Ainda o Nobel


homer

(Jean-Baptiste Auguste Leloir: Homer, 1841.)

Devo dizer que discordo de Francisca Prieto aqui no Delito. “A literatura é, simplesmente, para ser lida. Não tem outra função, não é apenas uma parte de outra coisa maior.”  Este foi um argumento que vi replicado em vários sítios. Mas não creio que seja de todo assim. Até ao século XVII na Europa, os livros eram lidos em voz alta para uma sala de pessoas (na corte, por exemplo). A literatura não era tanto lida como era ouvida e como era um exercício colectivo. As cantigas de amigo que são a base de qualquer programa de literatura portuguesa, eram originalmente cantadas.

Mais importante: Homero – a ter existido – não sabia ler nem escrever e os seus épicos sobreviveram por via oral até alguém os decidir fixar em escrita. Não podemos dizer simplesmente que Homero já não é relevante pois viveu há muito tempo. Homero é a base de toda a literatura ocidental e quem pensa em literatura e no que ela é hoje não o deve perder de vista.

Hoje em dia, em África e na Índia a oralidade continua a ser uma forma de contar histórias que não têm certamente menos valor do que as ocidentais histórias escritas.

No caso de Dylan, nem sequer estamos a falar na ausência total de um texto porque ele existe sendo “apenas” cantado.

Tudo isto para dizer que a nossa visão de literatura como algo ligado obrigatoriamente a um texto que tem de ser lido individualmente é muito recente.  Eu nem estou necessariamente a favor do Nobel a Dylan. Preferia que o prémio tivesse ido para outros possíveis candidatos. Mas parece-me salutar que a Academia tenha uma visão lata do que é Literatura, uma visão lata da importância da Palavra, seja ela escrita ou oral e especialmente, uma visão que obviamente sabe de onde tudo isto veio.

Comments

  1. Anónimo says:

    De facto, hoje, sobrevaloriza-se a forma, em detrimento do conteúdo.
    Na verdade, a forma deve ter a função de reforçar o valor, o sentido, e a razão do conteúdo.
    Não é o conteúdo que tem de se submeter à forma.

  2. Rui Naldinho says:

    Ontem li um comentário do escritor Richard Zimler que vive em Portugal, e me pareceu bastante adequado. adequado. A tradução pode não é a melhor mas não altera o sentido do texto.

    ” Demos os parabéns a Bob Dylan, e pronto!”
    ” Muitas pessoas levam o prémio Nobel demasiado a sério. Alguém realmente acha que alguns “especialistas” na Suécia possam avaliar a literatura escrita em japonês, bengali, chinês, francês, norueguês e húngaro ao mesmo tempo?
    Sinto muito, mas eles não podem. E mesmo se pudessem, como é que eles vão comparar a qualidade da escrita de autores de tantos países diferentes? É impossível!
    Então, o prémio foi sempre, e sempre será sobre outras coisas – geografia, filiação política, estilo de escrita, influência…
    Alguém acredita realmente que Dario Fo foi melhor, ou é um dramaturgo mais influente do que Tennessee Williams, George Ionesco e muitos outros? Não, ele recebeu o prêmio por outras razões. Que tal Eugéne Mondiano…. Ele é mesmo “melhor” escritor do que Philip Roth ou 200 outros escritores de diferentes países?
    Você tem que estar no lugar certo na hora certa a ganhar o prémio – e ter o apoio do seu país, partido político, etc… e assim está tudo bem, porque, mais uma vez, não é sobre a qualidade.
    Se fosse só sobre isso, um monte de escritores que nunca o conseguiu, teria ganho. Querem nomes?
    Que tal Willa Cather?
    Ah, mas ela era uma mulher que escrevia sobre assuntos rurais, então retiraram-na.
    Que tal Allen Ginsberg, que escreveu o poema mais influente da última metade do século 20 (“Uivo”)?
    Ah, mas ele era gay e judeu, então esqueçam isso.
    Que tal George Orwell, cujo “1984” foi um dos livros mais influentes de todos os tempos, e que era um brilhante teólogo. Oh, bem, ele era um anarquista, por isso ele fica de fora.
    Vamos lá pessoal, toca a acordar e sentir o cheiro do café! ”

    Bravo Richard!

    • Zimler revela somente algum poder de encaixe porque não aceitou a atribuição do prémio. Depois tem uma exacerbada sensibilidade ao facto de ser gay e judeu. O prémio Nobel da Literatura já foi dado a judeus, a gays e a mulheres (a primeira em 1909). O texto não me pareceu nada adequado. Aquilo a quem em Portugal chamamos: dor de cotovelo.

  3. carlota says:

    Prémio merecido. Basta saber ouvir https://www.youtube.com/watch?v=e7qQ6_RV4VQ “o tempo muda”:)

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