O triunfo das Mulheres do Bloco

Mulheres

Num país de valores antiquados e conservadores, a cena política é ainda dominada por homens. É certo que já tivemos Maria de Lurdes Pintasilgo a chefiar o governo durante escassos meses, Assunção Esteves a presidir à Assembleia da República e umas quantas ministras e secretárias de Estado, sempre em acentuada minoria face aos seus pares do sexo oposto, mas a verdade é que a política portuguesa ainda é um couto masculino e nada parece indicar mudanças no curto prazo.

Depois temos o Bloco de Esquerda. Coube a Catarina Martins a difícil sucessão do carismático Francisco Louçã, num dueto inesperado e temporário com João Semedo, mas, depois de uma campanha eleitoral extremamente bem-sucedida para as Legislativas, foi sob sua liderança que o Bloco conseguiu o seu melhor resultado eleitoral de sempre e, mais simbólico ainda, foi com Catarina Martins que os muros à esquerda caíram e possibilitaram o histórico acordo de governo que permitiu derrubar a coligação PàF.

Mariana Mortágua é outra das mulheres em grande destaque no Bloco. Temida por banqueiros e empresários corruptos, Mortágua brilhou na comissão de inquérito ao caso BES e, para além do excelente trabalho parlamentar que vem produzindo, esclarecendo os portugueses e confrontado o regime, deu ao país o épico momento da humilhação de Zeinal Bava, esmagando-o como um pequeno mosquito.

Finalmente Marisa Matias. Depois de ter liderado as listas do BE às europeias de 2014, Marisa Matias foi eleita vice-presidente do grupo parlamentar europeu que integra e tem feito um trabalho digno de nota em Bruxelas. Candidatar-se a Belém, porém, foi considerado por muitos um tiro no escuro e o mundo parcial do comentário político não perdeu tempo a destacar a sua juventude e inexperiência, procurando descredibilizar a sua candidatura. Marisa Matias respondeu com uma campanha brilhante a que correspondeu um resultado que muitos não antecipavam, o melhor de sempre do Bloco, deixando para trás, com mais do que o dobro dos votos, Maria de Belém e Edgar Silva, e confirmando o actual estatuto de terceira maior força política portuguesa do BE.

Num mundo dominado por homens, as mulheres do Bloco acumulam triunfos e continuam a abrir caminho para uma nova forma de fazer política, representando uma nova esquerda afastada da ortodoxia do PCP e das derivas liberais do PS. Se as Legislativas mostraram ao país que há vida após Louça, estas presidenciais foram a confirmação da força deste Bloco que se soube renovar e sair da sombra dos seus fundadores e líderes históricos. Liderado por um grupo de grandes mulheres. O Arroja até se esganiça!

Foto: Enric Vives-Rubio@Público

Comments

  1. Helder P. says:

    O que não faltava há um ano eram comentadores de painel, “paineleiros” encartados a declarar o óbito do Bloco.
    Agora, na noite em que o rei dos “paineleiros” foi eleito, os mesmos “paineleiros”, declaram o declínio irreversível do PC.
    Eu que não sou cartomante nem leio os búzios, parece-me que também neste caso, vão estar redondamente enganados. Há gente que não disfarça o seu wishful thinking ressabiado.

  2. Nightwish says:

    Não recolhe a minha simpatia, mas a Ferreira Leite também merecia uma referência na introdução.