Fraudes académicas e outros embustes

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No espaço de poucos dias, surgiram dois novos casos de fraude académica, um clássico da vida política nacional. Primeiro foi Rui Roque, adjunto de António Costa, que apesar de não ter concluído o curso na FCTUC, não se alarmou ao ver uma nota curricular fraudulenta ser publicada no Diário da República. A cereja no topo do bolo foram as declarações prestadas ao Observador:

Os dados constantes na minha nota curricular de nomeação baseiam-se nas informações prestadas pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra datadas de outubro de 2009. Quando confrontado pelas vossas questões, eu próprio solicitei mais esclarecimentos da mesma instituição. Como ainda não obtive resposta, nada mais tenho a acrescentar.

Como diria Ricardo Araújo Pereira, isto é “mangar com a tropa”. Mas, honra lhe seja feita, teve a dignidade de apresentar a sua demissão, poucas horas após ter sido revelado o embuste. Miguel Relvas não teria feito melhor.  [Read more…]

Educação, o parente pobre do regime

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Está em curso uma guerra de números que diz respeito ao valor alocado pelo OE17 à Educação. O governo afirma que a rúbrica sai reforçada com 180 milhões de euros, a oposição contrapõe argumentando que será aplicado um corte próximo dos 170 milhões de euros. Aparentemente, ambos os lados têm razão. O governo tem razão porque, face ao valor inicial apresentado no OE16, existe um aumento da verba disponível. Por seu lado, a oposição tem também razão porque, face ao total que se prevê gastar em 2016 – houve um aumento do investimento na Educação de 348,9 milhões de euros ao longo do ano, face ao inicialmente previsto – haverá, um decréscimo no investimento. Contudo, existe uma lacuna na argumentação da oposição, na medida em que, tal como aconteceu este ano, em 2017 poder-se-á verificar um novo aumento da verba gasta. [Read more…]

Passos Coelho VS Passos Coelho

O país está ou não está a crescer, senhor deputado? Decida-se. Não faça é a mesma figura que fez a propósito da solução encontrada para o Banif, do aumento dos impostos sobre o consumo, do levantamento do sigilo bancário ou da taxação do património. É certo que a malta precisa de se rir, mas isto começa a ser constrangedor e Portugal precisa de uma oposição coerente e responsável. Debater o país não é a mesma coisa que brincar aos jotas. Quando é que começa a levar o país a sério?

Vídeo: Luís Vargas@Geringonça

Doutores e Xamãs

Ilustração: "Figura com Céu", Bruno Santos.

Ilustração: Bruno Santos

 

A titularidade de um grau académico representa, em síntese, a indicação da posse de um segredo. Quanto mais elevado for o grau académico, mais profundo e valioso esse putativo segredo será.
Quando se ostenta a posse, real ou simplesmente convencionada, de um segredo, ou seja, de um poder, pretende-se suscitar, nos outros, dois sentimentos: temor e reverência.
Temor porque nunca sabemos se o segredo que o outro possui lhe confere o poder de nos punir ou, pelo contrário, de nos privilegiar. Reverência porque, na dúvida, preferimos não provocar a sua ira, não vá ele fazer uso desse poder no sentido que nos for mais prejudicial.

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Tirar um curso

Portugal ainda é, em grande parte, Coimbra e o resto é paisagem. Bastava alguém envergar uma capa e uma batina para passar a ser doutor. Uma pessoa podia andar matriculada anos a não estudar e isso seria suficiente para se ser doutor. Ainda assim, nesses tempos, a expressão “tirar um curso” significava ‘concluir uma licenciatura’.

A licenciatura é, ainda hoje, meio caminho para um orgasmo. Há pessoas que perdem força nas pernas e reviram os olhos, sempre que ouvem o nome antecedido de um “doutor”. Não me espantaria que existisse uma tara sexual qualquer que consistisse em alcançar o clímax por ouvir menções a títulos académicos. Aposto, até, que, nos prostíbulos, haverá quem o exija, do mesmo modo que há quem goste de ser insultado ou agredido fisicamente (conta-se mesmo que, no auge, mais de um cliente terá gritado eferreá em vez de chamar por algum ser superior).

E é natural que uma pessoa, de tanto pagar para ouvir, até possa convencer-se de que entrou numa casa para obter favores, sexuais ou outros, e tenha saído de lá licenciado. Ora, se há casas que são conhecidas pelo pagamento de favores, sexuais e outros, são as sedes e as delegações dos partidos políticos. [Read more…]

Contacto ou contato?

Carla Moreira*

No início do ano lectivo, propus às minhas alunas de Latim a elaboração de pequenos vídeos sobre dúvidas linguísticas, ao jeito da rubrica da RTP ‘Em bom português’, de que certamente todos estão lembrados. Elas são apenas três, mas são bastante dinâmicas e alinharam. Os vídeos são gravados com telemóvel, numa sala de aula com poucas condições acústicas, as alunas têm 16 anos de idade e alguns problemas ao nível da dicção. A qualidade dos vídeos, sobretudo ao nível do som, é, portanto, muito amadora, mas o objectivo era apenas partilhá-los na página de Facebook da escola. Nunca pensámos que saltassem do mural da escola para outros murais. Mas foi exactamente isso que aconteceu com o vídeo ‘Contacto’, graças à divulgação feita pela professora Maria do Carmo Vieira. [Read more…]

Lettres de Paris #6

‘How would you like to die and in what form would you chosen to come back?’

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é a questão final do chamado Proust Questionnaire que hoje me entretive a ler e a fazer na Shakespeare an Company, no café, não na livraria, quando fui lá almoçar um sumo de laranja e um bagel de salmão. A resposta a esta pergunta é simples, gostava de morrer de repente, sem sentir, nem sofrer senão o minuto antes da hora da morte e gostava de regressar como Parisiense. Humana e parisiense. E, mesmo sendo pormenores, com melhores pernas e bastante mais dinheiro.
 
Bem sei que ainda há menos de dois meses declarei que queria ser nova iorquina, mais exatamente west villager, e ter uma pequena livraria. Mas acontece que me adapto facilmente aos lugares (bastante mais que às pessoas e que às situações inesperadas), sobretudo quando os lugares são assim. Cinematográficos, e também por isso familiares. Portanto, como já disse tantas vezes e em tantos contextos, eu poderia ser bem de qualquer parte, ou de quase toda a parte. Basta um pouco de reconhecimento, familiariedade e cinema. Voilá.
 

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Da responsabilidade financeira reintegratória

Na sequência de notícias vindas a público dando conta de que o Governo teria incluido no Orçamento de 2017 uma norma que desresponsabilizava os autarcas por “dinheiro mal gasto em que tenham tido pareceres favoráveis dos serviços da autarquia”, o Ministro Adjunto emitiu ontem um comunicado no qual esclarece que “A proposta de Orçamento do Estado para 2017 equipara os autarcas aos restantes titulares de cargos políticos designadamente aos membros do Governo. São assim responsáveis civil, financeira e criminalmente pelos atos praticados bem como no julgamento da conta da autarquia”.

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Uma pergunta certeira

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“Estes acordos fazem escolhas. Não servem apenas para abrir as fronteiras. Servem para as abrir garantido total proteção a quem investe e nenhuma a todos nós. Na globalização somos todos atirados para alto mar. O que estes acordos fazem é distribuir coletes salva-vidas a meia dúzia, garantindo que a democracia nunca interfere nos seus negócios. O que faz é pôr na lei a lei do mais forte, anulando a função moderadora da democracia. O que faz é proteger uns dos imprevistos enquanto deixa a larga maioria entregue a si mesma.” 

Isto sim, é uma óptima e tão necessária análise, num país em que apenas uma minoria ouviu falar do CETA e suas consequências. A premissa de que temos de ser nós cidadãos a pagar pelas perdas reais ou futuras dos investidores é delatora da verdadeira finalidade destes acordos. Canadá e os membros da UE são estados de direito, não necessitam de tribunais arbitrais; e, on top, somos nós que vamos ter que pagar a instalação do próprio mecanismo de protecção aos investidores. É tudo tão óbvio. Mas, com o xarope do suposto emprego e um ridículo aumento de PIB, a maioria das pessoas engole toda esta mentira.

 

“Em todas as ruas te encontro” #2 (Cesariny)

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Manifestação Anti-Troika. Porto, 2 de Março de 2013. © Bruno Santos

Shame on you!

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Foto: Reuters

Como se fosse mais um sinal de mau presságio, o avião de Trudeau teve uma avaria técnica pouco depois da partida e foi obrigado a regressar a Otava ao fim de 30 minutos. Já antes da partida tinha havido um atraso de 90 minutos.

Mas, entretanto, chegou e já assinou e já posaram para a posteridade os desavergonhados agentes do capital, por via do CETA.assinatura1

Lá fora, 250 manifestantes protestavam em nome dos muitos milhões que dizem: “Em nosso nome, NÃO!”. 16 manifestantes foram presos por tentarem passar as barreiras de segurança.

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Foto: AFP

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Mas, como se sabe, a culpa é sempre nossa

«Um economista canadiano, doutorado pela Universidade de Harvard e autor influente de um blogue associado ao jornal “The New York Times”, acaba de ser acusado de um crime de manipulação de mercado sobre títulos da dívida soberana portuguesa.» [JN]

As duas realidades em que vivemos são ambas alternativas à realidade

Rui Naldinho
Pedro MagalhãesPedro Magalhães

Pedro Magalhães, sociólogo e professor universitário, mais conhecido dos telespectadores pelas noites eleitorais na RTP, com as sondagens da Universidade Católica, onde na altura trabalhava como investigador, deu uma entrevista ao DN, este sábado.

A entrevista é extensa, aborda o comportamento do eleitorado em geral e, do cidadão português em particular, o extremismo de direita na Europa e as eleições americanas.

Não concordando com tudo o que ele diz e, com uma parte da narrativa que ele constrói na sua análise, ele afirma no entanto coisas que nos fazem meditar, nomeadamente, por que razão as redes sociais serão no futuro recente, o mais importante veículo de captação de eleitores. [Read more…]

Lettres de Paris #5

La sociologie est un sport de combat*,

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estava escrito no chão mesmo em frente ao Collège de France, na Rue des Écoles. Ontem também passei lá mas não ia, talvez, de olhos no chão. Vi isto ao fim da tarde, quando regressava do Ladyss, onde não estava praticamente ninguém. Conheço muita gente que trabalha em casa. Eu não sou exatamente uma dessas pessoas. Quer dizer, corrijo testes, leio artigos e teses, mas escrever não consigo a partir de casa. Escrever com alguma substância, quero dizer. Desde pequena sempre separei um pouco o trabalho da casa. A casa é sobretudo para descansar e para realizar tarefas menos pesadas. Estudar e trabalhar a sério é uma coisa que sempre fiz fora de casa. Os meus colegas não parecem pensar o mesmo, de maneira, que tive o Ladyss praticamente por minha conta. Minha e do porteiro que fala muito depressa, mas hoje me disse que ia começar a falar comigo ‘plus doucement’. Agradeci-lhe. Fala depressa e para dentro e odeia aparentemente o trabalho que tem. Pelo menos queixa-se muito. Talvez gostasse de ir trabalhar para casa também.

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O fim da Geringonça

O fim político de Passos Coelho aconteceu no dia em que foi criada a Geringonça. Mas o início da Geringonça marca igualmente o começo do seu fim. É da natureza das coisas.
É essa a missão do próximo líder do PSD: acabar com as veleidades da Esquerda.

“Em todas as ruas te encontro” (Cesariny)

Manifestação Anti-Troika. Porto, 2 de Março de 2013. © Bruno Santos
Manifestação Anti-Troika. Porto, 2 de Março de 2013. © Bruno Santos

Missão cumprida, cidadãos vendidos!

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Quando, amanhã, o CETA for assinado, não foi Bruxelas que nos vendeu ao capital internacional; foi cada um dos nossos eleitos governos, cada um deles podia ter dito NÃO, e tudo pararia.

E o champagne rolará nas altas esferas.

“É pena que a UE não exerça uma pressão igualmente intensa sobre aqueles que bloqueiam a luta contra a fraude fiscal” – Paul Magnette, 23.10.16

Mais um embaraço na CGD

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A fonte citada pelo Expresso é o Correio da Manhã, pelo que todo o cuidado é pouco. Porém, a confirmar-se, este dado leva toda a situação em torno da polémica contratação de António Domingues para outro nível. Como pode um gestor de um banco privado encomendar um estudo através de um banco público com o qual não tem qualquer vínculo? Se o estudo foi encomendado em Fevereiro, e Domingues só renunciou ao cargo no BPI em Junho, como se justifica que tenha imputado um custo de 3 milhões de euros ao Estado português?

Foto: José Caria@Expresso

Como se faz para a Galp pagar o calote?

Lisboa, 19/11/2014 - Esta tarde a Autoridade Tributária realizou buscas nas instalações da Galp, nas Laranjeiras em Lisboa. (Filipe Amorim / Global Imagens)

Diz a notícia que a Galp “voltará” a não pagar a Contribuição Extraordinária sobre o Sector Energético (CESE) em 2017. Quer isto dizer que, não só se recusa a cumprir com as suas obrigações fiscais deste ano, como no próximo não tenciona igualmente cumpri-las. Não sei se alguma vez a pagou, ou sequer se paga todos os impostos que são devidos, mas fico com vontade de embarcar nesta onda de desobediência civil e não pagar os meus também. Claro que, sendo eu um mero plebeu, não tenho como me esquivar. Aos plebeus, é sabido, retem-se na fonte. [Read more…]

Prémio de consolação

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Kristalina cumpriu os serviços mínimos. Convocada tarde e a más horas, foi a candidata possível para a derrota quase certa, perante um Guterres que acumulava vitórias e reunia consenso. Nem a aliança germano-soviética, perdão, germanorussa, soviéticos são os governos português, grego, o Corbyn, o Renzi e o Iglésias, deu conta do recado. A búlgara foi à luta, com a bênção do PPE, apesar do aparente espanto e indignação dos seus representantes locais, mas saiu pela porta pequena, apenas para dar de caras com os portões do Banco Mundial, onde será directora executiva. Já vi prémios de consolação piores. Até a senhora ficou boquiaberta.

 

Lettres de Paris #4

Hollande: peut-il y aller? Ou la ‘jungle’ à Paris

Vejo na televisão (que só tem canais em francês) que se as eleições presidenciais em França fossem hoje, Marine Le Pen teria 28% dos votos. Alain Juppé a mesma percentagem. Aflige-me que Le Pen esteja em primeiro nas intenções de voto. Como me aflige, malgré tout, que apenas 9% dos franceses declarem que votariam em Hollande. Não é que tenha especial simpatia por ele, mas tenho seguramente menos por Le Pen e por Juppé. De facto anunciam agora mesmo na tv, enquanto em rodapé passa a notícia de um novo desmantelamento da ‘jungle’ de Calais*, a insatisfação dos franceses com Hollande. Não é à toa que a direita sobe nas intenções de voto, quando na televisão, nos canais de notícias, aparecem constantemente as imagens da dita ‘jungle’. Aliás, só o nome é já todo um programa ideológico.
Em Paris há muitos sem-abrigo e pedintes. Hoje, por exemplo, vi um homem deitado ao comprido no cruzamento da Rue Danton com o Boulevard Saint-Germain. Ali, estendido, descalço, enquanto à sua volta a cidade se movimentava indiferente. Olhei para o homem e baixei-me, mas parecia estar a dormir, talvez bêbedo, talvez apenas cansado da selva que podem ser as cidades. Sendo que Paris, apesar de toda a sua beleza, não é uma exceção. À saída do supermercado, um homem disse ‘Madame, vous n’avez pas un euro?’. Não lhe dei o euro, mas agora penso que talvez devesse ter-lho dado. Afinal o que é um euro, numa cidade onde um café, de qualidade muito duvidosa, custa, no mínimo, 2,5 euros ou uma água de 50 cl custa mais de 4? Não lhe dei o euro porque vinha carregada de sacos de compras, que com dificuldade transportei até casa. Podia ter-lhe dado uma maçã, mas talvez a não quisesse.

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O partido do Uber

O CDS pede a demissão do Ministro da Educação.

Não especifica, contudo, se a demissão que pede é de natureza irrevogável, pelo que é avisado aguardar por ulterior disparate.

A desinformação, o esquecimento e a mentira

É sempre bonito vê-los meter os pés pelas mãos. De há uns tempos para, cá não tem dado para mais. Resta-nos rir.

Vídeo: Luís Vargas@Geringonça

A Caixa

O Presidente Executivo da Caixa Geral de Depósitos terá solicitado, aos serviços jurídicos do próprio banco que dirige, um parecer sobre a obrigatoriedade da declaração dos seus rendimentos ao Tribunal Constitucional.

O parecer dos serviços do banco terá sido no sentido de eximir o seu presidente dessa declaração, argumento que o próprio terá usado para o não fazer.

Parece existir aqui não só uma dupla opacidade – um parecer solicitado a serviços subordinados e a consequente recusa da apresentação dos rendimentos – mas um padrão de comportamento totalmente incompatível com os deveres de transparência a que deve estar obrigado um alto responsável da administração do Estado Português.

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Concurso dos blogues

O autoproclamado Estado Sentido abandonou o Concurso de Blogues da TVI, em devido tempo, pelo facto de ter sido nomeado para a fase final um site chamado Poupadinhos.
E afinal, depois de tudo ter acabado, foi a melhor decisão. E por isso mesmo são eles, pelo menos para mim, os grandes vencedores desta espécie de concurso.

Acabou

Antes de terminar o concurso escrevemos o que tínhamos a dizer sobre o Prémio Blogs do Ano. Obrigado aos que apoiaram o Aventar e parabéns aos vencedores.

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Gala Blogs do Ano

Deputado do PSD, autor do artigo sobre a “peste grisalha”, vai receber 3 mil euros de septuagenário que lhe respondeu à letra

Em 2013, num artigo de opinião publicado no jornal i, referindo-se ao aumento da população idosa, Carlos Peixoto, deputado pelo PSD,  afirmou que “a nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha“.

Apesar não se ter poupado ao insulto óbvio a todos os visados, o deputado Peixoto sentiu-se insultado pela devolução do trato que António Figueiredo e Silva lhe deu num artigo publicado no seu blog e em carta enviada à Assembleia da República.  Com efeito, Carlos Peixoto processou o septuagenário António Figueiredo e Silva, tendo este sido condenado por crime de difamação.

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Carlos Peixoto

O deputado Peixoto irá receber três mil euros de indemnização, em vez dos  dez mil cento e dois euros que havia pedido ( €10.000,00 a título de danos não patrimoniais e €102,00 por danos patrimoniais).

As diferenças entre acusado e acusador são abissais. O primeiro vive de uma parca reforma e tem que ter cuidado com o que diz. O segundo aufere bom salário, complementado com ajudas de custo, e pode livremente lançar adjectivação sobre terceiros. O juiz do Tribunal de Gouveia decidiu, o Tribunal da Relação de Coimbra (TRC) confirmou a decisão e você pode fazer o seu próprio juízo nos textos que se seguem (a carta em causa, a decisão do TRC e o artigo do deputado).

Nota: cuidado com o uso de literatura ao responder aos deputadospeixotos deste mundo. A citação de Oscar Wilde parece ser um elemento central na acusação.

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Lettres de Paris #3

Le monde est tout petit

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Esta é uma carta curta, como ontem prometi que vão ser a maior parte das cartas de Paris. Fui hoje ao centro de investigação onde terei um lugar e uma secretária. A minha colega trabalha sobretudo a partir de casa, como a maior parte dos outros colegas, mas eu creio que preferirei trabalhar lá, mesmo porque a minha ligação vpn à universidade de Aveiro não quer funcionar no meu computador e, bem, a partir de lá tudo será – espero – mais fácil. Digo espero porque hoje apenas reuni com a Aline. Ideias há bastantes, não sei se haverá tempo para as concretizar. Mais tempo dela, quero dizer, que anda muito atarefada com o trabalho de campo.
Fui, então, à hora combinada à Rue Vallete. Fui devagar, chovia, eu tinha tempo. Parei no café ao fundo da rua – Le Metro – e comi un croque madame. Depois subi a rue des Carmes e a seguir, já na Rue Valette entrei no LADYSS. As pessoas parecem-me todas simpáticas. Parece-me que apreciam igualmente o meu esforço para falar francês, mesmo se falo com imensos erros, sobretudo dos tempos verbais. Acho que acabarei por melhorar isso. A reunião com a Aline foi toda em francês, mesmo porque ela deixou bem claro, desde o início que se recusava a submeter-se à ditadura do inglês. De facto, publica – como atualmente a maioria dos franceses – sobretudo em francês. Podia ter começado um debate com ela sobre a importância de haver uma língua comum, na qual possamos entender-nos, mas depressa compreendi que não valia a pena.

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João Lobo Antunes

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© Pedro Cunha/Público

Luís Novais

Tinha consultório numa clínica privada de Lisboa. Um dia apareci-lhe lá, com o meu filho de 7 anos por uma mão e umas placas na outra. Viu-as e confirmou que sim, que tinha de ser operado. E disse que o operava, “mas não aqui na clínica, no Santa Maria”. Desde esse dia que entendi o significado deste título: “O neurocirurgião da tradição humanista”. Obrigado e bom descanso, somos dos que não o esqueceremos.

Nos 160 Anos do Caminho de Ferro em Portugal

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“Perto do meio dia chegaram SS.MM. em pequeno estado, e tendo-se procedido às bençãos das locomotivas, que foram feitas pelo cardeal patriarcha, e a todo o mais cerimonial, como se determinava no programa, e de que já aí haverá conhecimento, partiu para o Carregado o comboyo real puxado pelas locomotivas Coimbra e Santarém” (…) – 28 de Outubro de 1856.

A Terra revolveu já o Sol 160 vezes desde a primeira viagem de comboio em Portugal.
Era Terça-feira e principiava uma nova forma de viação, para já até ao Carregado; depois, sobretudo enquanto durasse monarquia, e sobretudo até 1949, o comboio haveria também de chegar a Monção (não chegou a Melgaço), a Braga (não chegou ao Gerês), à Póvoa de Varzim (e dali não mais para Norte), a Fafe (não continuaria até Chaves), ao Arco de Baúlhe (40 anos depois de derivar da Linha do Douro), a Chaves (não chegaria à fronteira), a Bragança (também não chegaria à fronteira), a Duas Igrejas (não chegaria, afinal, a Miranda do Douro), a Barca d’Alva (por onde passaram muitos comboios para Madrid e outras partes do mundo). Chegaria também à Régua mas, para sul, não subiria nunca a Lamego ou a Viseu (a Viseu chegaria desde Santa Comba-Dão ou Espinho e Aveiro). Nem do Pocinho subiria, afinal, a Foz-Côa ou Vila Franca das Naves.
Da Figueira da Foz chegaria à Guarda-Gare e Vilar Formoso (um povoado insignificante à época). Chegou à Lousã e a Serpins (Arganil é que não). Chegou a Tomar, não chegou a Seia. Chegou a Sintra e a Cascais (até criou “a linha”).
Chegou à Beirã, a quilómetros escassos de Marvão. A Elvas e a Badajoz.
A Beja, a Évora, a Moura, a Mora (e dali não chegou ao Ribatejo), a Reguengos de Monsaraz, a Vila Viçosa desde Estremoz. À Funcheira. A Alvalade do Sado e Sines, Aljustrel, a Faro, à foz do Guadiana em Vila Real de Santo António, a Lagos, depois de passar também na Baixa da Banheira, Valdera, Grândola e Canal Caveira.

E em 1875 chegou a Nine, no caminho para Braga. Em Couto de Cambeses começaria a parar lá por volta de 1915, dizia o meu avô materno cujo pai fora contemporâneo da chegada da “máquina preta” que, dizia o povo, “matava o povo até certa distância“.
Entre Nine e Couto de Cambeses havia raposas que atravessavam a linha, lembro-me eu.
Havia também a casa dos avós paternos. Era tudo junto à linha.

Meu pai surge naquela fotografia que um japonês captou na Avenida da França (no Porto) em 1975, no ano em que o meu pai entrou para a CP, e 100 anos depois de o comboio começar a circular a norte do rio Douro. Seria assim nos próximos 35 anos, o meu pai em cima dos carris, ele e muitas pessoas.
Também por isto, o 28 de Outubro deveria ser o Dia do Ferroviário e do Caminho de Ferro.
Obrigado.