A árvore, esse objecto que suja e atenta contra o betão…


João Paulo Forte *

A ecologia é uma palavra vã na cabeça de muitas pessoas, talvez pela preocupante iliteracia ambiental. À medida que o Ser Humano traça um caminho divergente face ao mundo natural, numa espécie de ambiente asséptico, este começa a perder algo de fundamental. O discernimento acerca da importância das interacções entre os seres vivos e o meio físico tem-se perdido a uma velocidade vertiginosa, talvez causado por um capitalismo feroz, onde o dinheiro e a posse são quem mais ordena. E isto tudo numa sociedade dita informada, onde há um evidente excesso de informação em termos quantitativos, mas um défice crónico em termos qualitativos. É a ironia das ironias, conseguimos fazer evoluir várias tecnologias e, ao mesmo tempo, enquanto sociedade, perdemos capacidades fundamentais para uma vivência sã e devidamente sustentada. Cada vez são menos o que efectivamente entendem que a afectação de um elemento afecta a dinâmica do todo, do geossistema.

Cada vez mais agimos como se não fizéssemos parte do biótopo e distanciamo-nos da biocenosis, o que é preocupante, dado que somos todos parte integrante do ecossistema. E não, não espero que exista um biólogo em cada esquina. Contudo, seria de esperar que, no geral, conseguíssemos traduzir aquilo que está à nossa frente, tal como os nossos antepassados o fizeram sabiamente.

Tudo isto tem consequências e a vários níveis.
Mas balizemos isto ao nível dos espaços verdes urbanos.
Actualmente, e genericamente falando, um espaço verde urbano é para muitas pessoas um espaço com umas árvores e relva, esse bicho sem valor ecológico propriamente dito. É difícil encontrar alguém que distinga os tipos de espaços verdes urbanos, casos de parques, jardins, arruamentos, cemitérios e pracetas. O mesmo se passa que formos à componente arquitectónica e florística dos mesmos. Ou então se quiser saber algo sobre as funções e estilos de cada um deles. Escusado será falar sobre as heranças dos jardins urbanos, especialmente tendo em conta a politica do chapa 5 desenvolvida nas últimas décadas, pois isso já é hardcore.

A profissão de jardineiro é considerada como uma profissão de pouca relevância social, sem grande nobreza e com reflexos a nível de ordenado.

E aplicando tudo isto à cidade de Braga, como será o cenário? Pobre, pois basta dar uma volta pela cidade para entender que a politica de espaços verdes não é sequer uma politica de espaços verdes. Os seguidistas dos partidos A, B ou C podem dizer que fizeram mais do que os outros, contudo, e olhando para trás, pouco mudou nesta cidade. O paradigma continua igual ao de há muitos anos atrás, é um facto. A sensibilização ambiental é uma frase muito utilizada em ano de eleições. Faz-se pouco e o que se faz não chega aos mínimos.

Há uns dias fiz algo que podia fazer todos os anos num dos espaços verdes/desportivos que mais frequento, os campos da rodovia. Tirei uma fotografia de um dos muitos montes de folhas que por ali foram feitos por esta fase do ano. Podia ter tirado uma foto de uma das muitas árvores cortadas sem justificação em Braga, mas isso seria um cliché. Preferi as folhas, pois além de não ser um cliché, é um bom ponto de partida para entender o que disse atrás sobre o distanciamento que temos sobre a Natureza, da qual, imagine-se, fazemos parte. Uma heresia para alguns. Seria de esperar deixar ali as folhas, de forma a que a fertilidade do solo aumentasse e, assim, a biodiversidade aumentasse naquele sector daquele espaço verde, contudo acha-se melhor gastar dinheiro a mandar as folha sabe-se lá para onde. A folha é vista da mesma forma que um bocado de lixo mandado ao chão, que tem de ser limpo. Esta mentalidade está bem enraizada nas mentes de quem nos governa e de quem deveria saber do assunto. A árvore produz lixo, é a forma de pensar de muitas pessoas. A árvore é um mero adorno, o qual, estorvando pode ser cortado a qualquer momento sem qualquer justificação. E mesmo havendo justificação, é uma maçada informar os munícipes. Não se imagina que a árvore tem imensas funções. Não se imagina a árvore e os espaços verdes como instrumentos para melhorar a qualidade de vida de milhares de pessoas numa cidade onde o betão é quem mais ordena. Agora imagine-se o impacto negativo que tudo isto vai tendo nas gerações mais novas, as quais pensam que este caos é excepção, quando afinal é a regra.

* Geógrafo

Comments

  1. Konigvs says:

    Jardineiro, provavelmente uma das mais nobres profissões, tal como gostava de ser tratado Marques Loureiro. Hoje é mais chique engenheiro-agrónomo ou arquiteto paisagista, mesmo que as pessoas muitas vezes não tenham a mínima sensibilidade para o assunto, por exemplo para defender as autóctones. É mesmo de lamentar que as autarquias não tenham gente verdadeiramente sabedora desses assuntos, tal como é de lamentar que as pessoas em geral estejam cada vez mais distanciadas da natureza, tal como é de lamentar que cada vez mais se vão perdendo os conhecimentos acerca dos medicamentos naturais que são as plantas, em detrimento dum comprimido e da indústria das drogas que é a indústria que mais dinheiro dá, só sendo suplantada pelas armas. É curioso até, como em Portugal, país da Europa que provalmente mais horas de sol tem, e onde temos as pessoas mais deprimidas. E toda a gente corre para o psiquiatra, quando provavelmente bastarias-lhes apanhar sol. Estamos a aniquilar a Natureza,um dia será ela a aniquilar-nos.

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