As duas realidades em que vivemos são ambas alternativas à realidade


Rui Naldinho
Pedro MagalhãesPedro Magalhães

Pedro Magalhães, sociólogo e professor universitário, mais conhecido dos telespectadores pelas noites eleitorais na RTP, com as sondagens da Universidade Católica, onde na altura trabalhava como investigador, deu uma entrevista ao DN, este sábado.

A entrevista é extensa, aborda o comportamento do eleitorado em geral e, do cidadão português em particular, o extremismo de direita na Europa e as eleições americanas.

Não concordando com tudo o que ele diz e, com uma parte da narrativa que ele constrói na sua análise, ele afirma no entanto coisas que nos fazem meditar, nomeadamente, por que razão as redes sociais serão no futuro recente, o mais importante veículo de captação de eleitores.

De certa forma ele considera dois planos distintos na informação. Um, no qual existem os factos e ocorrências que darão origem à notícia, mas que, permanente manipulados pelos “Spin Doctor’s” de ambos os lados, procuram que ela mesma seja absorvida por um determinado prisma e, passo a citá-lo:

“A informação existe, está nas estatísticas, é comentada nas notícias, mas o spin é tão grande que as pessoas acabam por interpretar os factos de acordo com as suas predisposições”

Digo eu: É neste plano que entram aqueles comentadores arregimentados, pagos para contrariarem o chamado senso comum. Um exemplo bem recente: A famosa sobretaxa do IMI para património imobiliário acima dos 500 mil euros de valor matricial. Esse era o valor sugerido inicialmente por Mariana Mortágua. A sobretaxa começou por ser uma ideia mais ou menos bem aceite pela maioria da população, que, nem de perto nem de longe tem esse património familiar. A forma como grande parte da comunicação social tentou criar ruído à volta da medida foi sintomática. Ela acabou por deixar as pessoas na dúvida. Pois, mas o fim era mesmo esse! A certa altura parecia que o famoso imposto de selo sobre imóveis acima de um milhão de euros, da dupla Passos Coelho/Paulo Portas, tinha sido mais justo, o que de facto não foi. A receita arrecadada nesse período de 2015 foi pouco mais de 40 milhões de euros. Uma insignificância face ao muito património existente. Esta prevê 160 milhões, ainda assim fica muito aquém do expectável. Mas, com a ilusão dos números em abstracto, 1% do valor do imóvel, face aos 0,3% da actual proposta, sem se perceber de facto, se o alcance da medida anterior surtiu o efeito desejado, isso leva as pessoas ficarem na dúvida?

O segundo plano assenta no pressuposto de que queremos interpretar a notícia seguindo por uma estrada que partilhamos com outros. Essa é a razão pela qual eu sempre defendi que as redes sociais, com todos os defeitos que esse fenómeno transporta em si mesmo, e, infelizmente o “campo aberto” também têm algumas desvantagens, uma vez que todo o energúmeno vê aí um bom sítio para acicatar paixões e ódios, elas no entanto são um bom espaço para que se possa partilhar a informação, a análise e a crítica, sem estarmos permanente a ser intoxicados com o “spin” debitado na comunicação social sob a forma de análise política e económica, por gente que tem agendas próprias. Apesar de tudo, preferimos uma certa anarquia das redes sociais.
Os jornais cada vez têm tiragens mais baixas. A maioria deles dão enormes prejuízos, e só existem porque têm uma agenda política para implementar na cabeça dos cidadãos. Quem os detém está associado a grupos económicos que necessitam de criar um clima psicológico favorável aos seus intentos. Caso contrário, ninguém quereria estar a investir numa coisa que não lhe traz qualquer lucro. Com excepção de um semanário liberal e de um diário sensacionalista, os jornais portugueses, se fossem pelas receitas, já tinham encerrado. As pessoas não lêem jornais porque não acreditam neles. Ficam com dúvidas sob as certezas que lhes são vendidas pelos jornalistas e, não se revêm neles. O leitor recusa-se a ficar estupidificado com teorias conspirativas e propósitos moralistas que estão desfasados da realidade. Dessa forma preferem outros espaços onde se revejam e onde outros coloquem as suas ideias sem uma pré-formatação definida.

Pedro Magalhães tem uma frase que subscrevo:

“As pessoas procuram o seu espaço de conforto nas redes sociais, onde só ouvem coisas que reforcem as suas convicções”

Vale a pena ler a entrevista. Já agora, pensar como somos na maioria das vezes manipulados por uma comunicação social cada vez mais dependente do poder económico. E perceber como os políticos se estão a virar para as redes sociais com intuito de criar mecanismos de controlo de massas.

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