de promessas, tal como a vida.

  3. JgMenos says:

    Bem-vinda bipolarização!
    Enfim, adivinha-se o fim do tempo da falsa charneira avermelhada a impingir o discurso piegas da ‘Agenda dos Coitadinhos’ e da ‘Mama Geral’ sempre que quer pastar à mesa do orçamento.
    Histórico será o dia se tal daí resultar!