Apontamento sobre o 10 de Junho


marcelo 10 junho 2016

Imagem: Presidência

Desejando ser entendida por quem me lê, começo por declarar que não passo cheques em branco a políticos, sejam eles governantes ou presidentes de República, porque já não tenho idade para acreditar no Pai Natal. Posto isto, vamos ao que me traz.

E o que hoje me traz é dizer que achei uma boa ideia a maneira como, neste ano inquieto de 2016, se celebrou o Dia de Portugal com a parada militar no Terreiro do Paço para depois se brindar à Pátria junto da comunidade portuguesa de França, lado a lado com o presidente do país que acolheu esse mais dum milhão de portugueses. Ambas as cerimónias tiveram grande dignidade e aprumo.

Tanto quanto posso perceber através de jornais que parecem saudosos do anterior governo e ansiosos de derrubar o actual, foram vários os que torceram o nariz à parada militar. É levar muito longe a ingratidão. Se hoje podem manifestar desagrado em voz alta, sem medo de ser preso ou ter de expatriar-se, devem-no aos militares que, em 1974, puseram termo à ditadura. Justamente no Terreiro do Paço, Salgueiro Maia escreveu uma página luminosa para a história. A instituição militar tem defeitos e pecados mas, apesar disso, soube dar a cara quando foi preciso. Pertenço a uma geração que sofreu com a ditadura “coisas que é bom ter pudor de contar seja a quem for”, como diria José Régio, e que já estava repassada de desilusão porque os anos rolavam e os discordantes do regime não passavam de abaixo assinados e tímidas acções que as prisões da Pide se encarregavam de castigar. Digamos que a juventude queria ir para a estalada e a oposição oficial, Partido Comunista incluído, não queria. Não foram poucos aqueles que o PCP repudiou das suas fileiras por terem escolhido a via armada. Isabel do Carmo, Francisco Martins Rodrigues e Rui D´Espiney foram disso bom exemplo. E afinal, sempre foi pelas armas que o regime foi derrubado. Os militares jovens souberam entender isso. Seria pouco inteligente tentar apagar o facto de Portugal ter sido fundado por nobres, soldados e frades, todos eles sequiosos de independência face a Castela. Foi assim pelos séculos fora, apenas devendo haver o maior cuidado em que o país não seja só de nobres, só de soldados, só de frades. O país é do povo que impõe o equilíbrio. Atirar esta realidade borda fora, em nome de radicalismos de direita ou de esquerda, é ingratidão e é de mau gosto.

Em Paris, registei com agrado a decisão presidencial de condecorar quatro emigrantes que, durante o massacre terrorista do Bataclan, albergaram, ajudaram e salvaram centenas de pessoas (tal, como durante a II Guerra Mundial, o cônsul Sousa Mendes salvou a vida de milhares de judeus perseguidos pela perversidade nazi de Hitler, mas esse teve por recompensa ser expulso e espezinhado por Salazar). O Presidente da República já deixou claro que só dará condecorações por actos de bravura e de relevo. Aleluia! Acaba-se com a mais completa bandalheira praticada por políticos que tinham favores a pagar ou, estupidamente, julgaram que certos condecorados nas comunidades de emigrantes eram ouvidos e respeitados pelos seus compatriotas, que assim lhes grangeariam votos. Os números falam por si quanto ao abismo que divide esses condecorados dos outros emigrantes: a abstenção eleitoral é de 90% (e mais) nos círculos fora do país. Bandalheira de tal envergadura que, pelo menos no norte da América, um secretário de estado das Comunidades ficou conhecido pelo Ti Zé das Medalhas. Todos eles, condecoradores e condecorados, levaram ao descrédito das Ordens Honoríficas. E isso é mau e inaceitável. Mas compreende-se que assim tenha sido se tivermos em conta que foi prática de governantes emanados de partidos que, no decorrer dos anos, deixaram de ter senhores ao leme. Passaram a ter maralha da chamada diplomacia económica, gabirús da escola do Tio Patinhas, com um cifrão em cada olho, que fazem dos cargos governamentais rampa de lançamento para o dinheiro rápido no sector privado. Por isso o país chegou ao que chegou. É, portanto, de aplaudir que Belém, em vez de discursos à patada nos que não são do seu partido, como fazia o de Boliqueime, ponha termo ao abuso e à imoralidade.

Portugal precisa de reencontrar-se consigo próprio, nos seus valores mais profundos. Estes pequenos passos são necessários. Que venham mais.

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