Lettres de Paris #5


La sociologie est un sport de combat*,

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estava escrito no chão mesmo em frente ao Collège de France, na Rue des Écoles. Ontem também passei lá mas não ia, talvez, de olhos no chão. Vi isto ao fim da tarde, quando regressava do Ladyss, onde não estava praticamente ninguém. Conheço muita gente que trabalha em casa. Eu não sou exatamente uma dessas pessoas. Quer dizer, corrijo testes, leio artigos e teses, mas escrever não consigo a partir de casa. Escrever com alguma substância, quero dizer. Desde pequena sempre separei um pouco o trabalho da casa. A casa é sobretudo para descansar e para realizar tarefas menos pesadas. Estudar e trabalhar a sério é uma coisa que sempre fiz fora de casa. Os meus colegas não parecem pensar o mesmo, de maneira, que tive o Ladyss praticamente por minha conta. Minha e do porteiro que fala muito depressa, mas hoje me disse que ia começar a falar comigo ‘plus doucement’. Agradeci-lhe. Fala depressa e para dentro e odeia aparentemente o trabalho que tem. Pelo menos queixa-se muito. Talvez gostasse de ir trabalhar para casa também.

Eu pesquisei bibliografia sobretudo, coisa que não posso fazer a partir da Rue Suger, já que não posso fazer o download dos artigos. Mesmo se pudesse, creio que não gostaria. O estúdio 638 é por enquanto a minha casa e, como tal, leio e escrevo coisas sem importância a partir de lá. O resto farei no Ladyss, com ou sem a companhia dos meus colegas. A partir de dia 1 mudarei para o 614, um pouco maior. Espero que seja um pouco melhor que este, também. Parece tudo contado. Tipo, tenho 2 pratos de cada, 2 garfos, duas facas, dois copos, duas canecas e por aí fora. Não é que eu quisesse dar uma festa, mas… estou certa que me compreenderão. A única coisa relevante é que a louça é portuguesa. Não consigo perceber a marca, mas vejo claramente Portugal, escrito nas costas dos pratos e travessas. Menos mal. Mas sendo tão orgulhosos, bem podiam ter abastecido os armários com porcelana Limoges.
Portanto, passei a tarde toda sozinha, praticamente, no Ladyss. Ouvi umas vozes, mas não vi ninguém. Fumei dois ou três cigarros solitários no pátio. E pesquisei. Quando saí despedi-me do porteiro que me falou ‘doucement’ para dizer ‘bonne soirée madame’. O dia esteve bonito e ainda estava claro quando virei na Rue Lanneau, passei o Impasse Chartière e entrei na Rue des Écoles. Vinha a olhar para o chão é evidente, ao mesmo tempo que falava ao telefone e reparei no recado no passeio: ‘la sociologie est un sport de combat’. ‘La sociologie est un sport de combat’ é o título de um filme-documentário, realizado em 2002 por Pierre Carles, que nunca vi, mas de que ouvi vagamente falar. Mais concretamente, o filme mostra como trabalhava Pierre Bourdieu** – obviamente sociólogo e um dos mais conhecidos, talvez, do público em geral – mostra ‘la pensée en action’ e de que é feito o quotidiano de um sociólogo. Descubro que está disponível em 10 partes no you tube* e talvez o veja completo, num dia de chuva.

 

Foi uma frase do próprio Bourdieu que deu o título ao filme. A sociologia como um desporto de combate, como uma arte marcial, de auto-defesa principalmente. A sociologia como um desporto de combate a mim parece-me sobretudo isso – o combate – a desconstrução critíca de tudo, a constante vigilância crítica, a capacidade crítica mesmo em tempos em que seríamos melhor vistos, calados e alinhados. Se virem o documentário (e eu já vi partes e já li muitos dos seus livros, bem entendido ‘métier oblige’) é isso que Bourdieu faz, de forma brilhante, essa desconstrução permanente da realidade. Isso é a sociologia. Esse desporto de combate. Gosto de ser socióloga. Já disse por aí que poderia ter sido outras coisas, na vida. Mas atendendo a que só temos uma e no espaço de uma vida é difícil ser tudo aquilo que se poderia ter sido se… a verdade é que talvez não pudesse ter sido outra coisa senão socióloga. Imagino Bourdieu andando pela Rue des Écoles, ou pelo Boulevard Raspail, onde fica a EHESS – École des Hautes Études en Sciences Sociales (e onde espero ir participar em alguns seminários sobre ‘Ruralités Contemporaines’, muito em breve) e sinto-me bem de partilhar o ofício com ele, embora nunca, jamais, a inteligência, a lucidez e a enorme capacidade de desconstrução da realidade.

Quando vi a frase escrita no chão, em frente do Collège de France, a primeira pessoa em que pensei foi no Rui. A frase do Bourdieu aplica-se-lhe na perfeição. Está quase a fazer um ano que o Rui morreu, que deixou de praticar esse desporto de combate que é a sociologia. Lembro-me muitas vezes, e aqui quase todos os dias, das coisas que o Rui me contava sobre França, sobre Paris (onde viveu muitos anos) e sobre as lutas estudantis, quando era estudante aqui mesmo na Sorbonne. Tenho saudades do Rui. Há realidades que nem a sociologia pode desconstruir. As saudades. A morte.
*todos os 10 capítulos do documentário de Pierre Carles ‘La sociologie est un sport de combat’ podem ser vistos aqui
** uma breve biografia de Bourdieu pode ser encontrada aqui

Comments

  1. Nascimento says:

    Bom Domingo😁.Realmente é por este tipo de frases escritas sobre um qualquer muro ou passeio que os Franciús são um espetáculo. Como uma vez alguém disse:” Não temos petróleo mas ideias não faltam “.E isso torna uma cidade como Paris única! Chapeau😁 .

    Ps.Espero que os apaniguados do Camelo Lourenço se roam de inveja…vá vão ler folhinhas de Excel seus ” modernaços”😁.

    • Elisabete Figueiredo says:

      Não é só por isso que são um espectáculo, mas também por isdo. Vai ser um bom domingo. O céu está azul e há muito sol. Bom domingo também para si.

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