Ministério da Educação: mais uma volta, mais uma viagem!

09911Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) deu início à estafeta da prova de Dez anos para destruir a Escola. Isabel Alçada ainda ajudou um bocadinho. Nuno Crato (NC) recebeu o testemunho e conseguiu piorar o péssimo. É caso para dizer que, desde 2005, na Educação, os ministros fazem como os santos: ajudam nas descidas.

Quando Tiago Brandão Rodrigues chegou ao Ministério, houve críticas, porque não se lhe conhecia opiniões sobre Educação. Nada que impedisse MLR de ter completado uma legislatura desastrosa, sendo hoje uma senadora com obra publicada, como muitos ignorantes atrevidos. Por outro lado, o facto de NC ter perorado tanto sobre Educação não o impediu de ser um dos maiores desastres da área.

Mal ocupou a cadeira ministerial, Tiago Brandão Rodrigues acabou com a maior parte dos exames nacionais. Os apoiantes da medida – que me desculpe o João Paulo – não souberam explicar as vantagens daí decorrentes. Lamento, mas a felicidade dos alunos ou a eventual marginalização dos mais desfavorecidos não são suficientes para que me convençam de que os exames são um instrumento mau ou desnecessário, até porque a felicidade das crianças não pode ser critério exclusivo ou principal para que se tomem medidas sobre Educação e o fim dos exames está muito longe de ser suficiente para acabar com a exclusão social.

Nuno Crato, por seu lado, limitou-se a debitar vulgaridades, quando defendia que não podia haver exigência sem exames e perverteu o uso dos rankings, transformando-os num sistema de avaliação das escolas e dos professores, o que faz tanto sentido como querer usar um coador para comer a sopa.

Já que falamos em instrumentos, note-se que não defendo nem ataco exames, do mesmo modo que não defendo nem ataco tesouras. Um instrumento só pode ser um problema se se provar que é desnecessário ou que está a ser mal utilizado. Não tenho nada a dizer se a tesoura for usada para cortar cordel ou para abrir embalagens de leite (tendo em conta que a apregoada abertura fácil é um dos maiores embustes da História da humanidade). Se alguém empunhar a mesma tesoura com o objectivo de me agredir, a culpa não é do objecto e espero que o pânico me dê velocidade suficiente, já que o peso e a idade não ajudam.

Dito isto, Tiago Brandão Rodrigues não esteve bem, quando, sem razões fundadas, acabou com exames, criando provas de aferição, especialmente tendo em conta que o ano lectivo já estava em andamento. Depois disso, hoje, quando faltam quatro meses para o final do ano lectivo, vem dizer que a realização das provas de aferição fica ao critério das escolas, mantendo uma já longa tradição de criar instabilidade, anunciando medidas na véspera. Pelos vistos, Nuno Crato não é o único a não saber o que é o ano lectivo.

Entretanto, continuamos sem discutir verdadeiramente para que servem (ou se servem) os exames, com a direita sem conseguir demonstrar que são bons e com a esquerda incapaz de provar que são maus, uns a impor e outros a tirar, porque sim.

Finalmente, continuarei a aguardar decisões verdadeiramente importantes, como a diminuição do número de alunos por turma (fundamental para a qualidade das aprendizagens), a municipalização, a formação de professores ou a discriminação positiva para abertura de turmas de disciplinas cuja procura seja residual, porque a democracia deveria servir também para defender algumas minorias necessárias, como é o caso dos estudantes de Humanidades e de Artes. Continuo pessimista.

Comments


  1. Excelente resenha histórica e excelente visão do que é necessário fazer.
    Muito obrigado.


  2. Eu não sou professor, sou apenas pai, conhecido como encarregado de educação, e representante de pais na turma do meu filho. Nas reuniões sou o único que faz perguntas incómodas, como quem faz perguntas parvas, do género: e a pedagogia? Ficam todos a olhar para mim, pais incluídos, muito condoídos, achando que sou doido a falar uma língua estranha. Quase todos já interiorizaram a coisa da “cultura da exigência e do esforço” e acham muito natural os exames. Menos do que isso, ficam com medo que os acusem de serem pais negligentes. Por isso, saúdo o testemunho corajoso da professora Anabela Gomes em post anterior.
    O António consegue simultaneamente criticar o Crato e o atual, ou seja, a introdução dos exames e a sua supressão. Como consegue? Eu acho que a solução é simples: Se não resultou, acabe-se com a coisa.
    Os exames são apenas factor adicional de pressão em crianças de tão tenra idade. Se certos pais forem sinceros, podem relatar-lhe aqui casos de filhos seus que dormiam mal por causa dos exames. Não tem que se preocupar, porque a felicidade e bem estar das crianças em meio escolar nunca foi exactamente preocupação de nenhum governo. Nunca por cá se adaptaram os estrangeirismos do Verney, Pistolazzi, Frobel e outros excêntricos. Muito contente ficaria eu apenas com a redução de alunos por turma.
    Será preciso mesmo um longo debate e uma tese de doutoramento para provar que os exames nestas idades são maus? Eu acho até que é intuitivo..

    • António Fernando Nabais says:

      Se leu com atenção, critiquei os argumentos utilizados para defender exames e para suprimir exames. A falta de argumentos fará sempre com que qualquer decisão não esteja devidamente sustentada e provocará sempre instabilidade no sistema: está-se mesmo a ver que os exames reaparecerão e desaparecerão conforme as cores políticas que forem tomando conta dos governos.
      Os exames não são incompatíveis com pedagogia ou com projectos ou com outras actividades.
      Os exames são factor de pressão adicional? Há crianças que dormem mal por causa dos exames? E os testes e outros momentos de avaliação não são factores de pressão? Não tiram o sono? Note que não defendo que a escola deva ter como principal preocupação tornar os alunos infelizes, mas não lhe parece que tomando a felicidade como critério principal se está a abrir uma Caixa de Pandora? Deveremos abolir tudo o que torne os alunos infelizes? Se sim, porque não abolir as aulas?


      • A felicidade não é o critério principal, o critério principal é a boa aprendizagem. Naturalmente, para uns ensinarem e outros aprenderem, é necessário um ambiente agradável e que as crianças tenham prazer em aprender. Felicidade é simplesmente isto, o prazer de aprender, o que, diga-se, dificilmente se consegue sem que do outro lado se tenha prazer em ensinar.

        Eu não me preocupo com o facto de os partidos pensarem de forma diferente e terem opções diferentes nesta matéria. Cada um de nós escolhe as opções que acha melhor. Politica, no sentido mais nobre, é isto. Ficar em cima do muro, a dizer “entendam-se”, não consigo. O António não tem uma opinião sobre isto? Eu sou pela abolição dos exames, concordo com este ministro, e acho até que se está a empolar demasiado uma suposta desestabilização do meio escolar por causa da mudança das regras. Nenhuma criança que entre agora na escola, nem os seus pais, se sentem particularmente angustiados por os anteriores terem tido exames e eles não.

  3. Socorro ! says:

    Cá na Portugalandia façamos o que fizermos nunca está bem…
    Se fazem é porque fazem, se não fazem é porque não fazem.

    Eu fiz prova de exame da 2ª classe e tive 20 valores …há um horrrrrrrrrrror de anos…

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