100 Anos da Estação de Porto São Bento *


** Projectada pelo arquitecto portuense José Marques da Silva, em 1899, e decorada com azulejos do pintor Jorge Colaço, a Estação de Porto São Bento ou Estação Central, é uma obra ímpar em património azulejar, uma das mais bonitas estações ferroviárias do mundo.
O primeiro projecto para a construção da estação é apresentado em 1887.
A ligação ferroviária entre Campanhã, estação comum às linhas do Norte, Minho e Douro, e o centro da cidade, fez-se em Novembro de 1896, depois de perfurados os fundos da Quinta da China, Monte do Seminário e da Praça da Batalha.
Em 1896, a estação não passava de um edifício provisório, um barracão de madeira.
Em 1899, o arquitecto portuense José Marques da Silva é encarregado de elaborar o projecto definitivo para a Estação de São Bento.
Os trabalhos de construção apenas se iniciaram em 9 de Novembro de 1903.
Em 1905 Jorge Colaço apresenta uma proposta para ornamentação e revestimento do vestíbulo da estação com azulejos.
5 de Outubro de 1916– Inauguração da estação – dupla funcionalidade: Estação e monumento de reforço do centro da cidade como elemento dinamizador da vida portuense.
9 de Maio de 2011 – Concluídos os trabalhos de conservação e restauro dos painéis de azulejos que compõem o vestíbulo da estação.
Agosto de 2011 – revista norte-americana Travel+Leisure elege a Estação de São Bento como uma das catorze mais belas de todo o mundo.

* Monumento Nacional.
** in “Linha do Minho – Estação de Porto São Bento, particularidades de um espaço“, 24 de Maio de 2012, Edição REFER e CP

[Programa comemorativo 2016]

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Independentemente do magnífico trabalho patente no átrio da Estação de S. Bento, convirá não esquecer o crime de lesa património perpetrado em finais do século XIX, quando se decidiu destruir o Convento de S. Bento da Ave Maria que aí se levantava desde 1518.
    A obra derrubada era, de facto, uma mistura de estilos onde pontificava o barroco – terá sido a última obra de barroco da cidade do Porto – e a grande modificação havia surgido em 1783, no seguimento de um pavoroso incêndio.
    Hoje sabe-se que a escolha do local para levantar a Estação Central foi polémica. Muitos defendiam outras zonas, também centrais, sem se ir pela via da destruição do Património.
    Mas o Liberalismo havia declarado guerra à Igreja. É bem conhecida a depredação dos Conventos e Mosteiros e a forma como muita gente enriqueceu à custa de um Património que deveria ser de todos.
    Por outro lado, há neste assunto, como noutros, um evidente seguidismo das camadas que governam o Porto, relativamente a Lisboa. A tão propalada independência nortenha fica completamente manchada com a cópia do que Lisboa já tinha e que o Porto ansiava. Foi o caso da Estação Central e da Avenida Central do Porto que se seguiram à Estação do Rossio e da Avenida da Liberdade de Lisboa. Esqueceu-se o Porto que há outras formas de marcar a sua posição e sobretudo, de ser diferente. E mais grave, quando as referidas cópias implicaram mais e mais destruições.
    Hoje, nada resta do imponente edifício que se levantou no local da Estação. Nada nos recorda a construção centenária que marcou várias épocas da nossa História.
    E o tema vem exactamente no seguimento do muito que hoje se discute sobre a reconversão dos monumentos históricos. Sempre que possível uma reconversão,a História e o povo agradecem e o património é defendido.
    No caso do Mosteiro, seria possível a sua reconversão sem se optar pela via da destruição? Seria possível vermos a obra imponente de Marques da Silva e de Jorge Colaço, mantendo estruturas significativas do Mosteiro?
    Pessoalmente, creio que sim, mas a vontade dos homens, sobretudo a dos políticos, como sempre navegando inconscientemente na sua incultura e insensibilidade, prefere a via da destruição.
    Marques da Silva, na minha opinião, não terá sido, neste caso, um conceptor feliz. A sua enorme sensibilidade artística tê-lo-á feito sofrer com a depredação a que se assistiu.
    E hoje, ao vermos linhas desactivadas na Estação Central, não podemos deixar de colocar a questão: Valeu a pena?

    • O que tem a ver o facto de terem sido desafectadas duas das oito vias com a importância desta estação central?
      E a construção de grandes estações centrais em qualquer cidade europeia, no séc. XIX e também XX, não deixou incólumes as respectivas malhas urbanas.
      Procure por aí imagens da construção do caminho de ferro na Grande Londres…

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Caro Dario Silva.
        Que tem a ver o facto de terem sido desafectadas duas das oito vias? Procure por exemplo as fotografias da Gare de S. Bento a funcionar ainda com a Igreja e coros de pé e compreenderá. A Igreja e coros eram a parte mais significativa do Mosteiro, só isso.
        O meu depoimento é baseado no respeito que tenho pela História da minha cidade. Nada me move contra a modernização. Move-me uma profunda repulsa contra as atitudes destruidoras têm um profundo significado de falta de cultura e de respeito pela História da cidade e do País. E quem não conhece a sua História e/ou a não respeita, nunca pode ter uma identidade.
        No caso da Gare Central, repito o que escrevi: havia alternativas que não implicavam a destruição de Património. Não está em causa a importância da estrutura (Gare Central) para a cidade. Sem dúvida que foi uma benesse. Mas repito, havia alternativas que o poder político negou. Sempre a política no seu lado mais negro a impor tudo o que o (seu) regime define.
        Mexer na malha urbana para criar uma infraestrutura, é perfeitamente normal. Em Lisboa, quando se fez a Expo, ocupou-se um terreno abandonado, completamente poluído e sem uso. Não conheço com pormenor o que se passou em Londres, mas estou convicto que os Ingleses não destruiriam património para o fazer. Em Lisboa, quando se fez a Estação do Rossio, uns anos antes da Gare de S. Bento, não se destruiu Património. Em Paris, construíram-se a Gare do Norte, a Gare de Este, a Gare de Austerlitz e o Quai d’Orsay hoje um museu dada a extinção da linha férrea. Que se saiba, não se destruiu e mesmo o Museu d’Orsay, hoje, é uma transformação/adaptação da velha estação dos caminhos de ferro, local carregado de história, também.
        Que poderiam coexistir as duas estruturas, disso, não tenho dúvidas. E a cereja em cima do bolo seria poder apreciar a bela arquitectura Arte Nova de Marques da Silva e a azulejaria ímpar de Jorge Colaço, a par de testemunhos do passado que deviam ter sido preservados e que apenas, em nome de uma modernidade parola, menor e descontextualizada, se vê destruída.
        Cumprimentos.

        • Explico: até à data em que a imensa maioria do tráfego regional a norte do Douro partia e chegava a Ser. Bento, as oito vias eram absolutamente necessárias, quando não escassas.

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            Caro Dario Silva.
            A Estação Central nunca cumpriu a missão para a qual foi criada, pois foi feita para servir o Minho e o Douro, aliás soberbamente retratados na obra de Jorge Colaço patente no átrio.
            Campanhã foi desde sempre a verdadeira Estação Central que servia todos os pontos cardeais, incluindo o próprio rio e o Sul.
            Eu compreendi muito bem os seus argumentos, mas quer-me parecer que o caro Dario Silva não quer entender os meus.
            Mas repito-lhe que nada me move contra uma Estação Central. Mas custa-me que existindo outras soluções ( e não era Campanhã), se optasse por uma solução que provocaria três destruições maciças na cidade. Duas delas simplesmente arrasaram estruturas (refiro-me à Praça e ao Convento) e a terceira, ainda hoje lá está como um verdadeiro escarro arquitectónico. Refiro-me à famigerada Avenida de D. Afonso Henriques que anda em requalificação desde os anos 50 do século passado.
            Isto apenas diz da capacidade de organização e decisão da nossa autarquia no que toca a obras: depressa, destruir para dar mais facilmente nas vistas. Não é este o modo de pensar de quem levantou as estações francesas ou, se quiser, a de Colónia que passa mesmo ao lado da Catedral. Cá tê-la-iam derrubado, não tenho dúvidas.
            Tenho todo o respeito pela obra de Marques da Silva, tal como pela de Jorge Colaço. Agradam-me as formas da Arte Nova e a cor e arte únicas daqueles azulejos. Mas de cada vez que passo por aquele lugar, não deixo de considerar – se quiser, é uma fragilidade minha que não nego – que foi ali perpetrado um crime de lesa património igual ao que assistimos no centro do Porto com a destruição dos jardins de Barry Parker, ou a destruição irresponsável do Jardim Romântico da Cordoaria.
            Mas custa-me muito mais ver a deferência com que se tratam esses ignorantes destruidores do Património que hoje, choram lágrimas de crocodilo com a destruição que fizeram.
            Considere isto, se quiser, o desabafo de um portuense que conhece muito bem a sua cidade e a sua História e que a compreende. A coexistência de estruturas que são um bocado do nosso passado, deveria representar a fusão entre o respeito pela História a par da modernidade desejada.
            Cumprimentos.

        • O prezado leitor sugere, portanto, que em Paris se construíram enormes estações sem “destruir património”. Ora, isso é impossível. Vários hectares de novas construções não aconteceram em campos de batatas dentro de Paris ou Londres.
          E as oito vias de São Bento faziam parte da estação que ainda conhecemos, assim como os armazéns em ambos os lados – absolutamente necessários á função técnica de uma estação ferroviária até finais dos anos 1980: expedir e receber pessoas e mercadorias. E isso requer mais do que apenas as linhas onde param os comboios.
          Compreendo o seu ponto de vista mas creia-me que, a segui-lo integralmente, o Porto (ou qualquer outra cidade) não seria uma “cidade”, seria um conjunto de palhotas ou o que mais houvesse há três ou quatro mil anos. O Porto não seria, como Lisboa ou Évora ou Londres, um acumular de épocas. É a isso que se refere quando fala na preservação do património? – manter tudo o que existe.
          Se isso fosse possível, o Porto teria ribeiras a céu aberto: não tem. Lisboa idem. Rio Tinto idem.

          Postas as coisas de outra forma, não me ocorre nenhuma estação que tenha incorporado edificado de outra natureza, de outras épocas. Melhor dizendo, conheço uma: a actual estação de Braga, cujas obras de modernização em 2002-2004 puseram a descoberto vestígios de um balneário pré-romano, incorporado que foi no átrio de acesso ao parque de estacionamento subterrâneo. E, sim, o edifício principal da estação inaugurada em 1875 faz também parte da actual estrutura.

          Sendo o balneário pré-romano, sendo o anterior edifício do séc XIX e o actual do séc. XXI, atrevo-me a dizer que a estação de Braga é a única em todo o mundo a incorporar património edificado de… três milénios.

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            Caro Daria Silva:
            O seu conceito de Património é, claramente diferente do meu e, com toda a honestidade parece-me bizarro. E por isso vai ao ponto de escrever : “o Porto (ou qualquer outra cidade) não seria uma “cidade”, seria um conjunto de palhotas ou o que mais houvesse há três ou quatro mil anos”, se a minha linha de raciocínio fosse seguida.
            E mais à frente … “manter tudo o que existe. Se isso fosse possível, o Porto teria ribeiras a céu aberto: não tem. Lisboa idem. Rio Tinto idem…”.
            Manifestamente confunde-me e claramente ou está a brincar, ou pretende atacar a minha inteligência.
            Penso não ter lido o que escrevi (reconheço que é longo e por isso me desculpo). Claramente escrevo, a certa altura, que no caso do convento de S. Bento da Ave-Maria, a parte mais rica era a Igreja. Se se der ao trabalho de ver a sua localização, perceberá que ela ocupava uma parte lateral.
            Compreendo que haja pessoas para quem construir uns armazéns seja mais importante que a preservação de um templo mas enfim, é uma opinião. Há pessoas para quem é mais importante granitar a cidade que preservar jardins. Mas enfim … é outra opinião.
            Por isso também lhe escrevi que houve outras opções que não foram consideradas e não atacariam a centralidade da Estação. Mais. Se se der ao cuidado de ver o espaço desaproveitado na parte da rua do Loureiro, pertencente à estação e mesmo na rua da Madeira, perceberá com certeza que, arquitectonicamente, algo poderia ter sido feito de mais consentâneo, no conceito de preservação a que aludo.
            Não. Preservar Património não é conservar as palhotas ou cavernas. E se percebeu isso, manifestamente percebeu mal. Preservar o Património é fundir conceitos, aumentando a habitabilidade e a circulação sem passar pela destruição gratuita, pura e simples que no Porto, se gosta muito de fazer. É manter uma identidade e modernizá-la, adaptando-a.
            A nossa diferença de opiniões, não está na Estação Central como pretende. Está na sua localização ou, se preferir, no projecto que preferiu a solução da terra queimada.
            Pôr a descoberto estruturas desaparecidas, estudá-las e mesmo tapá-las a seguir no caso da sua visibilidade ser difícil ou impossível, é uma coisa que se pode aceitar. Destruí-las por opção altamente discutível – porque havia outras – é outra.
            A gente política sabe bem o mal que fez. Por isso hoje há legislação que proíbe deitar abaixo as frontarias das casas, como deve saber, pois isso é uma característica de identidade como acontece no Porto na zona Almadina. Por isso, conservando essa identidade, todo o interior das casas é modificado no sentido do conforto e habitabilidade. Há teses de doutoramento sobre esta matéria, feita por arquitectos e historiadores de arte. Portanto, o que eu digo, não é nada de novo.
            Contudo, na Avenida da República em Lisboa e na Avenida da Boavista no Porto, “artistas” que não conseguem resistir à pressão imobiliária – onde aparecem conhecidos autarcas e governantes – fizeram desaparecer verdadeiras obras-primas da arquitectura para aí levantarem horrorosos caixotes.
            Há sempre “artistas” que não resistem ou à corrente política ou à actividade económica, aos gráficos e aos números…
            Numa palavra, falta senso e regulação.
            Já agora, sabia que o Castelo de Guimarães não foi demolido por um voto apenas, numa sessão discutida na Câmara da cidade? Que pensar de gente que faz propostas daquele quilate?
            O que me diz da Estação de Braga, foi uma descoberta que, pelo menos desta vez, terá sido preservada. Braga, como deve saber, foi uma cidade sujeita a um vendaval de destruição na era de Mesquita Machado. Sabia que uma parte de Bracara Augusta foi destruída para levantar uns caixotes? E toda a gente sabia disto. As obras foram inicialmente embargadas e de seguida, continuaram, porque a pressão imobiliária, é o que está a dar.
            A Fonte do Cubo na Ribeira, foi levantada sobre uma fonte medieval e provavelmente romana. Esta fonte era térrea e a sua conservação não foi efectuada o que faz sentido. Mas não se construiu sobre a fonte, um supermercado, por exemplo. Construiu-se outra fonte, alusiva a outra efeméride.
            O Palácio das Cardosas no Porto, antigo dormitório conventual e posteriormente casa privada, foi conservado. É hoje um belíssimo hotel. E digo que foi conservado, porque um “artista” italiano, a certa altura, com a intenção de meter os carros na cidade (veja o que passamos agora para tirá-los) aventou a hipótese de o demolir, criando assim uma enorme Avenida que caía da Ponte de D. Luís. São estes “iluminados”, modernistas irresponsáveis que deitam tudo a perder. E quando dão com ignorantes a decidir, é um “ver se te avias”…
            Em Lisboa, na baixa pombalina, há construções do estilo que refere em Braga. No Porto, se visitar a Sede da Ordem dos Arquitectos (bem ao lado da Sé), encontra estruturas que datam desde o Neolítico até aos nossos dias, passando pelo período romano e medieval.
            Não se pede para conservar palhotas, caro Dario Silva.
            Pede-se para se ser inteligente nas opções que se tomam e não deixá-las conduzir pela porca da política ou por interesses particulares (que é o mesmo, mais ou menos).
            E termino: o respeito pelo Património é o primeiro passo para que nos respeitemos e respeitemos os vindouros. Sem isto, não há identidade.
            Cumprimentos.

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            O seu conceito de Património é, claramente diferente do meu e, com toda a honestidade parece-me bizarro. E por isso vai ao ponto de escrever : “o Porto (ou qualquer outra cidade) não seria uma “cidade”, seria um conjunto de palhotas ou o que mais houvesse há três ou quatro mil anos”, se a minha linha de raciocínio fosse seguida.
            E mais à frente: “… manter tudo o que existe. Se isso fosse possível, o Porto teria ribeiras a céu aberto: não tem. Lisboa idem. Rio Tinto idem…”
            Manifestamente confunde-me e claramente ou está a brincar, ou pretende atacar a minha inteligência.
            Penso não ter lido o que escrevi (reconheço que é longo e por isso me desculpo). Claramente escrevo, a certa altura, que no caso do convento de S. Bento da Ave-Maria, a parte mais rica era a Igreja. Se se der ao trabalho de ver a sua localização, perceberá que ela ocupava uma parte lateral.
            Compreendo que haja pessoas para quem construir uns armazéns seja mais importante que a preservação de um templo mas enfim, é uma opinião. Há pessoas para quem é mais importante granitar a cidade que preservar jardins. Mas enfim … é outra opinião.
            Por isso também lhe escrevi que houve outras opções que não foram consideradas e não atacariam a centralidade da Estação. Mais. Se se der ao cuidado de ver o espaço desaproveitado na parte da rua do Loureiro, pertencente à estação e mesmo na rua da Madeira, perceberá com certeza que, arquitectonicamente, algo poderia ter sido feito de mais consentâneo, no conceito de preservação a que aludo.
            Não. Preservar Património não é conservar as palhotas ou cavernas. E se percebeu isso, manifestamente percebeu mal. Preservar o Património é fundir conceitos, aumentando a habitabilidade e a circulação sem passar pela destruição gratuita, pura e simples que no Porto, se gosta muito de fazer. É manter uma identidade e modernizá-la, adaptando-a.
            A nossa diferença de opiniões, não está na Estação Central como pretende. Está na sua localização ou, se preferir, no projecto que preferiu a solução da terra queimada.
            Pôr a descoberto estruturas desaparecidas, estudá-las e mesmo tapá-las a seguir no caso da sua visibilidade ser difícil ou impossível, é uma coisa que se pode aceitar. Destruí-las por opção altamente discutível – porque havia outras – é outra.
            A gente política sabe bem o mal que fez. Por isso hoje há legislação que proíbe deitar abaixo as frontarias das casas, como deve saber, pois isso é uma característica de identidade como acontece no Porto na zona Almadina. Por isso, conservando essa identidade, todo o interior das casas é modificado no sentido do conforto e habitabilidade. Há teses de doutoramento sobre esta matéria, feita por arquitectos e historiadores de arte. Portanto, o que eu digo, não é nada de novo.
            Contudo, na Avenida da República em Lisboa e na Avenida da Boavista no Porto, “artistas” que não conseguem resistir à pressão imobiliária – onde aparecem conhecidos autarcas e governantes – fizeram desaparecer verdadeiras obras-primas da arquitectura para aí levantarem horrorosos caixotes.
            Há sempre “artistas” que não resistem ou à corrente política ou à actividade económica, aos gráficos e aos números…
            Numa palavra, falta senso e regulação.
            Já agora, sabia que o Castelo de Guimarães não foi demolido por um voto apenas, numa sessão discutida na Câmara da cidade? Que pensar de gente que faz propostas daquele quilate?
            O que me diz da Estação de Braga, foi uma descoberta que, pelo menos desta vez, terá sido preservada. Braga, como deve saber, foi uma cidade sujeita a um vendaval de destruição na era de Mesquita Machado. Sabia que uma parte de Bracara Augusta foi destruída para levantar uns caixotes? E toda a gente sabia disto. As obras foram inicialmente embargadas e de seguida, continuaram, porque a pressão imobiliária, é o que está a dar.
            A Fonte do Cubo na Ribeira, foi levantada sobre uma fonte medieval e provavelmente romana. Esta fonte era térrea e a sua conservação não foi efectuada o que faz sentido. Mas não se construiu sobre a fonte, um supermercado, por exemplo. Construiu-se outra fonte, alusiva a outra efeméride.
            O Palácio das Cardosas no Porto, antigo dormitório conventual e posteriormente casa privada, foi conservado. É hoje um belíssimo hotel. E digo que foi conservado, porque um “artista” italiano, a certa altura, com a intenção de meter os carros na cidade (veja o que passamos agora para tirá-los) aventou a hipótese de o demolir, criando assim uma enorme Avenida que caía da Ponte de D. Luís. São estes “iluminados”, modernistas irresponsáveis que deitam tudo a perder. E quando dão com ignorantes a decidir, é um “ver se te avias”…
            Em Lisboa, na baixa pombalina, há construções do estilo que refere em Braga. No Porto, se visitar a Sede da Ordem dos Arquitectos (bem ao lado da Sé), encontra estruturas que datam desde o Neolítico até aos nossos dias, passando pelo período romano e medieval.
            Não se pede para conservar palhotas, caro Dario Silva.
            Pede-se para se ser inteligente nas opções que se tomam e não deixá-las conduzir pela porca da política ou por interesses particulares (que é o mesmo, mais ou menos).
            E termino: o respeito pelo Património é o primeiro passo para que nos respeitemos e respeitemos os vindouros. Sem isto, não há identidade.
            Cumprimentos.

  2. Paulo says:

    Não esquecer que esta obra foi feita para “provincianos”

  3. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    O seu conceito de Património é, claramente diferente do meu e, com toda a honestidade parece-me bizarro. E por isso vai ao ponto de escrever : “o Porto (ou qualquer outra cidade) não seria uma “cidade”, seria um conjunto de palhotas ou o que mais houvesse há três ou quatro mil anos”, se a minha linha de raciocínio fosse seguida.
    E mais à frente: “… manter tudo o que existe. Se isso fosse possível, o Porto teria ribeiras a céu aberto: não tem. Lisboa idem. Rio Tinto idem…”
    Manifestamente confunde-me e claramente ou está a brincar, ou pretende atacar a minha inteligência.
    Penso não ter lido o que escrevi (reconheço que é longo e por isso me desculpo). Claramente escrevo, a certa altura, que no caso do convento de S. Bento da Ave-Maria, a parte mais rica era a Igreja. Se se der ao trabalho de ver a sua localização, perceberá que ela ocupava uma parte lateral.
    Compreendo que haja pessoas para quem construir uns armazéns seja mais importante que a preservação de um templo mas enfim, é uma opinião. Há pessoas para quem é mais importante granitar a cidade que preservar jardins. Mas enfim … é outra opinião.
    Por isso também lhe escrevi que houve outras opções que não foram consideradas e não atacariam a centralidade da Estação. Mais. Se se der ao cuidado de ver o espaço desaproveitado na parte da rua do Loureiro, pertencente à estação e mesmo na rua da Madeira, perceberá com certeza que, arquitectonicamente, algo poderia ter sido feito de mais consentâneo, no conceito de preservação a que aludo.
    Não. Preservar Património não é conservar as palhotas ou cavernas. E se percebeu isso, manifestamente percebeu mal. Preservar o Património é fundir conceitos, aumentando a habitabilidade e a circulação sem passar pela destruição gratuita, pura e simples que no Porto, se gosta muito de fazer. É manter uma identidade e modernizá-la, adaptando-a.
    A nossa diferença de opiniões, não está na Estação Central como pretende. Está na sua localização ou, se preferir, no projecto que preferiu a solução da terra queimada.
    Pôr a descoberto estruturas desaparecidas, estudá-las e mesmo tapá-las a seguir no caso da sua visibilidade ser difícil ou impossível, é uma coisa que se pode aceitar. Destruí-las por opção altamente discutível – porque havia outras – é outra.
    A gente política sabe bem o mal que fez. Por isso hoje há legislação que proíbe deitar abaixo as frontarias das casas, como deve saber, pois isso é uma característica de identidade como acontece no Porto na zona Almadina. Por isso, conservando essa identidade, todo o interior das casas é modificado no sentido do conforto e habitabilidade. Há teses de doutoramento sobre esta matéria, feita por arquitectos e historiadores de arte. Portanto, o que eu digo, não é nada de novo.
    Contudo, na Avenida da República em Lisboa e na Avenida da Boavista no Porto, “artistas” que não conseguem resistir à pressão imobiliária – onde aparecem conhecidos autarcas e governantes – fizeram desaparecer verdadeiras obras-primas da arquitectura para aí levantarem horrorosos caixotes.
    Há sempre “artistas” que não resistem ou à corrente política ou à actividade económica, aos gráficos e aos números…
    Numa palavra, falta senso e regulação.
    Já agora, sabia que o Castelo de Guimarães não foi demolido por um voto apenas, numa sessão discutida na Câmara da cidade? Que pensar de gente que faz propostas daquele quilate?
    O que me diz da Estação de Braga, foi uma descoberta que, pelo menos desta vez, terá sido preservada. Braga, como deve saber, foi uma cidade sujeita a um vendaval de destruição na era de Mesquita Machado. Sabia que uma parte de Bracara Augusta foi destruída para levantar uns caixotes? E toda a gente sabia disto. As obras foram inicialmente embargadas e de seguida, continuaram, porque a pressão imobiliária, é o que está a dar.
    A Fonte do Cubo na Ribeira, foi levantada sobre uma fonte medieval e provavelmente romana. Esta fonte era térrea e a sua conservação não foi efectuada o que faz sentido. Mas não se construiu sobre a fonte, um supermercado, por exemplo. Construiu-se outra fonte, alusiva a outra efeméride.
    O Palácio das Cardosas no Porto, antigo dormitório conventual e posteriormente casa privada, foi conservado. É hoje um belíssimo hotel. E digo que foi conservado, porque um “artista” italiano, a certa altura, com a intenção de meter os carros na cidade (veja o que passamos agora para tirá-los) aventou a hipótese de o demolir, criando assim uma enorme Avenida que caía da Ponte de D. Luís. São estes “iluminados”, modernistas irresponsáveis que deitam tudo a perder. E quando dão com ignorantes a decidir, é um “ver se te avias”…
    Em Lisboa, na baixa pombalina, há construções do estilo que refere em Braga. No Porto, se visitar a Sede da Ordem dos Arquitectos (bem ao lado da Sé), encontra estruturas que datam desde o Neolítico até aos nossos dias, passando pelo período romano e medieval.
    Não se pede para conservar palhotas, caro Dario Silva.
    Pede-se para se ser inteligente nas opções que se tomam e não deixá-las conduzir pela porca da política ou por interesses particulares (que é o mesmo, mais ou menos).
    E termino: o respeito pelo Património é o primeiro passo para que nos respeitemos e respeitemos os vindouros. Sem isto, não há identidade.
    Cumprimentos.

    • Bom, o espaço “desaproveitado” do lado da Rua da Madeira e da Rua do Loureiro não é um espaço desaproveitado. Foi, décadas a fio, um espaço logístico necessário á função técnica da estação, como lhe escrevia acima.
      O facto de hoje ali não vermos camionetas, carros, camiões ou carroças não quer dizer que tenha sido sempre assim.
      De resto, acredito mesmo que tenhamos ideias diferentes do que é património e do que é Cidade.
      E as únicas cidades que conheço que preservaram todo o seu património como parece entendê-lo estão algures na América Latina, perdidas nas florestas, e nas areias dos desertos. Aí nada tem sido alterado desde há séculos.

      Haveria outros lugares possíveis para uma estação central no Porto? – Haveria.
      Resta saber que outro património teria sido demolida.
      Talvez não um convento, talvez não uma igreja.
      Mas, considerando a época em que o edifício acontece, talvez aquela opção seja atendível. Era outro tempo, pois claro.

      Imagino que o prezado leitor se insurja ainda contra o túnel da Ribeira ou mesmo a Av. Gustavo Eiffel… ambos “desfiguram” a zona ribeirinha do Porto.

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        A sua “imaginação” patente em dois parágrafos (o último e o que filosofa sobre a imutabilidade das cidades dos desertos e selvas) diz tudo da sua postura nesta discussão.
        O caro Dario Silva confunde tudo e, pela segunda vez, desafia a minha inteligência com a sua “imaginação” e a sua “filosofia” de urbanismo.
        Resume quem não tem o seu conceito de modernidade a um cidadão medieval (ou mesmo um pouco mais antigo e neste caso a um bárbaro), revelando uma não disponibilidade para entender o que se escreve.
        Quando se confunde o …” … nada tem sido alterado desde há séculos …” com o que defendo que é a coexistência de estruturas, ficamos conversados.
        O bom senso que sempre mantenho nestas conversas remete-me, a partir de agora, ao silêncio. Será a atitude mais conveniente e inteligente.
        Cumprimentos.

        • Tentei, por exemplos baseados na realidade, explicar que nem sempre é possível compatibilizar pré-existências com as novas necessidades.
          Responde que haveria espaço nas laterais, na Rua da Madeira e na Rua do Loureiro.
          Explico que não, que os espaços agora vazios estiveram em uso durante décadas, precisamente no âmbito da função de transporte da estação.
          Insiste e volta a falar na compatibilização com o antigo.
          A minha pergunta volta a ser a mesma: onde??

          Obviamente, aceito que me indique um outro espaço que tivesse servido para uma estação daquela dimensão e, obviamente, na zona central da cidade. Assumo que aceita a estação como um elemento importante das grandes cidades do séc. XIX e XX. Certo?
          Assumo que sim porque não me ocorre nenhuma grande cidade (na Europa ou em qualquer outro continente) que não tenha a sua estação ferroviária, quando não várias.

          Posto isto: a estação central do Porto deveria ter sido construída onde? A expensas de que edificado? Com que limitações de espaço? Com que outros ganhos para a cidade?

          Obrigado!

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            Caro Dario Silva.
            O seu conceito de « tentar » é muito semelhante ao esforço que manifesta para reduzir quem não tem a sua linha de pensamento a um bárbaro.
            Não é democrático.
            Repare que tive todo o cuidado em chamar a atenção e gabar a qualidade da obra que hoje se nos apresenta. E afirmar estar convicto que nada daquela beleza levantada, passaria por destruir integralmente o que lá estava antes.
            O caro Dario Silva utiliza, quanto falo em fazer conviver as estruturas lado a lado, exemplos das cidades do deserto e das cidades perdidas dos Andes ou põe-se no meu lugar a citar as maravilhas das cidades de palhotas de que me acusa de gostar e “vê-me” ainda do seu pedestal a desvirtuar o Túnel da Ribeira ou a Avenida Gustavo Eiffel.
            Enfim. Isso, para mim, não é discutir ideias meu caro Senhor. Tem outro nome.

            Os exemplos baseados na realidade que aponta, são iguais (mas provavelmente de sinal contrário) aos exemplos que lhe citei.
            Eu não pretendo ter razão. Tenho a minha razão e chega-me, baseado nas minhas convicções, no meu conhecimento e na minha experiência (que é longa, acredite). Entrei nesta página, não para o contrariar, mas para apresentar um testemunho, tão válido quanto o seu. Estou, isso sim em completo desacordo com a política da terra queimada.

            É evidente que sou a favor de uma Estação Central. Já citei isto “n” vezes ao longo desta nossa troca de opiniões, motivo pelo qual não entendo as suas questões que parafraseio:

            “…Assumo que aceita a estação como um elemento importante das grandes cidades do séc. XIX e XX. Certo? Assumo que sim porque não me ocorre nenhuma grande cidade (na Europa ou em qualquer outro continente) que não tenha a sua estação ferroviária, quando não várias…”

            Não tem que assumir nada. Basta ler o que escrevi para verificar que esta sua dúvida não tem qualquer sustentabilidade argumentativa.
            Sei o que levou no século XIX as Estações Centrais às cidades de todo o Mundo e se calhar, conheço-as todas. Mas também sei o motivo porque a Estação de S. Bento ali foi levantada.
            Mas nem contra isso me insurjo.
            Insurjo-me sim, como pode constatar, contra a destruição barata que, repito, teve bases políticas e só políticas que passava por lixiviar um determinado passado que não interessava recordar.

            Para terminar, não tem nada que agradecer, relativamente ao pedido que me faz, mas para responder à pergunta que me coloca remeto-o para duas excelentes obras sobre o assunto que trouxe a debate, pois é uma oportunidade para perceber outras coisas para além dos locais que foram apontados para a Estação Central.
            1 – “Os painéis de azulejos da Estação de S. Bento”, um trabalho de Mestrado da Faculdade de Letras da minha cidade da autoria do Dr. Ednilson Leandro Pina Fernandes e datado de 2010.
            2 – “O Mosteiro de S. Bento da Ave Maria do Porto, 1518/1599 – Uma arquitectura do século XVIII”, da autoria da Drª Isabel Maria Ribeiro Tavares de Pinho, doutorada em 2010, também da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
            Se se der ao trabalho de ler as obras entenderá o que pretendi dizer.

            Não tenho por hábito falar de cor e sei muito bem o lugar que a história ocupa.
            Nem todo o automóvel pode ser de colecção, como deve saber. E portanto, nem todo o edifício histórico é, também de preservação obrigatória.
            Tudo isto é bom senso. O resto, é desconversa.

            Sabe, encontro-me presentemente numa pequena cidade da Alemanha, Landshut e escassos 80 quilómetros de uma outra cidade, Regensburg ou se quiser Ratisbona.
            Num país marcado por guerras profundas e destruições violentas, convido-o a visitar estas duas cidades (e há muitas mais na Baviera, acredite), para perceber como as estruturas do século I, XII, XIV, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX e XX convivem lado a lado tornando o local verdadeiramente admirável, habitável, moderno, respirável, transitável e urbano.
            E também aqui há túneis e marginais como no Douro que banha a minha (presumo que nossa) cidade.

            De resto a reconversão do edifício da Estação Central, que agora se anuncia e que vem citada por um outro leitor nesta sua página, diz bem, a par da extinção das duas vias extremas, da perenidade do objectivo do edifício. Compare esta perenidade com a de qualquer outra grande estação dos Caminhos-de-ferro por essa Europa fora e tire as suas conclusões. De resto alerta o leitor para o facto de haver um certo secretismo nas decisões da Câmara … Pois é, velhos hábitos e a história repete-se inexoravelmente.
            Esperemos que não passe à fase do camartelo. Mas se acontecer, ter-me-á aqui a repetir este discurso, por uma questão de coerência.
            Cumprimentos.

  4. Carlos de Sá says:

    A estação de S. Bento vai ser novamente alvo de uma reconversão, para albergar um “centro comercial” e um hostel, um pouco na onda da intervenção realizada na estação do Rossio.
    Não conheço o projecto, e também não conheço quem conheça – parece que até agora tem sido mantido no segredo dos deuses do costume. Mas temo que possa vir a descaracterizar aquele espaço e, mais ainda, a infernizar a vida de quem ali diariamente transita de e para os comboios.

    • Caro Ernesto Martins,

      A CM Porto veio claramente explicar que nenhum projecto de adaptação a comércio e serviços ali deu entrada. Não passam de intenções manifestadas por um promotor.
      E essa conversa, nos termos que foi publicitada, não condiz forçosamente com o meu ponto de vista, pese o facto de, como sabemos, muitas estações (e a sua dimensão) estarem agora desfasadas da sua função inicial: transporte.
      Porque, entre outros, mercadoria de detalhe já não viaja de comboio (nos anos 70 representavam 1/4 das receitas da CP daquele tempo). Portanto, o edifício em si tornou-se excedentário em termos de espaço ocupável.
      Acontece o mesmo com centenas de estações em todo o país. Se há 40 anos todas tinham pessoas a trabalhar, agora só uma minoria as tem.

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Caro Dario Silva:
        Quando abordei a reconversão da actual estação de S. Bento, pretendia fazer o paralelo entre a força do projecto que conduziu à construção desta Estação Central (e à completa destruição da estrutura anterior) e o actual esmorecimento do espaço.
        E pergunto: Terá sido feito o mínimo necessário que permitisse projectar no futuro o interesse pelo uso e exploração da Estação Central?
        A questão coloca-se, para mim, na definição de Estação Central.
        Será fundamentalmente virada para as pessoas, para as mercadorias ou para as duas coisas?
        A dois passos da Estação Central, está o centro cívico e cultural da cidade… Tal como hoje, embora os Paços do Concelho estejam mais a norte.
        E por isso, pergunto: justifica-se uma Estação Central com a taxa de mercadorias que lhe foi atribuída? É ou não verdade que a grande quantidade de mercadorias vinha da Alfândega e esta usava a linha – também desactivada por razões lógicas – que ia dar a Campanhã? E as mercadorias iam para S. Bento a seguir? Faria sentido “embordelicar” a cidade, quando o centro de distribuição de mercadorias podia ser outro local?
        Não será isto um caso lapidar de má gestão de sinergias e de desenvolvimento de projectos gigantescos que definham ao fim de uns anos?
        A Rua Nova da Alfândega, a Rua de Mouzinho da Silveira e as ruas “novas” onde entram Sá da Bandeira, datam dos anos setenta do século XIX. Ou seja, rasgava-se a cidade.
        Campanhã tinha a Rua de Pinto Bessa aberta antes de 1890
        Com toda a sinceridade, há aqui um planeamento cujos objectivos lógicos me escapam, o que faz que eu veja a construção desta Estação – e a consequente destruição da anterior estrutura, fundamentalmente como um acto político resumindo-se ao tudo destruir, não deixando pedra sobre pedra. E foi isso que foi feito.
        De resto, por favor não infira que sou contra a ocupação de um espaço vazio por uma actividade que o valorize.
        A verificar-se a inutilidade do espaço, naturalmente que sou a favor de uma ocupação em vez do abandono ou destruição, principalmente porque estão em causa as actuais obras ímpares de arquitectura e Arte.
        A questão de fundo que levantei tem a ver com a forma como foi projectado no futuro a gestão daquele espaço.
        Os políticos têm a obrigação de planificar estas coisas. Se não, são maus políticos. Mas, na verdade, bons políticos não nos podemos gabar de termos tido muitos.
        Por mim, não tenho dúvida que foi um acto político com fins imediatistas, bem à moda do que a história nos vem habituando.
        E por isso perguntei na minha primeira intervenção, se terá valido a pena “queimar a terra” que foi queimada.
        Mas agora, sem dúvida que nos compete defender o Património que lá está. E defender, é valorizá-lo, negando assistir à sua decadência.
        Cumprimentos.

        • Caro Ernesto,

          Dado o panorama ferroviário de toda a Europa acho muito improvável que ao caminho de ferro regresse a recepção/transporte de mercadoria de pequeno volume ou peso. Algo que é feito hoje por estrada, porta-a-porta, com relativa rapidez. Possa parecer que não, e dado o baixo custo relativo desse transporte de meia dúzia de kilos por cliente, a estrada oferece hoje muito melhores condições comerciais. Também pela razão que a actual rede viária de qualquer país europeu consegue garantir a celeridade necessária.
          O caminho de ferro tem, por outro lado, mostrado vantagem no transporte de mercadorias em largas quantidades de e para um mesmo ponto. Mas deixemos isso para depois.
          Portanto, a função de expedição de mercadoria a detalhe (e aqui cabem literalmente sacos de batatas, cabazes de fruta e jornais do dia) terminou nos primeiros anos de 1990. Cá e por toda a parte.
          Até o transporte de correio praticamente desapareceu embora esteja, na Grã-Bretanha, a ser progressivamente retomado.
          É de prever que o futuro de São Bento enquanto estação passe apenas pelo transporte de pessoas. Ou seja, o enorme espaço alocado a armazéns é e será desnecessário. Aqui como em cerca de 500 outras estações de que Portugal já dispôs.
          A aposta será, portanto, no transporte de pessoas.

          O Ramal de Alfândega tinha como função escoar o movimento do porto do Porto, até este tráfego ter sido transferido para Leixões na sua totalidade. E ali cabiam comboios inteiros de mercadorias. Vagões inteiros a incorporar em alguns comboios por dia, alguns comboios por semana.
          O tráfego de pequena mercadoria expedida e recebida em São Bento chegava e partia em dezenas de comboios por dia, pequenas quantidades de cada vez, carregada em vagões a incorporar nos regulares comboios de passageiros ou, após os anos 1966, transportado em compartimentos próprios existentes nos comboios de passageiros. Todos os comboios de passageiros adquiridos nesses anos incorporavam o seu “furgão”. Onde cabiam alguns metros cúbicos de mercadoria, carregada e descarregada em dezenas de estações ao longo da viagem, ou para Monção ou para Barca d’Alva.
          Como acima referi, este tráfego representava 1/4 das receitas.

          Esse tempo terminou assim como terminaram as locomotivas a vapor e a necessidade de as colocar à cabeça dos comboios nas estações terminais. E para isso faziam falta linhas de apoios, como eram recentemente as linhas 1 e 8 de São Bento.

          A fechar, e a propósito da reconversão de espaços outrora destinados a este tráfego de mercadorias, seria interessante dar um salto à Régua e conhecer os espaços comerciais que existem abrigados no cais de madeira. O maior cais ferroviário de madeira em Portugal, recentemente classificado. Perdeu a sua função ferroviária mas ganhou outra vida.

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            Caro Dario Silva.
            A sua argumentação neste domínio, é irrefutável. Estou totalmente de acordo com o raciocínio que transmite, relativamente à necessidade de reconverter o Caminho de Ferro, passados que foram os tempos, como bem assinala, do “monopólio” de transporte de pessoas e mercadorias.
            E o Porto fê-lo, de certo modo, integrando uma parte da linha do Minho e da Póvoa no metro de superfície.
            Sim, não me parece que seja mais viável a comunidade “mercadoria e passageiros”. São tempos de mudança que requerem adaptações. E nesse caso, como cidadão, só posso esperar que as decisões sejam tomadas sem as costumeiras pressões, nomeadamente as imobiliárias.
            O exemplo que cita, no caso da Régua, (não conheço, confesso) é algo que na minha óptica é positivo.

            O relógio não anda para trás.
            Independentemente da minha opinião sobre a destruição do Mosteiro (Sampaio Bruno chegou a escrever ao rei para preservar a Igreja e por isso mesmo, as obras estiveram embargadas muitos anos), neste momento, como cidadão que respeita a preservação daquilo que merece ser preservado, com é o caso desta obra de Marques da Silva e de Jorge Colaço, só espero que numa futura opção, se não façam disparates como foram feitos em 2001.
            Foi um prazer. Cumprimentos.

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