Ouvintes gajos


ouvinte_radio

© John Frost and daughter listening to radio in their home.

Marco Faria

Hoje, ouvi na rádio três vezes a palavra “gajo”. Em rigor, numa das situações foi proferido o plural – “gajos” – o que acentua ainda mais a minha preocupação. É verdade que a estação em causa dirige-se a um público muito jovem, estilo Porta 65 Jovem. Não quero divulgar o nome da emissora, mas vou dar uma pista enigmática: começa com um “V” e termina em “fone” (podendo sublinhar que na parte inicial está o termo de uma bebida muito apreciada pelos eslavos, vod(k)a). Como todas, é .FM, porque em AM só a Renascença, a Antena 1 e os “Mujahidin” escondidos no Monte Atlas no norte de África.
O calão é sim sinal, e eu não vou de forma alguma armar-me em moralista dos bons costumes e ler os códigos do tempo.
No dia-a-dia, todos recorremos às mesmas expressões. Com excepções. Em Cascais, por exemplo, não se diz “gaja”, mas, deixem-me pensar cinco segundos… pindérica. “Ó sua pindérica, não te vi no Tamariz. O teu namorado estava lá com a Cacá”.
Pindérica é mais poético que “lady”, menos valorizado que outras variantes de tocar piano e falar francês. Por sua vez, no Porto, no mercado do Bolhão, qualquer conversa resvala para: “- Ó jeitosa, eu sei que ontem foste à Badalhoca comer uma sandes de presunto?” “- Estás por acaso a chamar-me nomes? Sabes, vi uma saia de folhos igual à tua na feira de Custóias?”
Juro que não sabia que havia uma feira semanal numa terra que é conhecida por motivos humanitários (tem supostamente uma rotunda, tal como todas as localidades, e um pátio onde se juntam muitos indivíduos de barba farta que roubaram ourivesarias na noite de Natal, mais ou menos 6000 euros em Swatch, mas nenhum aldrabão bancário de gestão ruinosa e golpes de milhões).
Claro que nós sabemos que “gajo” é linguagem coloquial, apontamento facilmente desbloqueador de uma conversa superficial ou filosófica (ambas da treta, portanto). Em Lagos, podemos encontrar alguém a dizer “She’s so cute”. Mas ia sempre soar mal, pessimamente, e além disso o piropo está criminalizado a sul do Sado (resta saber, se quando proferido em inglês o piropo dá direito a pena suspensa ou constitui atenuante). Camões não ia gostar. Bocage ficaria ofendido. Bocage era mesmo um gajo porreiro.
O mais intrigante é que sempre nos mentiram que nunca nos devemos meter o bedelho. “Ah, isto é assunto só de gajas.” E toca a enfiar o rabinho entre as pernas. Não é nada connosco. Zarpa. Vai ler as crónicas do Pacheco Pereira.
Ainda pondero se devo ligar à estação de rádio, ou à empresa de telecomunicações, e quando me perguntarem “- Com quem tenho o prazer de estar a falar…”, penso em responder: “- É o gajo, perdão o ouvinte, o tipo, o fulano, a pessoa que ouve a vossa rádio.”
Não condeno quando recorrem a expressões do género “gajo” (aliás, foi o convidado e não o animador quem a proferiu). Todos nós sabemos a diferença entre gajo e cavalheiro (é mesmo acontece entre banqueiro e bancário, como diria a Zeinal Bava de saias do BE, Mariana Mortágua, que por estes dias, nem o Twitter a safa). É sem dúvida mais fácil aprendermos a acumular calão do que acumular capital (riqueza, poupança,…).
Resumindo: da próxima vez que escutar gíria na rádio fique alarmado. Opte pelas noites da madrugada da TVI com concursos viciados. Se se sentir ofendido(a) pela etiqueta, escreva ao António Guterres, que ele vai ter tempo para tratar por tu meia Assembleia-Geral da ONU e, talvez, arranje tempo para tratar dos assuntos sérios da humanidade. A palavra “gajo” não é um choque, é o chique da realidade.

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