Nevermind

Li a notícia do casaco de lã com mais de vinte anos, desbotado, com um buraco de queimadura e um botão em falta, que foi vendido em leilão por 137.500 dólares, perto de 130 mil euros. O casaco pertenceu ao Kurt Cobain (sim, posso usar o artigo para nomeá-lo, we go back) e foi usado por ele no célebre concerto unplugged da MTV, aquele que permitiu que ouvidos sensíveis (que consiste, no fundo, noutra forma de dureza de ouvido) apreciassem pela primeira vez os Nirvana.

O meu primeiro pensamento foi, naturalmente: “Puta que os pariu”. As voltas que o gajo daria no túmulo se soubesse. Um casaco todo lixado, que já estava todo lixado há vinte anos, porque não nos passaria pela cabeça que ele usasse outra coisa senão um casaco todo lixado, a ganhar valor de mercado, a transformar-se num item cobiçado, capaz de valer o que muitos não ganham em duas décadas. Pareceu-me uma espécie de derrota, vá. Que o Kurt se tenha transformado num desses ícones que os gajos fabricam para consumo rápido, lá vai overdose aos 27, ou morte na estrada, ou tiro de revólver, foi uma derrota que já era esperada. Mas vê-lo transformar-se em peça de mercado é do caraças. Até uma madeixa do seu cabelo louro tinham para leiloar, mas desistiram em cima da hora.

Pois, naquele pedacinho do meu coração que ainda conserva os 17 anos senti uma picadela (que já não um aguilhão), porque estas merdas acabam sempre por ser pessoais, a não ser que já estejamos tão blasé que tudo nos dá igual. Espero nunca lá chegar.

No fundo, a gente soube sempre que essa coisa triste, desalentada, ingénua, desadaptada, frustrada, enraivecida, mas ainda capaz de sentir alguma esperança que foi o nosso grunge (que cada um teve o seu) acabaria depressa. Não aspirava a revolucionar, não acreditava realmente no seu poder transformador, apenas queria contar a raiva, o medo, a angústia, e que lhe dissessem que sim, que haveria uma saída. Ali estávamos, a primeira geração que não tinha o direito de queixar-se, mas que já via – e como se via já então – que o que lhe prometiam ia dar para o torto.

Para muitos, o Kurt até foi o primeiro a morrer-lhes, mas vieram mais. Aprendemos com uma morte à distância antes que ela nos tocasse de perto. Ainda assim, sobrevivemos vários. Fizemo-nos saudosistas, alguns assumidamente conservadores, já nos permitimos dizer “no meu tempo”. Para quem não renegou a música amada, que há gente que até a isso chega (não a deixar de amá-la, que é coisa que não se pode impedir, mas a negar o amor que se lhe teve), incomoda que se apropriem do que será, pelo tempo fora, sempre nosso, que leiloem casacos de lã que não valem um chavelho, que transformem tudo o que amamos em valor transaccionável, item de coleccionador, peça de leilão para um milionário chanfrado que esperará vinte anos pelo momento oportunista de vender, nós que ainda éramos um pouco sentimentais, apesar do sarcasmo, apesar do negrume. Nem com todas as velas acesas encontrámos deus, mas tampouco chegámos a tomar lítio.

O desfecho inevitável para esta queixa é dizer-vos: esqueçam. De resto, deixar conversas a meio é muito grunge.