Cosmos

Certa amiga contava-me, não vai há muito, as suas desventuras numa repartição do Registo Automóvel, para onde partiu, manhã cedo, logo depois do beijo de despedida aos filhos, à porta da escola, sem certezas quanto ao seu retorno. Levou para fazer-lhe companhia na espera o Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac. Passou boa parte do dia a lê-lo, mal sentada num dos bancos de plástico da repartição, e, quanto mais lia, mais se lhe afirmava irrefutável a ideia de que há dois tipos de vida: aquele, na estrada, livre, improvisado, sem regras; e o seu, que impõe a actualização de livretes e a apresentação de actas, certidões, registos vários.

Concordei com ela. E contei-lhe que passo com frequência por uma livraria especializada em economia, finanças, contabilidade e quejandos, e que por vezes me detenho frente à montra, sempre com o mesmo espanto. Enquanto a sonda Huygens da missão Cassini envia as primeiras imagens de Saturno, e o Curiosity anda aos tropeços por Marte, e se decifram os primeiros mistérios do cosmos, e se reconhece a espantosa contracção do espaço onde existe matéria, aqui, no planeta Terra, há quem se dedique a escrever (e quem o compre) o Boletim do Contribuinte. [Read more…]

A retenção do título, a repercussão e a comunicação do fato

Is there no standard anymore?

— Darrell, Paul, Anselmo & Brown, “Walk

Les résonances se dispersent sur les différents plans de notre vie dans le monde, le retentissement nous appelle à un approfondissement de notre propre existence.

— Gaston Bachelard, “La poétique de l’espace

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Fonte: Huffington Post UK (http://huff.to/2cxBstp)

Ao contrário daquilo que acontece na Psicanálise, com a imagem a ser estudada em função das suas origens, a imagem fenomenológica é analisada em função dos efeitos produzidos. Lembrei-me disto, a propósito do Diário da República de hoje, no qual encontrei «reter o título», pouco depois de o «le retentissement nous appelle à un approfondissement de notre propre existence», de Bachelard, ter reaparecido nuns papéis que ando a arrumar. Sendo verdade que esta retenção nada tem a ver com a repercussão (retentissement → retentir = re- + tentir) de Bachelard, também é verdade que na ressonância ouvimos um poema, mas na repercussão esse poema é nosso. Diz Bachelard.

Quanto ao sítio do costume, como podemos verificar, não há novidades.

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A devassa da vida alheia

Rui Naldinho

José António Saraiva resolveu escrever um livro acerca das supostas confidências que teve como jornalista com diversos políticos. Sendo algo que roça o mau gosto, porque revela conversas privadas, as quais nunca se tornariam públicas por autorização dos visados, mostra as suas fragilidades comportamentais. Nalguns casos fala por interpostas pessoas que já não estão neste mundo dos vivos para avalizarem ou denunciarem o que ali estiver escrito. Reproduz conversas tidas em privado com pessoas que pela sua avançada idade não estarão em condições psíquicas de o contrariar, ou até defender-se, caso a revelação os ponha em cheque.

Passos Coelho vai estar presente na apresentação do livro. Sabe que o livro é polémico e ficará sempre associado ao que de mau gosto o livro trouxer, da intriga menor á mexeriquice sórdida, porque muitas das coisas que ali estão escritas serão logo desmentidas pelos próprios visados. Outras não podendo ser desmentidas de viva voz, serão objecto de repulsa de amigos e familiares, por exemplo, pelos pais e filhos de alguns dos visados.
Mas por que vai o líder do PSD à apresentação do livro? [Read more…]

Carlos Alexandre, um juiz do Antigo Regime

Não sou suspeito de admirar José Sócrates. Por mim, ia apodrecer uns anos valentes nos calabouços de Évora. Só não digo que é culpado porque não posso.
Defender a Justiça neste caso é outra coisa totalmente diferente.
A verdade é que não consigo defender a extrema morosidade deste processo, por mais complexo que seja. Nem as constantes fugas ao Segredo de Justiça, promovidas pelo Ministério Público através do inenarrável Correio da Manhã (podiam ter escolhido o Público, mas não seria a mesma coisa). Nem a inexplicável entrevista – no timing e no conteúdo – do juiz Carlos Alexandre à SIC.
O timing é parvo, mas é o conteúdo que mais me preocupa. Pelo que diz o entrevistado, mas sobretudo pelo que revela sobre ele.
Em primeiro lugar, o que diz põe em causa a sua independência. Alguém que tem como missão julgar de forma imparcial não pode vir dizer publicamente que não tem dinheiro em contas de amigos, insinuando que José Sócrates tem.
Depois, temos na entrevista um conjunto de banalidades sobre a sua vida particular. E esta é a parte mais confrangedora.  [Read more…]

Caixa: cinco mil milhões para acabar com as vergonhas

Porquê tanto dinheiro? Para quê tanto dinheiro? E quem garante que daqui a alguns anos não vai ser necessário mais dinheiro?

Prémios Blogs do Ano – Aventar nomeado para a categoria “Política, Economia & Finanças”


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Votar no Aventar | Conhecer o Aventar

O Aventar foi nomeado para votação no “Prémio Blogs do Ano”, na categoria “Política, Economia & Negócios”.

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Casa dos Degredos

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Que a miudagem da JSD de Santana queira fazer um concurso de misses, eu até compreendo. É preciso encher chouriços quando não há bandeiras para abanar. Que o líder da JSD de Marco de Canaveses deixe tudo para trás para se enfiar num reality show decadente e em decadência, que se resume a pouco mais que intriga, calhandrice e futilidade, num cenário onde a ordinarice e a vulgaridade parecem ser a regra, mesmo alegando algo tão absurdo como “Nada melhor que um reality show para mostrar às pessoas quem realmente eu sou“, também compreendo. Não é à toa que depois nos deparamos com discursos anedóticos e patéticos como este, que despertam sentimentos de pena e vergonha alheia, e que assistimos a tiros de bazuca no pé como aquele com que fomos brindados em Novembro passado. [Read more…]