Transporte de emigrantes portugueses – relato na primeira pessoa

Mini bus

Joel Martins

Introdução: Sou filho de emigrante, e eu próprio já fui emigrante várias vezes, ainda que em curtos espaço de tempo.

Esta introdução serve para atenuar as críticas que se irão seguir pelo que vou escrever.

Há dois motivos muito simples para isto acontecer (o transporte de emigrantes da França e da Suíça para Portugal em mini-bus ou carrinhas ligeiras de transporte de mercadorias adaptadas):
1. A capacidade de carga: o emigrante quando vem de férias traz a mala cheia de chocolates, rebuçados, e um salpicão comprado em Espanha. É certo que se podia comprar isto num qualquer intermarche, mas recordo-me da emoção de ver o que o meu pai trazia no saco quando chegava de férias, por menos que fossem umas botas “made in portugal” compradas em França, true story …..
2. A comodidade: as “carrinhas” apanham os passageiros em casa, e largam-nos em casa, dado que muitos dos nossos emigrantes são de zonas remotas que ficam a centenas de km’s dos aeroportos.

Passo a relatar a minha experiência: nos idos de 2001 quando entrei na universidade, como filho de emigrante sazonal, com rendimentos de aproximadamente 15000€, um agregado familiar de 4 pessoas e 2 casas para sustentar não tive direito a bolsa, ao contrário dos filhos de empreiteiros. Vi-me portanto, na obrigação de aceitar o convite do meu pai e ir trabalhar para França. Como o meu pai não tinha tempo para me ir buscar ao aeroporto, e como o meu francês era inexistente, a solução das carrinhas aparecia como a solução ideal.
O Sr. que me transportou passou em minha casa às 8.30h, já tinha andado a carregar passageiros e mercadoria desde as 6.00h, sendo portanto o único condutor que ia fazer a viagem non stop. Andámos mais uns tempos a carregar pessoal, e recordo-me de parar em Chaves para almoçar. Até aqui tudo muito bonito. Quando se aproximou a noite, comecei a reparar que o motorista conduzia com um olho aberto e outro fechado, até que o passou a fazer com os 2 fechados. Olhei em redor e reparei que os meus companheiros de viagem eram um misto de pessoas muito novas para ter carta e pessoal na idade da pré reforma. Naquele momento, todos dormiam tranquilamente. O meu instinto de sobrevivência, apesar da minha tenra idade e por conseguinte a minha falta de alguma responsabilidade, forçou-me a oferecer os meus serviços como condutor. O condutor numa primeira fase recusou, mas perante a minha insistência, afirmei que já tinha alguma experiência como condutor (com 18 anos??), lá acabou por me deixar conduzir. Ficou um bocado a avaliar a minha condução, e passado um bocado acordou a sobrinha para me fazer companhia, dizendo que ia dormir meia hora para descansar os olhos. O cansaço do homem era tanto, que a meia hora transformou-se em 6 horas de sono profundo, interrompidas apenas quando o acordei às portas de Paris, porque nem eu, nem a sobrinha tínhamos dinheiro para pagar as portagens. Passado pouco tempo, vários emigrantes estavam em casa, com os seus garrafões de vinho e aguardente, numa história que felizmente acabou bem ao contrário das que conheço que terminaram mal.
Quanto a mim, fiquei com uma história para contar aos netos, e com certeza que não voltaria a usar estes transportes, nem eu, nem o meu pai, que proibi entretanto de o fazer.
Estes não são os únicos perigos que os nossos emigrantes enfrentam nas viagens para Portugal. Enfrentam também a estupidez de alguns indivíduos, aspecto negativo generalizado nos nossos emigrantes. São incontáveis os casos de pessoas que fazem jornadas de trabalho de 10, 12, 14 e em alguns casos 16 horas, que depois chegam a casa e de imediato pegam no carro para rumar a Portugal. Esta é uma triste realidade…
Para os emigrantes que possam estar a ler isto, um grande abraço…

Comments

  1. Nascimento says:

    Muitíssimo obrigado.Relatos como o seu são importantíssimos.Um Portugal que muita gente desconhece.Vale mais o seu relato que toda merda jornaleira até hoje rabiscada em jornais.

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