Le Pen: em nome do pai


 

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Por João Branco e Natascha Figueiredo

Marine não é Jean-Marie; é muito mais que Jean Marie. E é esse o facto que a torna mais perigosa que o pai. Marine herdou alguns dos traços político-identitários da liderança do pai mas soube também afastar-se da sua imagem tóxica de simpatizante nazi, promovendo um nacionalismo populista (iniciado pelo pai) que vai de encontro ao que o eleitorado francês neste momento quer ouvir. A verdade é porém, que todas as circunstâncias e problemas que enevoam o espectro político francês actual com o espectro político francês pré-eleitoral em 2002 não são os mesmos. Marine beneficia de um peculiar caos no país para colher benefícios. Em 2002, Jean-Marie levou a cabo uma campanha marcadamente ideológica, campanha que naturalmente o afastou da vitória na 2ª volta das presidenciais desse ano, muito por culpa do chamado “voto útil” em Jacques Chirac. O que efectivamente pode não acontecer no presente ano nas eleições que se avizinham com Marine.


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Recuemos até às presidenciais de 2002. Jean-Marie Le Pen estava no seu auge político. Alicerçando a sua propaganda nos temas fracturantes da França de então (a imigração; a violência urbana, a alta taxa de desemprego, taxa que nesse ano atingiu os 8% da população activa) com um forte e vincado discurso xenófobo e bastante próximo da ideologia nazi (basta mencionar que estamos a falar da pessoa que se referiu às câmaras de gás nazis e ao próprio holocausto como um “mero detalhe da história”) Jean-Marie Le Pen conseguiu na altura seduzir grande parte do eleitorado  autóctone não-imigrante, franja da população que efectivamente partilhava do mito que os imigrantes das ex-colónias eram os principais responsáveis pelos males da sociedade francesa.

Por outro lado, o cenário político verificado em 2002 era um perfeito aliado para as políticas de Le Pen. Desde há 5 anos que se verificava uma coligação entre a esquerda moderada de Jospin e a direita conservadora de Chirac. A longa coligação das forças vivas francesas abriu uma porta de entrada, pelo cansaço popular, ao surgimento de uma cara nova capaz de abalar o status quo existente. Estamos a falar de uma altura da vida francesa em que não haviam atentados terroristas, crises de refugiados, um diktat alemão nas instituições europeias, e por aí adiante. Falamos portanto de uma era em que a adopção de uma estratégia de campanha populista não era tão vincada como é nos nossos dias.

Jean-Marie não era na altura, e aliás, nunca o foi, aquele político ponderado, capaz de ter a noção do que era “politicamente correcto” e de respeitar timings políticos. Se até aí ele nunca tinha sido levado a sério, havendo quem, na imprensa francesa o tomasse como um louco ou como uma cópia bastante mal tirada do Marechal Pétain, o que efectivamente é correcto afirmar é que, nas presidenciais de 2002, o eleitorado francês começou a vê-lo como uma alternativa à estagnação provocada pela aliança Chirac-Jospin, apesar do próprio Jospin ter vindo a candidatar-se também ele ao cargo de Presidente da República Francesa nesse ano.

Com o melhor resultado eleitoral de sempre do seu partido em actos eleitorais, Le Pen abanou a sociedade francesa, ao atirar o Partido Socialista Francês para o 3º lugar na primeira volta das presenciais e o primeiro-ministro de então para fora da carreira política. Num acto eleitoral em que 29,5 dos 41,2 milhões de eleitores registados foram as urnas na primeira volta, ou seja, uma abstenção de 11,7 milhões de pessoas, Le Pen fez soar os sinais de alarme de uma perigosa viragem à extrema-direita, o que levou efectivamente, a uma segunda volta repleta de factos curiosos: um aumento do número de eleitores votantes em cerca de 3,5 milhões em relação à primeira volta, e o encerramento de fileiras à volta de Chirac. Esta estratégia surtiu portanto o efeito desejado, levando praticamente todos os partidos moderados do cenário político francês a apelar ao voto útil em Chirac que haveria de vencer a segunda volta com uma esmagadora percentagem de 82,21% dos votos.

Como referimos anteriormente, 2002 marcaria o auge da carreira política de Jean-Marie Le Pen. Retirado da vida partidária em 2010, substituído pela filha em 2011 após votação interna, a primeira decisão que Marine Le Pen tomou foi a de demarcar-se obviamente da imagem xenófoba do pai, sem modificar contudo, os traços político-identitários e o vigor ideológico do partido. A operação de cosmética, culminou em 2015 com o afastamento do pai do Partido (Jean-Marie deixou de ser presidente honorário da Frente Nacional Francesa) após a afirmação de que o holocausto era “um mero detalhe da história”. Ou seja, assistimos nesse ano a uma clara suavização do discurso, que, presentemente, aliada ao cenário de completo caos em França, provocado pelos atentados terroristas de Paris, pela degradação das condições de vida do povo francês, pela crise económica de 2008 em diante e pelos sucessivos escândalos que envolveram vários políticos franceses de Sarkozi a Hollande, passando por Valls e pelo actual candidato François Fillon, levam Marine Le Pen a conseguir transmitir aos franceses a imagem de um partido estável, forte, grande, capaz de prover segurança, crescimento económico, a resolução dos problemas sociais crónicos do país no que diz respeito à imigração e a ideia que os franceses “puros”, ou seja, os que não descendem da imigração devem tomar novamente as rédeas do país por oposição às imposições da União Europeia.

Se em 2002, o voto útil afastou Jean-Marie do poder, em 2017 esse mesmo voto útil poderá ter outro resultado, visto que está nas mãos de Marine. Os mesmos que hoje se sentem ameaçados pelo terrorismo islâmico numa sociedade em que a população da diáspora islâmica tende a crescer são aqueles que darão o seu voto a Marine Le Pen. São aqueles que acreditam que a Frente Nacional poderá ser a solução para os seus problemas ao nível da segurança nacional, do emprego, das condições de vida. O que torna Marine Le Pen extremamente perigosa reside no facto desta sensação de moderação ser falsa. Marine Le Pen aproveita-se do medo que grassa na população francesa para apresentar as mesmas soluções do pai, travestindo-as como políticas indispensáveis à segurança e ao bem estar de todos os franceses, o que não é verdade. Não é verdade por exemplo que a expulsão de imigrantes vá automaticamente resolver os problemas económicos ou problemas da criminalidade nas cidades. Não é verdade que a expulsão de centenas de milhares de emigrantes e dos seus descendentes vá automaticamente deixar vagos milhares de empregos, porque no fundo todos sabemos que a imigração por defeito realiza os trabalhos que os franceses não querem. Também não é verdade, por outro lado, que a França tenha neste momento capacidade para sair da União Europeia e voltar por exemplo aos tempos do Franco. Voltar neste momento à antiga moeda nacional para qualquer país da zona euro é o cenário ideal para fazer rebentar uma autêntica catástrofe económica pela inflacção que tal decisão irá gerar, pela desvalorização dos depósitos bancários, consequência que poderá rebentar em definitivo com o tecido bancário, pela óbvia redução do poder de compra, pela subida das taxas de juro, entre outros factores com custos muito elevados que a economia francesa (e qualquer outra economia europeia, até mesmo a Alemã) não poderão suportar.

Comments

  1. Não deixa de ser curioso ver lançada para a campanha a suposta homossexualidade de um candidato (Macron), num país que durante anos conviveu com a vida dupla do Presidente Mitterrand…
    Por outro lado o candidato da Direita, Fillon, está envolvido num escandalo financeiro, mas ao que parece Marine Le Pen não tem as mãos limpas…
    https://www.publico.pt/2017/02/01/mundo/noticia/marine-le-pen-recusa-devolver-dinheiro-ao-parlamento-europeu-1760405
    Penso que em relação às eleições em França a procissão ainda vai no adro…

    • Rui Naldinho says:

      O problema é que a grande maioria do eleitorado que vota em Marine Le Pen, o fixo, que corresponde a cerca de 25% do eleitorado francês, no presente, a ver vamos no futuro, não está muito preocupado com o seu escândalo financeiro dela ou do seu partido, a FN, que diga-se em abono da verdade, comparado a alguns bem mais escandalosos e mediáticos, estes parecem peanuts. Evidentemente que a ser verdade, isto não deixa de ser crime. Não é por se roubar poucochinho que se deixa de ser ladrão. Não é por alguém fazer corrupção “barata”, e tráfico de influências em negócios de bares de hospitais, ou nas cantinas escolares, que deixa de ser corrupto.
      As pessoas estão revoltadas, pronto. Revoltadas e desiludidas com uma grande parte da classe política, em especial, o eleitorado mais velho duma certa classe média, que tal como na América foi sendo deixada na borda do prato qual casca de banana, por estar “ultrapassada tecnologicamente” pelos mais novos. É esta gente que vê o mundo desabar-lhe debaixo dos pés.
      Quando se chega a este patamar, o desespero toma conta daquelas mentes, e elas estão dispostas a experimentar tudo. Não têm nada a perder. Como não sabemos a dimensão deste problema, por que também nunca nos interessou saber, diga-se, só nos damos conta dele, depois dos atos eleitorais. Foi isol que aconteceu nos EUA.
      É óbvio que Trump não vai resolver problema nenhum, e vai ficar tudo na mesma, ou pior ainda. Hoje uma fábrica de automóveis trabalha três turnos diários com metade do pessoal que tinha em 1980.
      Mas admitindo que Trump conseguisse reverter a deslocalização industrial dos grandes grupos económicos dos EUA para o Mexico, Colômbia, Brasil, China, por exemplo, não sei se estas ideias não teriam pernas para andar?
      Foi assim que no passado certas coisas que me escuso recordar-lhe começaram.

  2. Rui Naldinho says:

    O artigo que transcrevo em baixo, foi escrito pelo jornalista desportivo Olivier Banamici. Não sendo este cidadão francês especialista em política internacional, é no entanto como cidadão gaulês, uma pessoa atenta áquilo que se passa no seu país. Vindo de uma pessoa tão terra a terra, tão simples, e sem preconceitos, como alguns jornalistas eruditos, com a mania que sabem tudo, mas às vezes só dizem disparates, gostei do texto que escreveu e com o estou genericamente de acordo.

    ” Le Pen não vai ganhar as eleições”

    “O tio, caso a Marine le Pen chegue à segunda volta, serias capaz de votar nela?” “Nunca na vida, Olivier!” Sempre que volto para a França durante o Natal, gosto de falar de política com o meu tio.
    Ele, como quase toda a minha família, irá votar à direita nas eleições presidenciais de 2017.
    Mas todos eles continuam a ter uma alergia brutal em relação à Frente Nacional.
    Sei que depois do brexit, de Donald Trump, o “ideologicamente correto” prevê agora um novo trambolhão na vida política mundial com a eleição de Marine le Pen.
    Essa previsão já foi feita na comunicação social portuguesa.
    Até parece que em segredo, alguns desejam essa vitória para terem mais uma prova de que o povo deu uma nova lição às elites.
    Mas isso não irá acontecer. O que se verifica na minha família é o que acontece na maioria das famílias em França.
    Costumo dizer que a Frente Nacional é como a Juventus, o clube de futebol mais amado e ao mesmo tempo mais odiado da Itália.
    Na primeira volta das eleições, o partido de Le Pen deverá ser o mais votado. As sondagens dão-lhe cerca de 25 por cento dos votos.
    O problema para a extrema-direita, como se verificou nas eleições regionais de 2015, é que existe uma segunda volta e aí, nas sondagens, Le Pen não consegue ultrapassar a barreira dos 35-40.
    Marine le Pen tem o mesmo problema do que o pai quando houve contra ele em 2002 uma grande mobilização do eleitorado de esquerda e de direita. Resultado: Chirac ganhou com 82 por cento dos votos!
    A única esperança para a filha em 2017 teria sido defrontar na segunda volta Nicolas Sarkozy ou François Hollande, porque aí, o eleitorado tradicional de esquerda e de direita teria hesitado em dar o seu voto aos dois homens que tanto desiludiram ao longo dos anos.
    Só que desta vez, o eleitorado não vai hesitar.
    O candidato da direita não é Sarkozy e no caso de uma segunda volta Fillon-le Pen, a maioria dos eleitores de esquerda irá votar para o candidato da direita conservadora.
    Mas a pior notícia para Marine le Pen é defrontar na segunda volta o candidato da esquerda, em princípio será Emmanuel Macron, representante da ala liberal e que agrada também ao eleitorado tradicional da direita.
    Resultado, nas sondagens, tanto o Fillon como o Macron ganhariam à Marine le Pen com cerca de 20 pontos de vantagem!
    O problema para a extrema-direita é que surgiram nos últimos meses dois outros candidatos “antissistema”. Um deles é Macron que não tem a etiqueta do PS e que tenta reunir a esquerda e a direita: uma jogada inteligente numa altura em que os franceses rejeitam cada vez mais os partidos tradicionais.
    O outro candidato antissistema é Jean-Luc Melanchon, representante da extrema-esquerda, que reúne 15 por cento das intenções de voto e cujo discurso antiliberal atrai cada vez mais a juventude francesa e o eleitorado de Melanchon nunca irá votar em Le Pen na segunda volta!
    Resta saber se as sondagens podem ou não enganar-se ao ponto de a Frente Nacional recuperar os 20 pontos de atraso.
    Duvido que seja possível, sobretudo porque em França, nos seus cálculos, as empresas de sondagens já levam em conta os eleitores que não assumem votar na extrema-direita.
    Mas Marine le Pen deverá estar na segunda volta e poderá orgulhar-se de ter melhorado claramente o resultado do pai em 2002 (18 por cento para Jean-Marie e de 35-40 para Marine segundo as sondagens). Será um aviso forte para o futuro. Com este ritmo, a Frente Nacional poderá em 2022 ou 2027 ganhar as eleições. Sim, talvez. Só que na Frente Nacional prepara-se uma outra luta para a direção do partido entre Marine e a sua sobrinha Marion, ainda mais radical do que a tia. Marion Marechal le Pen, uma jovem talentosa de 27 anos, cada vez mais apreciada pelo eleitorado de extrema-direita.
    “Ó tio serias capaz de votar para Marion Marechal le Pen?”
    “Nunca, Olivier! É pior do que a tia! É contra o aborto e contra o casamento gay.”
    O mais amado e o mais odiado: é o problema recorrente da Frente Nacional.

    OLIVIER BONAMICI ( Jornalista da Eurosport)

  3. Paulo Só says:

    O grande problema na França, e não só na França, é que a classe política se habituou a considerar normal que mais de 50% dos cidadãos sejam contra o sistema – ou se abstenham – como é sobretudo o caso em Portugal. Passadas as eleições o campo que ganhou o derby particular entre as fações pro-sistema toma o poder e é business as usual. Isto é possível porque na realidade o poder já não está nas mãos dos políticos, nem dos eleitores, mas sim da Goldman Sachs e outros bancos e fundos, como o Durão Barroso bem entendeu. Por que a direita é tão burra na França e em Portugal? Porque os verdadeiros chefes da direita estão no verdadeiro poder, no Banco Central Europeu, nas agências de notação, nos lobbies dos bancos e fundos de investimento. Só assim se pode entender que por exemplo o Deutsche Bank tivesse em 2015 uma carteira de cerca de 42 mil bilhões de euros em produtos derivados 14 vezes o PIB alemão, ou seja cerca de 2/3 do PIB mundial! Poucos são aqueles que nos podem dizer o que aconteceria se o DB falisse. Aliás poucos são os que nos explicam como a Grécia poderá sair do Euro. Claramente as vítimas não serão os Gregos mas os contribuintes e os depositantes dos Bancos entupidos de swaps ligados à permanência ou não da Grécia na zona euro. Por isso o BCE injeta sem parar euros no sistema financeiro, ou seja, socializa o prejuízo, comprando essa porcaria toda. O sistema está de tal modo a meter água que não se sabe o que é pior, que ele se conserte ou que estoure de vez. O problema não reside portanto nos bens do Senhor Domingues, embora eu tenha curiosidade em saber o que ele tem a esconder de forma tão radical. Porque é óbvio que a oligarquia continua e continuará a encher os bolsos à custa dos que votam Le Pen. Vai chegar o momento em que os extremos anti-sistema de direita e esquerda se tocarão? Não creio, porque, como se vê com o Trump, a extrema-direita está dentro do sistema.

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