O Público caiu na ratoeira dos números


2016-06-21 editorial público

A reportagem do Público sobre a manifestação de apoio à escola pública é um exemplo de jornalismo errado por vários motivos. Alguns já foram apontados aqui no Aventar. Um outro, o facto de os líderes do BE e do PCP não terem estado em palco a discursar, conforme notificado, foi corrigido na reportagem.

Entretanto, a Direcção Editorial do Público fez sair um artigo em defesa da referida reportagem, mas já lá iremos. Primeiro, vamos ver como foi a primeira versão da notícia em causa:

Manifestação pela escola pública começa em Lisboa com poucos milhares de pessoas
Fonte: Público
Autor: Clara Viana
Data: 2016.06.18 15:27
Palavras chave: PS, PCP, Educação, Escolas, Ministério da Educação, Fenprof, Bloco de Esquerda, questões sociais
Marcha foi convocada depois da grande manifestação que juntou 40 mil pessoas em Lisboa contra as alterações ao financiamento das escolas com contrato de associação.

A manifestação deste sábado, promovida pela Federação Nacional de Professores (Fenprof), teve o apoio do PS, PCP e Bloco de Esquerda. A marcha foi convocada no mesmo dia, 29 de Maio, em que os colégios privados conseguiram reunir cerca de 40 mil pessoas em Lisboa em protesto contra a redução do financiamento do Estado aos estabelecimentos com contratos de associação.

Metade dos 79 colégios com estes acordos perdeu o financiamento para abrir novas turmas de início de ciclo por se encontrarem em zonas onde existe oferta pública. Esta decisão do Ministério da Educação foi agora concretizada por via de um novo concurso público. No próximo ano lectivo os contratos com os colégios custarão ao Estado 107 milhões de euros, uma redução de cerca de 30 milhões em comparação com a verba reservada em 2016 para estes estabelecimentos garantirem ensino gratuito aos seus alunos.

Em declarações à Lusa, antes do início da manifestação, o secretário-geral da Fenprof Mário Nogueira sublinhou, no entanto, que esta “não é uma marcha contra ninguém, nem contra o ensino particular e cooperativo”. “É uma marcha da diversidade. Não é uma marcha de uma cor só, é uma marcha de todas as cores, é uma marcha da diversidade e da democracia e, quando assim é, acho que vai ser uma festa em torno da escola pública, que bem merece que as pessoas a saúdem e que a defendam”, disse.

Segundo a organização, há três comboios especiais organizados para trazer manifestantes do Norte do país, e estão programados vários autocarros a partir de todas as capitais de distrito em direcção a Lisboa. No início deste mês, a Fenprof entregou na Assembleia da República uma petição em defesa da escola pública, que foi subscrita por 71 mil pessoas.

“começa em Lisboa com poucos milhares de pessoas”, foi a tónica do artigo, para logo partir para a comparação com outra manifestação. Era esta a notícia a fazer? Partir para a comparação de números?

Leia-se o artigo final e compare-se com esta primeira versão para se perceber que o resultado final não foi a evolução de uma notícia online, que cresce até ficar completa – argumento que vi ser usado para explicar porque razão o título foi mudado. Não foi só o título, foi grande parte do artigo. A primeira versão parece um artigo escrito antes de a reporter lá chegar e que precisou de ser corrigido. Mas, claro, isto é o que parece.

Escreve outra jornalista do Público:

Eu ia escrever um post [no Facebook] a explicar como funcionam as notícias que estão em actualização no site do PÚBLICO, mas a Graça Barbosa Ribeiro escreveu tudo certinho e direitinho.
Só acrescentar que acho inacreditável e que revela muito, mas muito o que é alguma – sublinho: alguma – classe docente deste país: os insultos, a falta de educação, a falta de distanciamento, a ignorânica. Acham sempre que os pais não educam, mas se se dirigem a um adulto da forma como se dirigem à Clara Viana, que não conhecem, temo pelas crianças com quem lidam diariamente. [Bárbara Wong]

Se é para falar de falta de educação, é preciso frisar que vi grande falta de educação nos amarelos, também. Docentes ou não. Pelo que, tenha paciência, não é o ponto em discussão.

Que diz então Graça Barbosa Ribeiro?

Arrepiante, o que vi escrito sobre a Clara Viana, uma das jornalistas mais sérias, rigorosas, isentas e exigentes que conheci e com quem já trabalhei. O ódio com que nas caixas de comentários do PÚBLICO e em posts de manifestantes (ou não) se referem a uma pessoa que não conhecem e a forma agressiva, justiceira e mesmo insultuosa e como põem o seu profissionalismo e a sua pessoa em causa é assustador.
Fiquem a saber aquilo que alguém no jornal devia ter explicado, face à dimensão que a agressão tomou: A Clara Viana fez uma reportagem, esteve na rua do princípio ao fim, e esteve a reportar ( a escrever ou a ditar para quem estava na redacção) o que ia vendo e ouvindo. Ao minuto, ou de meia em meia hora, ou de hora a hora – não sei, não falei com ela.
Quando fez a primeira notícia estaria a ver 2000 pessoas na manifestação em defesa da escola pública. Quando escreveu mais tarde, ou seja, quando “actualizou” a notícia, algo que é indicado pelo próprio jornalista, já seriam milhares.
Acrescente-se a isto que há um bug que faz com que o URL de uma notícia do PÚBLICO se mantenha depois de actualizada. Por causa dele, quando liam “milhares” no título e na notícia, os leitores continuavam a ver no URL os tais 2000.
Ela não “alterou a notícia” em reacção aos comentários de ódio. Actualizou-a de acordo com o que estava a acontecer.
E não adoptou a contagem de manifestantes da polícia (15.000) nem da Fenprof (80.000). Certamente sem meios para fazer uma contagem rigorosa e própria , citou um número e outro e as respectivas fontes.
Não vou qualificar quem despeja ódio nos comentários sem atender às circunstâncias, sem qualquer filtro, alinhando em julgamentos públicos e sumários. Só peço: por favor, contenham-se, procurem perceber o que se passou, peçam explicações, têm direito a isso. Mas não insultem, não destruam.
Sei que por ter trabalhado na secção de Educação do PÚBLICO tenho professores entre os amigos no facebook. E por isso sei que estou a colocar-me a jeito para que me insultem também.
Sinceramente, tenho esperança de que não aconteça.
Entre esses amigos estão pessoas que acompanharam o nosso trabalho – sim, meu também, enquanto fui jornalista, durante anos. Essas pessoas sabem que a Clara Viana é de um profissionalismo irrepreensível. Pessoas como ela – que procuram ser rigorosas, isentas, que verificam mil vezes os dados para não transmitirem informações erradas, que procuram ouvir todas as partes – também se enganam, claro. Mas nem sequer foi o caso. [Graça Barbosa Ribeiro]

Pelo que percebi, esta senhora já não trabalha no Público, pelo que depreendo que são suposições quando escreve:

Fiquem a saber aquilo que alguém no jornal devia ter explicado, face à dimensão que a agressão tomou: A Clara Viana fez uma reportagem, esteve na rua do princípio ao fim, e esteve a reportar ( a escrever ou a ditar para quem estava na redacção) o que ia vendo e ouvindo. Ao minuto, ou de meia em meia hora, ou de hora a hora – não sei, não falei com ela.
Quando fez a primeira notícia estaria a ver 2000 pessoas na manifestação em defesa da escola pública. Quando escreveu mais tarde, ou seja, quando “actualizou” a notícia, algo que é indicado pelo próprio jornalista, já seriam milhares.

Como podemos ver pela notícia original, estamos perante algo mais do que uma actualização. Foi uma notícia completamente diferente.

Mas voltemos ao editorial do Público.

A deputada Canavilhas errou ao dizer o que disse, e não é por ter usado um tweet do Aventar que lhe dou razão. Mas este erro da deputada Canavilhas não é sabão que transforme um mau exemplo de jornalismo numa boa reportagem.

O PÚBLICO citou dois números: o da organização (80 mil) e o da PSP (15 mil). Alguns jornais, é verdade, citaram apenas a Fenprof. Canavilhas terá preferido essas notícias.

Como sabemos, a PSP deixou de fornecer números das manifestações. Mas o artigo fez questão de trazer um número da “PSP”, que era de “um responsável da polícia”. Uma opinião transformada em algo oficial, logo com mais valor. E este argumento da autoridade foi, de facto, usado.

Secretário-geral da Fenprof diz que estiveram mais de 80 mil na rua, mas segundo a PSP participaram na manifestação cerca de 15 mil pessoas.

“(…) mas segundo a PSP”, logo mais correcto, pode-se concluir. No fundo, foi a continuação da tónica inicial, mas já não podia dizer “poucos milhares de pessoas” no título. Eu não sei quantos foram e todos sabemos que a organização de qualquer manifestação alarga sempre os números. A grande questão não colocada que o artigo parece querer responder é se foram ou não mais de 40 mil. E responde de forma objectiva. Foram 15 mil. Palavra de polícia.

Espanta por tudo isto que uma deputada que foi ministra da Cultura caia nesta velha ratoeira. A próxima vez que Canavilhas quiser acusar o PÚBLICO de publicar “factos falsos” deverá fazer melhor o seu trabalho de casa.

A direcção editorial do Público indigna-se por ter sido acusada de ter publicado “factos falsos”. A questão é que publicou. Não se sabe quantas pessoas estiveram na manifestação, mas logo, na primeira versão, a notícia quantifico-os. Dois mil. Depois corrigiu a mão, mas deixando incerteza. Milhares. Por fim, procura lança dúvidas sobre uma das leituras (“mas”).

A reportagem deu corpo a números que não são factos. Emitiu opiniões em diversas passagens. Pelo que, efectivamente, publicou “factos falsos”.

Canavilhas poderá ter caído na ratoeira dos números. Mas antes dela, foi o Público que caiu nessa velha ratoeira. Sem o reconhecer, nem admitir.

Termino com a mesma conclusão do primeiro artigo. Sendo Clara Viana uma autora de muitos artigos sobre educação num jornal de referência e atendendo ao extenso currículo, esperava-se mais atenção a estes detalhes. Até porque herrar é umano.

Adenda
Depois de publicado este post, vi que o Público trouxe esclarecimentos sobre “a polícia”.

As explicações do PÚBLICO
A directora do PÚBLICO, Bárbara Reis, rebate a acusação. “O PÚBLICO não tomou partido sobre a polémica. Tem ouvido todas as partes e abriu as suas páginas ao debate livre sobre o tema”, salienta. Bárbara Reis também explica como foram recolhidos os dados. “No sábado, o PÚBLICO falou com o oficial de dia do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa, Filipe Silva, que nos deu as estimativas da manifestação da Fenprof. Pelo menos mais dois jornais, o Jornal de Notícias e o Observador, contactaram a PSP e publicaram números semelhantes. Do mesmo modo que, no dia seguinte, o PÚBLICO falou com o subcomissário Hélder Andrade, do Comando Metropolitano da PSP do Porto, responsável pela preparação e acompanhamento da manifestação do movimento Defesa da Escola Ponto. Foram estes dois membros da PSP que forneceram os dados que publicámos: 15 mil (Lisboa) e ‘menos de sete mil’ (Porto)”, esclarece.

A Fenprof critica ainda o jornal por ter referido que a manifestação começou com duas mil pessoas, “número inferior a quantos viajaram só nos comboios que partiram do Norte”. Ainda no âmbito da manifestação de sábado, a federação volta a lamentar a referência no artigo à presença de Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, e Jerónimo de Sousa, do PCP, no palco ao lado de Mário Nogueira. Quanto a esse “erro”, Bárbara Reis sublinha que “foi identificado e corrigido”.

Além de acusar o PÚBLICO de não ter sido “neutro” no que “concerne ao debate sobre a escola pública e os contratos de associação com privados”, a Fenprof considera que o jornal usou “dois pesos e duas medidas” por, no mesmo artigo, se ter referido “a duas manifestações: a da escola pública, pondo em causa a informação divulgada pelos promotores”, e a “dos colégios privados, dando como certa a informação dos promotores”. [Público]

Confirma-se, o Público caiu na velha rasteira dos números. E não se livra da dualidade de critérios.
Então é oficial, a PSP volta a dar números das manifestações? Vamos esperar pelo esclarecimento.

Comments

  1. adeus passos says:

    o público mentiu, neste caso, e mentiu várias vezes. mentiu, distorceu, enganou DELIBERADAMENTE os leitores, influenciando as massas. usou o tribunal de contas, distorcendo. ate colocam no palanque pessoas que nao estavam la.

    seria mais que motivo para a direcção do publico se demitir. mas nao. provaram que afinal sao apenas mais um conjunto de mandaretes dos mesmos interesses de sempre. e eu que pensava que eram uma especie de ultimo reduto… estava bem enganado.

  2. anónimo says:

    O Publico não é publico, é privado.
    O Publico mente deliberadamente, para enganar os leitores.
    O Publico não faz jornalismo, faz propaganda.
    Comprar o Publico é dar dinheiro aos gatunos.

    • anónimo says:

      O investimento que as empresas fazem com a publicidade/propaganda é pago pelo consumidor, quando compra o produto.
      A extrema direita investiu e tomou posse de toda a comunicação social. O 4º poder é hoje o seu lacaio.
      A propaganda da extrema direita está a ser paga pelo país, com juros catastróficos.
      Qualquer um é livre de comprar a propaganda do Publico.
      O crime, é a conivência e a omissão da Alta Autoridade e do Sindicato.
      O crime, é as televisões públicas estarem reféns da mesma canalha.

  3. Atenção: jamais, em tempo algum, se pode pôr em causa o trabalho dos jornalistas, e muito menos exigir a sua demissão. Políticos, gestores públicos e privados, juízes, treinadores de futebol, padres e bispos, e por aí fora, esses sim, podem ser questionados à vontade. Os jornalistas, nem pensar, que eles são os novos protegidos do ancestral “respeitinho”.

  4. Ana A. says:

    Resumindo e concluindo: a quantidade de pessoas na rua vai ser, doravante, o peso e a medida para aferir da justeza das medidas dos governantes! Logo, se estiveram 40 mil dos amarelos ganham contra os 15 mil multicores… É isso?!

    Quanto às “vozes dos donos”, acho que não é por acaso que a venda dos jornais está em queda livre!

  5. adeus passos says:

    quando são manifestações dos amarelos ou de qualquer coisa do lado dos privados, da casta e do 1%, o publico dá o nº fornecido pela organização. quando é uma manifestação de apoio a qualquer coisa pública e contra os interesses obscuros de certos grupos, o público dá o nº que lhe apetece, ou um da psp, ou um da psp inventado.

    quanto a canavilhas, embora tenha estado muito mal, a frase não contém nenhuma exigencia ou pedido de despedimento. lamento, mas não contém.

    mas se calhar culpar a jornalista é simplista. há trabalho “””editorial””” feito sobre o trabalho dos jornalistas, hoje meros colaboradores precários pagos miseravelmente.

  6. Paulo says:

    Continuo sem perceber Clara Viana esteve a “reportar hora a hora”: Sempre presente…certo? Então como viu Catarina Martins e Jerónimo de Sousa no palco- Saiu para ir ao quarto de banho e alguém lhe disse posteriormente? Terá bebido umas cervejas e ficou com visões? Pois erros são coisas que acontecem a qualquer um não é?

  7. MJoão says:

    Não há justificação possível para uma notícia tão tendenciosa. Depois, acabei de reler os comentários à mesma, na diagonal é verdade, mas,ou estou muito insensível ou cegueta, não encontrei os tais comentários a que B. Wong alude, “os insultos, a falta de educação, a falta de distanciamento, a ignorância.” , parece-me que esta frase se aplica, bem mais, à própria notícia.

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