Agir com base na solução e não na prevenção – a actuação diplomática portuguesa no caso de Almaraz

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O Ministério dos Negócios Estrangeiros Português retirou a queixa que mantinha desde dia 16 de Janeiro contra o governo espanhol na questão de Almaraz. Em troca da retirada da queixa, o governo espanhol concordou em tomar algumas medidas provisórias (não avançar com o processo de construção enquanto nos próximos 2 meses não ceder toda a informação sobre o assunto ao governo português; técnicos portugueses e da Comissão Europeia irão realizar uma vistoria técnica à central), o que levou o Ministro Artur Santos Silva a declarar-se disponível para realizar uma nova queixa se o governo português entender daqui a 2 meses que continua a ter motivos:

“Ao fim dos dois meses, faremos o balanço. Se Portugal entender que continua a ter motivos para que a queixa prossiga o seu curso, a mesma mão que assina a carta a retirar a queixa, assina a carta a repô-la” – retirado aqui.

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Gaia, o suplício das Árvores

Onde anda o PAN? E “Os Verdes”? Quem pára isto?

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A árvore, esse objecto que suja e atenta contra o betão…

João Paulo Forte *

A ecologia é uma palavra vã na cabeça de muitas pessoas, talvez pela preocupante iliteracia ambiental. À medida que o Ser Humano traça um caminho divergente face ao mundo natural, numa espécie de ambiente asséptico, este começa a perder algo de fundamental. O discernimento acerca da importância das interacções entre os seres vivos e o meio físico tem-se perdido a uma velocidade vertiginosa, talvez causado por um capitalismo feroz, onde o dinheiro e a posse são quem mais ordena. E isto tudo numa sociedade dita informada, onde há um evidente excesso de informação em termos quantitativos, mas um défice crónico em termos qualitativos. É a ironia das ironias, conseguimos fazer evoluir várias tecnologias e, ao mesmo tempo, enquanto sociedade, perdemos capacidades fundamentais para uma vivência sã e devidamente sustentada. Cada vez são menos o que efectivamente entendem que a afectação de um elemento afecta a dinâmica do todo, do geossistema. [Read more…]

Negócios da Índia

sakhti
Desde o seu planeamento em 2006 que o novo Parque Empresarial de Águeda, o Parque Empresarial do Casarão, obra pensada, projectada e comercializada pelo executivo socialista aguedense, executivo que cessará funções este devido à impossibilidade de Gil Nadais se recandidatar ao cargo, está envolto numa enorme polémica e é motivo de discussão entre os munícipes.

A longa demora nas obras, a falta de empresas interessadas na aquisição de lotes no referido espaço para construir unidades de produção, a desistência verificada por parte do LIDL em ali se sediar com um novo entreposto de mercadorias para a região centro, devido às péssimas acessibilidades rodoviárias de acesso ao Parque, o excessivo despesismo cometido pela autarquia em 2012 na instalação de postes de alta e média tensão no parque quando ainda não existia nenhuma empresa a laborar no espaço, aliada a um forte consumo energético 24 sobre 24 horas da iluminação pública que se verificou desde 2012 até aos dias de hoje, para literalmente nada produzir foram alguns dos problemas publicamente levantados sobre a forma em como foi gerido todo o processo por parte do executivo camarário aguedense.

Porém, os problemas não se resumem ao que acabei de enunciar…

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Portugal a Arder

Assunção Cristas anuncia candidatura à presidência do CDS-PP

Sou uma pessoa de fé. Esperarei que chova
Até lá, institui-se o eucalipto como desígnio nacional.
#PrayForPortugal

O nosso pobre saber agricola

rosa da paz

a rosa da paz

Nos tempos que correm apenas podemos pensar sobre 

O NOSSO POBRE SABER AGRÍCOLA

O título do ensaio não é ironia, é uma lembrança de uma questão colocada a minha filha mais velha, nos dias dos seus cinco anos. Vínhamos da Grã-Bretanha, por causa de saber se o socialismo materialista histórico votado em sufrágio universal, tinha ou não sucesso. Bem sabemos hoje que assim não foi. Mas, tornemos aos anos 70-73 e a questão colocada a Paula; filha, de onde nascem as alfaces? A sua resposta foi simples; dos cestos do mercado, sítio certo das compras da sua mãe, quem se acompanhava com ela, ainda não habituada a estar de volta ao País do Frio ou Chili em língua Quechua. Especialmente ao sítio solicitado por mim, ao nosso Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Chile; la sede de Talca, porque era denominada a cidade o rim da aristocracia chilena. Era da Província do Maule, espaço geográfico onde se encontravam os maiores latifúndios do país. O objectivo do Presidente era a reforma agrária e entregar a terra a quem a trabalhava e não apenas ser da propriedade de uma família que estava sempre em Santiago, por serem profissionais e por causa do estudo dos filhos. A

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o dia internacional da mulher no natal

o trabalho que dá à mulher comemorar o dia de natal

Nestes dias, temos falado de Natal, de Orçamento de Estado, de presentes, mas nunca da mulher internacional que prepara estas festas. Essa mulher que trabalha, não apenas para ganhar um ordenado, mas também em labores domésticas, como esse de preparar o natal e as comidas da festa, limpar a casa, limpar às crianças a casa, os tachos e ornamentar a mesa da festa. Difícil tarefa especialmente em dias como este, com frio, chuva e lama que desfaz ornamentos, suja a casa, dá frio e sono e faz das crianças uma sujidade, após banhos, penteados que as mães têm tomado esse especial cuidado para mostrar o melhor do melhor. Será que consegue? Para saber, falemos de mulheres…

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em nome do pai, e do filho e do esp…

A criança traída. Canção sem Palavras.

A fórmula é conhecida no mundo cristão, seja ele Romano, Ortodoxo, Calvinista, Presbiteriano, Adventista, ou outro. É a fórmula usada no ritual de entrada de uma criança no mundo social. Tenho referido, noutros textos meus, que os seres humanos são inaugurados na interacção social, por meio de ritos. Rituais, nos quais a Igreja Romana é prolixa. Outras Igrejas têm apenas dois rituais de iniciação: o baptismo e o matrimónio. Eventualmente, os Presbiterianos a Ceia do Senhor ou Comunhão.
Confissão, apenas os Romanos e a Alta Igreja Anglicana ou High Church da Grã-bretanha, que Isabel I, teve o cuidado de guardar para si, para os seus pares e para o futuro. Para saber mais, é preciso ler os meus textos dedicados a esta temática, ou os textos dos cientistas da Religião, os que estudamos a Religião como uma instituição social, organizada pelos seres humanos, como definem Ludwig Feurebach em 1821,

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os aguerridos chilenos

O Morro de Arica, vergonha do Chile

Falar da República do Chile, é falar da fortaleza dos seus cidadãos, da sua força, das suas lutas pelo viver e sobreviver. A República foi fundada a 18 de Setembro de 1810, numa primeira instância. Colónia da coroa de Espanha, e com o rei Fernando VII de Borbon, sequestrado e levado para França por Napoleão Bonaparte, a população do país, especialmente a de Santiago, sentia que não tinha quem a governasse. O Governador, Mateo de Toro y Zambrano, feito Conde da Conquista pelo Rei para poder gerir as suas posses, reunia todos os requisitos para o cargo: Mateo de Toro Zambrano y Ureta (Santiago, 20 de Setembro de 1727Santiago, 26 de Fevereiro de 1811), vizconde prévio de la Descubierta, conde de la Conquista y cavaleiro de la Orden de Santiago, militar e político criollo chileno. Convocou uma reunião de notáveis para escolherem quem havia de governar a colónia, porque não havia rei. Como é evidente, os notáveis eram os senhores de posses, nobres também, como já relatei noutros ensaios, editados neste sítio de debate académico.

De facto, esse 18 de Setembro é uma metáfora por causa do rei Fernando VII, ao voltar do seu exílio em França, querer recuperar as suas colónias. Para isso, enviou um exército que os chilenos, durante quatro anos, souberam muito bem combater até há expulsão dos denominados godos, do território nacional, o que aconteceu em 1818, após a vitória, com colaboração da República Argentina (livre desde 1805), na batalha de Maipú.

Até àquela data, a maioria dos líderes independentistas teve que fugir para Mendoza, na Argentina. Formaram o Exército dos Andes, a cargo do general argentino José de San Martín, no qual participava Bernardo O’Higgins, líder das milícias chilenas. Este Exército Libertador, que inicialmente contava com 4.000 homens e 1.200 militantes da tropa de auxílio, para condução de mantimentos e munições, cruzou a

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Mineiros do Chile. A Ave Fénix do patriotismo

a morte desafiada pelos chilenos, uma Fénix Univesal...

Falar de Mineiros do Chile, todos sabemos o que siginifica: trinta e três pessoas soterradas numa mina de cobre no Norte do Chile, a 35 quilómetros da cidade mais  próxima, Copiapó, desconhecendo-se, durante 19 dias, do seu paradeiro e se estavam vivas ou mortas. A mina de São José, com mais de cem anos de exploração, pertencia ao Estado do Chile, após a nacionalização de todo o cobre existente no país, em 1972, pelo Presidente da República, Salvador Allende.

En 1810, año de su primera junta nacional, Chile producía unas 19.000 toneladas de cobre al año. A lo largo del siglo la cifra fue creciendo hasta convertir al país en el primer productor y exportador mundial. Sin embargo, a finales del siglo XIX comenzó un período de decadencia, debido por un lado al agotamiento de los yacimientos de alta ley y por otro al hecho de que la explotación del salitre acaparaba las inversiones mineras. En 1897 la producción había caído a 21.000 toneladas, casi lo mismo que en 1810. [Read more…]

a nossa esperança no dia de hoje: o resgate dos mineiros do Chile

mulher aimara, à espera do resgate do seu homem

De Isabel Matos Alves (LUSA)

Santiago do Chile, 11 Out (Lusa) — As equipas de resgate esperam começar o salvamento dos 33 mineiros presos numa mina no norte do Chile, desde Agosto último, “a partir da meia-noite de quarta-feira” (hora local), anunciou hoje o ministro das Minas chileno.

“Esperamos começar o processo de resgate a partir da meia-noite de quarta-feira (04:00 em Lisboa) “, declarou Laurence Golborne, à comunicação social nas imediações da mina de San José.

O ministro chileno referiu que os testes realizados, no domingo, à cápsula que irá transportar um a um os mineiros até à superfície foram um sucesso, referindo que o engenho conseguiu atingir os 610 metros de profundidade.



Agradeço a honra concedida de ser português. Antes fui Britânico, filho de espanhóis e outras ervas, que para este texto não interessam. Porque continuo a ser chileno de tomo e lomo, como dizemos em chileno castiço, sendo tomo a acção de aceitar, e lomo, sobre as costas. Porque é sobre as costas que aguentam não apenas os mineiros soterrados, bem como a maior parte dos chilenos que aceitam trabalhos pesados, mal pagos, moram em poblaciones callampas (bairros de lata em português), trabalhando o dia inteiro, acabam por aceitar outros trabalhos paralelos, porque os salários não permitem viver. Se a Europa está em crise económica, o Chile é crise económica permanente. Todos os homens da família vão trabalhar desde muito novos, especialmente nas minas de cobre, que têm cantos que só permitem a passagem de corpos pequenos. A escolaridade obrigatória acaba quando a criança é capaz de trabalhar. Nunca esqueço que na minha dourada juventude, todos os verões íamos às áreas rurais e mineiras para alfabetizar. [Read more…]

o dia da hispanidade e os mineiros do Chile

o dia da hispanidade começa no Chile no rescate dos 33 mineiros soterrados numa mina

Mineiros do Chile soterrados na mina Esperanza do norte do Chile 

Terra, terra, foi a primeira palavra espanhola que se ouviu no que parecia ser um mundo novo. Cristóvão Colombo acabava de provar a sua teoria de que o mundo era redondo, apesar de ele próprio, por morte, não ter assistido à comprovação da sua hipótese. Aliás, nem ele estava certo se era como ele pensava este mundo em que habitamos. Estava convicto de que navegando para oriente encurtava o caminho marítimo para a Índia, daí a designação, Índias orientais, dadas às novas terras. Quem viu pela primeira vez essas terras das Índias orientais, permitindo à coroa de Castela concorrer com os portugueses, que no Século XV eram os seus rivais nas descobertas de todas as terras além Europa, foi o navegador por nome Rodrigo de Triana. Esse grito do marinheiro foi lançado a 12 de Outubro de 1492, às 2 horas, como consta no diário de Cristóvão Colombo, texto editado pela casa Anaya, Madrid, 1985.

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Lautaro. Política indigenista. Bodes expiatórios

com um Lautaro líder, o povo Mapuche não era perseguido pelos Huinca

Gritam os Mapuche desde o centro do Chile: pulchetun… pulchetun… Esta palavra, na língua dos “hombres de la tierra: mapu-che”, quer dizer: faça deslizar a flecha mensageira. Para quem escreve, a mutação da palavra flecha é para chamar à atenção para mais uma das incontáveis dores que o povo originário chileno está vivendo. Desde o dia 13 de Março, um grupo de quatro pessoas, três delas Mapuche, vivem uma greve de fome. Passam mais de cinquenta dias e a situação chega a seu ponto crítico, visto que a partir do primeiro de Maio, os quatro decidiram nem beber água. A vida se esvai e muito pouco está sendo feito para denunciar o terror.

Os grevistas são prisioneiros do Estado, acusados de terem incendiado instalações de uma empresa florestal multinacional. A empresa é responsável pela destruição das florestas e da vida do povo Mapuche que é, afinal, o guardião de Mapu (a terra) e por isso, têm como responsabilidade cuidar de tudo o que fazem com ela. Mas, lá, no Chile, quem virou vítima é justamente quem destrói Mapu e não quem luta para proteger a vida.

Perante esta situação, apenas é possível gritar pulchetún, envie a flecha mensageira a Lautaro o para um como ele., nos tempos de hoje…podia salvar a Pátria e a Nação Mapuche, como fez o Lonco Lautaro no seu tempo – Rei em Mapudungum, a língua da terra em português.

Parece uma lenda mas é uma verdade que não se duvida. Duvidar da existência de Lautaro, e dos Lautaro de hoje, seria duvidar da forma heróica em que se defenderam os Mapuche do Chile da sua habitual liberdade Bem sabemos que o Chile foi a derradeira colónia organizada pelos conquistadores hispânicos, na hoje denominada América Latina.

 Foi fundada por Pedro de Valdivia apesar de ter ser descoberta antes por Diego de Almagro em 1535. Mas achou o país pobre e perigoso e não havia a riqueza em ouro que ele pensava encontrar. Bem se sabe que estes espanhóis não eram soldados, eram convictos espanhóis que andavam a pilhar. Valdívia não, era de profissão soldado do Rei da Monarquia Espanhola. Sabia o que fazia.

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o crescimento das crianças-6ªparte-II-indigenismo

ritual Mapuche, praticado pelos Picunche,para a sua defessa dos Huinca Chilenos

Nguillatun – Ceremonia religiosa

Capitalismo agrário, subdesenvolvimento agrário: imdigenismo

Talvez, podia pensar como Jack Goody fez para a Ghana em 1963, quando pertencia ao Partido do Povo que libertou a Ghana do colonialismo inglês. Quando tentou entender a situação do País com os conceitos ocidentais de Feudalismo e escreve o seu texto Feudalism In Africa? que depois passa a ser o livro de l971, Technology, tradition and the State In Africa, onde tenta perceber a continuidade política que for capaz de guardar a continuidade entre gerações que vivem uma diferente experiência. Mas a sua reflexão, que continua em Production and Reproduction, 1976, não ajuda ao País que é iletrado e que tem as suas próprias continuidades e descontinuidades, que faz estalar a guerra., que tem as suas próprias literacias em signos não escritos, entendidos por eles e não multilingues. Essas guerras já vividas pelos Picunche e Espanhóis, pelos Galegos nos séculos dezanove e vinte. Pelos portugueses, nos mesmos séculos, até acabarem Espanha e Portugal em vias pacíficas para a igualdade subsumida ao capital. E o Chile, numa desigualdade esfomeada também pelo capital subdesenvolvido. O crescimento das crianças de hoje, é fundamentalmente diferente ao crescimento de ontem. O de ontem, tinha um objectivo centralizador da actividade familiar, o obter a terra por meios para todos iguais. Os de ontem, são criados no derrube de um sistema da aristocracia, que eles têm que reconstruir outra vez na base da sua própria força. Os de hoje, têm um objectivo igual, mas que dispersa e tira do elo estruturador antigo, a propriedade rural. O capital é o objectivo individual e autónomo. Como diz o Presidente do Sindicato de Agricultores da Extensão Agrária Galega, há muita gente no campo e é preciso limpar e redistribui-los pelas outras tarefas, encher as cidades e as habilitações, as industrias e a poupança. Fazer de cada um, uma força empresarial. Que já existe na sua mentalidade. Embora Victoria, Pilar e Anabela continuem na ideologia ocidental cristã, esta ideologia não é outra que a que se adapta à

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as culturas da cultura:infantil, adulto, erudito (III Parte)

em procura de habilitações

3ª Parte excerto um livro meu: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral, 1ª e 2ª edição, Fim de Século. Uso o texto de 2ª edição, 2007

A cultura dos doutores

Queira o leitor ter a paciência de entender que me refiro àqueles seres, distantes das aldeias, que pensam por e para a infância.

Não me refiro a eruditos locais, dos quais já falei antes. Vou referir – me ao conjunto de pessoas que se exprimem por meio de textos e domesticam o imaginário local da criança, quer dizer, do futuro adulto.

O adulto é, como temos visto, uma criatura de compromisso: aceita sem sentimento e emoção os deveres e responsabilidades que assume, vive no meio da reciprocidade e da solidariedade e não foge dos deveres sociais que estão, normalmente,

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E a doença, filho? O novo fascismo que nos pune com terramotos

o adeus à a Presidência do Chile

À memória da minha Pátria, esse país frio, chamado Chile,
que luta pela justiça que permita finalmente aliviar o luto, 41 anos depois, dia da mudança dos mandos e do perigo do regresso ao passado recente…

Acaba uma Presidência na dobrada mas não partida, República do Chile, e começa outra. Haverá mais doença?

Deixa, pequeno, tentar explicar o que é a doença. Talvez, com as minhas palavras. Essas que tenho sempre guardadas para ti. A doença, pequeno? Parece-me um estado.
Esse estado do corpo que nos retira de andar com os outros. Esse estado do corpo que muitos dizem ser um estado da alma. Esse estado do corpo que acaba por ser o que nos fere  e nos deixa sem horizontes. Esse estado do corpo, por vezes transitório, por vezes permanente, que retira de nós o desejo de fazer mais do que falar ou mal de nós por não estarmos activos – ou mal dos outros porque nos tiraram a alma. Estado do corpo que não passa, porque o corpo é apenas a carcaça dentro da qual as nossas ideias andam. E vivemos sujeitos a ela, a essa terrível palavra que denominamos doença. Da qual fugimos. Fugimos ao pensar, sempre, que o nosso estado ideal de vida é estarmos sempre bem, com o pensamento claro, o corpo direito e o trabalho a ser realizado. [Read more…]

o pecado de masculinizar a mulher

a mulher pensada por vários homens

Grande surpresa a minha! Os meus colegas ensaístas tinham reservado um dia especial para comemorar o Dia Internacional da Mulher. Solicitaram-me que não escrevesse a 8 de Março porque a escrita, nesse dia, era apenas para senhoras. No entanto, tornei a ver o texto escrito a 7 de Março, reproduzido no dia proibido.

No entanto, muitas mulheres escreveram nesse dia, as do nosso grupo e outras convidadas. E vários de nós, homens, que tínhamos escrito, no dia prévio, sobre a mulher. A frase desse dia, o slogan ou estandarte por falar assim, é retirada de uma Canção dos Beattle You can work it out. Por outras palavras, podes fazer crescer ou podes conseguir. A intenção do slogan desse dia, que nem devia existir, porque somos todos iguais, é humilhar a mulher ao dizer que ela também pode crescer, também pode trabalhar, também tem forças para conseguir ser um outro ser como os homens. O mais irónico é a palavra blog, um caderno de rascunhos, de ideias novas de apontamentos para não esquecer. Mas a palavra blog numa frase como esta, refere a capacidade adquirida pelo sexo feminino de ser capaz de desenvolver as suas qualidades como os outros fazem. Aliás, a frase foi colocada por um grupo de homens que deu licença às mulheres para, nesse dia especial, poderem demonstrar que eram pessoas de poder, como os homens pensam que são. Salientem-se ainda, que o sítio em que a frase foi escrita, é denominado blog e é gerido ou administrado por homens. Há uma ou duas mulheres que, timidamente, acompanham essa gestão, excepto duas de apelido semelhante, mas que são convidadas a participar na escrita desde outro blog.

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Natureza, lucro, catástrofes

A natureza que dá lucro, causa catástrofes

Continua a ser-me difícil não desabafar sobre as catástrofes acontecidas durante estes pesados dias. Dias pesados, porque nem os sentimentos, nem o espírito nem o corpo são capazes de suportar as hecatombes ocorridas ao longo destes dias em diferentes partes do mundo. Sítios do mundo geograficamente distantes uns dos outros, unidos apenas pela parte mais pesada e difícil de suportar do ser humano, os sentimentos. Esses sentimentos ou emoções que comandam a nossa racionalidade, atributos que definem o nosso pensar e dizer, ou operação do espírito de que nascem as nossas opiniões ou juízos. Juízo ou discurso, argumento, proposição, observação dos acontecimentos que arrasam o nosso sentir ou aptidão para receber as impressões do exterior na nossa consciência íntima. [Read more…]

Os terramotos do Chile. Memórias apagadas

Vulcão Villarica do Chile, sempre em erupção


Primeiro um silêncio profundo. A seguir os cães ladram, antes, tinham cantado os galos, as galinhas gorgolejavam. As pessoas calam sem saber porquê. Um segundo de silêncio. Um segundo apenas, como se estivesse medido por um cronómetro. E a hecatombe aparece com um ruído ensurdecedor. Agarra-se a uma árvore, foge-se de um buraco que abre, não sabemos como, na terra ao pé de nós. Os gritos começam. Das pessoas. Os ateus rezam, as beatas falam em palavrões, todos tentam agarrar-se a todos, todos fogem de todos. Tenta-se andar, e gatinhamos, tenta-se correr e bate-se com a cabeça contra as pedras. Correr, mas para onde? Ai há outro buraco, um fogo aparece do fundo da terra, e foge não sabemos para onde. Prende-se a um prédio. Era a nossa casa, fica em cinzas, as pedras dos prédios abatem-se sobre nós, o céu fica obscuro se for de dia, vermelho se for de noite. Os nossos já não estão, procuramos e não os encontramos. Os carros, pesados, suavemente deslizam pelo asfalto até desaparecerem num buraco aberto na estrada. Há outros atrapalhados debaixo das marquises dos prédios que servem de garagem. Guardados para sempre. Sem utilidade, insubstituíveis.

A terra salta para cima, a terra mexe para a direita, a terra mexe para a esquerda. No meio, nós. Se a terra vai para a direita, tentamos balançar o nosso corpo para a esquerda num equilíbrio impossível. A senhora gorda corre como gazela nos seus sessenta anos, agarramo-nos ao seu traseiro, esbofeteia; o velho recupera a sua agilidade e salta entre passeio e passeio para não se afundar nas fendas da estrada. Os pássaros grasnam no ar em bandos, como se se quisessem esconder dentro das nuvens para não ver o horror de Dante que aparece na terra. Os mais amorosos acodem aos mais desvalidos. Queremos tornar a casa e refugiar-nos debaixo da cama. Casa não há, apenas um buraco que arde e nos engole se não formos resgatados pelos mais calmos que, em quatro patas, sim patas, começam a resgatar os eminentes desaparecidos, esses que nunca mais são encontrados. Centenas de pessoas morrem, as camas do hospital que ruiu, são levadas a correr para os buracos do que era uma rua. Os dos prédios do décimo quinto andar, atiram-se, em desespero ao ar, caída que mata, como mata ficar dentro do andar que cai sobre os seres humanos com outros seres humanos dentro. Pessoas que desistem da vida e se deixam estar no sítio em que não deviam. A gritada é impossível, não tem destino. Apenas um: o silêncio que aparece após os saltos da terra, essa que um minuto depois, tem uma réplica, os sons subterrâneos reaparecem e já não queremos mais. Ficamos deitados. Não falamos, não reagimos, não acudimos. A adrenalina paralisa o corpo. Olhamos par a natureza e geografia conhecidas, nada existe nunca mais. O meu vizinho vai-se embora em sangue, nada há para o ajudar que não seja a o sangue dos outros que o fogo consome e ardem. Como as casas. Como as estradas. Como os parques subterrâneos. Como a minha mãe, como o meu filho. O ânimo come o valor da vida.

Um minuto. Apenas um minuto. Quase um minuto se tanto. E a terra muda de lugar.

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no me ensucien el agua!

Alejandrita tomando baño a sus tres años

Era su hábito decir. Un hábito que no sabíamos si era para respetar o para reír… [Read more…]

Contestatários de Coimbra sugerem acção popular contra juízes do Supremo Tribunal Administrativo que aprovaram co-incineração

Em conferência de imprensa, o advogado Castanheira Barros revelou que vai sugerir ao presidente da Câmara de Coimbra que avance com a acção contra os três autores de acórdãos recentes sobre esta matéria, exigindo-lhes o pagamento de uma indemnização correspondente a um euro por habitante do concelho por cada dia em que seja permitido à Cimpor proceder à queima daqueles resíduos em Souselas.

Em causa estão acórdãos do STA de 02 de dezembro de 2009 e de 20 de janeiro passado, ambos da responsabilidade dos mesmos três juízes, e que contemplam “argumentos contraditórios” – segundo o jurista.

Castanheira Barros adiantou ainda que o grupo de cidadãos está a ponderar instaurar também uma acção de indemnização por responsabilidade civil extracontratual contra os três juízes do STA.

Na base das acções está, segundo o jurista, “a imputação [nos acórdãos do STA] ao Tribunal Central Administrativo – Norte de uma tese que este tribunal não defendeu e a negação da evidência da não aplicação do princípio da precaução” na questão da co-incineração.

Na conferência de imprensa, Castanheira Barros adiantou que vai pedir uma audiência urgente ao presidente da Câmara e sugerir-lhe também a adopção de medidas conjuntas de combate à queima de resíduos, nomeadamente no que diz respeito à vigilância dos veículos que os transportam para a fábrica de Souselas.

“Vamos também alertar os grupos parlamentares da Assembleia da República de que Coimbra não pode ser sujeita a esse atentado ambiental e que o projecto-lei para suspender a co-incineração deve ser discutido o mais depressa possível”, acrescentou.

Como já é habitual estivemos presentes na Conferencia de Imprensa, uma vez que sempre nos batemos contra este atentado ambiental.

They met some thirty years ago…

Some thirty years ago, I used to carry my youngest daughter to the school, half a block away from the house.  She was blonde, red on her white cheeks, very cheeky, even with me. What a big patience from Dad…

Her face used to illuminate as soon as she saw Katy Pompar, her teacher, and that lot of friends, always surrounded by  Russel, Cosh, or  Campbell,  Harrison and another, distant classmate, Felix Ilsley. There were many more. Time passes away and one forgets names, but not faces, games and intimacy

children playing away

children playing away

Time passes away. They grow up. They study. They ride their bicycles in our Cambridge town and surroundings countryside. Secondary School meets them at their eleven years of age, and six years later, the Pre University A level School. Camila was always a bright student. Just a glance on a book and the ideas, as also happened with our elder daughter Paula, became a memory in their minds.

To wake her up in the morning was an agony. She always wanted to sleep more! I used to go into her bedroom and bed and sung for her. It used to be a sweet lullaby to wake her up, very smoothly, lovely and tender. For a number of years, she came to be the woman of the house: her Mother used to work away from Cambridge, and I, away from UK. Problems of the adults…that children pay…

Time flew away. She became my soul mate, my companion, my caretaker. I am so grateful!

Because of family work, Felix had to leave St. Pauls’ Primary school….

Years later, they mate again…and the miracle

love and tenderness

love and tenderness

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Cepticismos

Se o novo Airbus A380 lhes caísse na sopa, haveria dois tipos de cépticos a dividirem a incredulidade entre si: os que fechariam os olhos para poderem afirmar não haver evidências e os que jurariam não existirem provas científicas a suportar a tese de que um Airbus pode cair num prato de sopa, especialmente no seu.

Ironias à parte, vem isto a propósito das mil e uma discussões acerca das alterações climáticas surgidas agora, em torno da Cimeira do Clima.

O problema é que as questões ambientais ultrapassam largamente as ( graves ) mudanças do clima.

A palavra-chave para discutir hoje o ambiente é sustentabilidade e as perguntas a que todos ( cépticos incluídos ) têm que responder são, por exemplo: O crescimento demográfico é sustentável? Os níveis actuais de consumo de bens e produtos nos países desenvolvidos são sustentáveis quando os chamados “países emergentes” atingirem outros patamares de riqueza? A ideia de desenvolvimento económico constante é sustentável? O crescimento económico baseado no aumento infinito do consumo é sustentável? A livre circulação de produtos – a ponto de uma mera refeição ser composta, muitas vezes, por alimentos provenientes dos cinco continentes – é sustentável?

A lista de perguntas poderia multiplicar-se. Mas é em relação às respostas que eu, nestes casos, sou céptico.

Copenhagen Diary: COP15 UN Climate Change Summit

Quente e Seco

O mês de Setembro de 2009 foi o mais seco dos últimos 22 anos, em Portugal continental, sendo o 9º mais seco desde o início dos registos, em 1931.

A quantidade de precipitação registada no mês, no continente, situou-se bastante abaixo dos valores médios de 1971-2000, com uma expressão de 18% em relação ao respectivo valor médio, classificando-se, assim, Setembro como seco a muito seco na grande generalidade do Continente, com uma única excepção para o Baixo Alentejo. Em termos mensais, o mês registou uma quantidade de precipitação, em relação ao valor médio (1971-2000), inferior a 60% em quase todo o território, sendo mesmo inferior a 10% na região Norte e parte do Centro. Somente no Baixo Alentejo este parâmetro se situou acima do respectivo valor médio.

Setembro caracterizou-se por valores médios de temperatura máxima do ar superiores aos valores normais, 1971-2000, em todo o território do Continente, com uma anomalia de + 1,6ºC. A temperatura mínima situou-se muito próxima dos valores normais, com uma anomalia de + 0,1ºC e a temperatura média também acima dos valores normais com uma anomalia de + 0,8ºC.

No final de Setembro mantém-se a situação de seca meteorológica, com agravamento em relação ao mês anterior, com a totalidade do território continental em situação de seca meteorológica, sendo que 43% se encontrava em situação de seca severa, 3% em seca extrema , 44% em seca moderada e 10% em seca fraca. (Fonte: Inst. de Meteorologia)

Nada de muito preocupante como se pode constatar, até porque 54% do território encontra-se apenas em seca moderada e fraca. Há que ver as coisas sempre pelo lado positivo, não é verdade? Em pleno Outubro, há pessoas a fazer praia! Mais grave ainda, é ouvir conversas de rua em que as pessoas acham que isto (o tempo) deveria sempre assim, porque o frio e a chuva são muito desagradáveis!!! Pode ser que a preocupação apareça no mesmo momento em que as torneiras lá de casa deixem de pingar…

Empresa Frente Tejo SA – a luta continua

Por convite a seis empresas estrangeiras foi escolhida uma delas para apresentar um estudo base para o Terreiro do Paço, tambem conhecido por Praça do Comércio.

Esta empresa, Frente Tejo SA foi constituída, justamente, para poder funcionar ao arrepio dos controlos a que as câmaras estão sujeitas, podendo contratar por ajuste directo (filho selecto do governo socialista) sem ouvir quem quer que seja e muito menos os Lisboetas.

Mas o atrevimento é de tal ordem, como demos conta há dias aqui no Aventar, que nem sequer o vereador da câmamra, Arquitecto Manuel Salgado, resiste a uma feroz crítica. O estudo propõe que as frentes das paredes que dão para as arcadas sejam rasgadas para assim se criarem montras e ali se instalarem lojas e restaurantes.

Tudo nas costas dos Lisboetas, como convém, o estudo está agora em discussão (por uns senhores muito importantes, tão importantes como os que foram convidados para constituirem o juri, que ninguem sabe quem são) e parece que a ideia de o rés do chão ligar aos primeiros andares por umas escadas espectaculares fica, para já, sem efeito.

O mesmo acontecerá com as tais janelas/montras que iam rasgar as paredes dos edificios que, segundo o arquitecto Salgado “são uma gargalhada de mau gosto”.

A empresa Frente Tejo SA como se vê, continua a trilhar o seu caminho de roubar à cidade o melhor que ela tem, nas costas dos Lisboetas, e à Praça junta-se uma série de projectos que pouco a pouco virão à luz do dia, como sejam os Contentores de Alcântara, a acostagem de navios e muitos metros quadrados de betão no rio junto a Santa Apolónia, os edificios no Cais de Sodré que já lá estão sem discussão pública, o Hotel na Marina de Belém que já lá está, a Fundação Champallimoud que vai ser criada junto à marina de Pedrouços, o gigante Museu dos Coches…

Eu não voto no António Costa porque o governo com ele na Câmara faz o que quer, como se vê. Lisboa precisa de uma oposição forte que lute contra este assalto à luz do dia.

A GNR prendeu os bombeiros

Nós temos um país com muitos problemas mas se estivermos atentos divertimo-nos imenso.

Há uma técnica de combater os incêndios em campo aberto que se chama “contra-fogo”, que consiste em atear um fogo controlado, por forma que o incêndio quando ali chegar, já não tem matéria para arder e assim morre ou é combatido, mais facilmente, nesse local.

Foi o que fizeram os bombeiros numa região do centro-norte do país, devidamente autorizados pela autoridade que coordena as acções dos bombeiros, quando em acção.

Então não é que a GNR viu e não só impediu que os bombeiros ateassem o fogo, como identificou o sub-comandante da corporação e fez a participação ao Ministério Público!

A GNR estava ali para ajudar os bombeiros, controlando os populares, coordenando o trânsito, identificando algum factor que colocasse o trabalho dos bombeiros em perigo. Mas não, mandou-os prender e impediu-os de executar uma técnica eficaz, praticada inúmeras vezes e com resultados.

Agora digam se temos razões para andarmos tristonhos!

Amarante a cheirar a merda

Filme bem elucidativo: ver aqui

“Hoje que é domingo (27/09) e dia de eleições legislativas de 2009, em pleno centro histórico de Amarante, exactamente em frente à porta do Santo, o esgoto cumpriu mais uma vez, pronta e plenamente, o serviço de evacuação emergente no rio Tâmega. Tanto monta que a m-e-r-d-a siga o percurso na insuficiente e debilitada rede de saneamento ou seja aliviada sob o olhar incrédulo de quem passa e visita a cidade, seja qual for o dia da semana ou o mês do ano, se o destino do eflúvio em trânsito seria sempre o mesmo, quando na passagem só sobrecarregaria a ‘nova’ e já esgotada ETAR de Amarante.
Eram pelas 16H00. Enquanto a descarga eleitoral se mostrava nas urnas pouco concorrida o esgoto no centro urbano de Amarante fazia o seu abundante escrutínio. Com o superior enquadramento de dois monumentos nacionais (Ponte e Convento), no Largo de São Gonçalo (Praça da República), saído em jorro do alto da parede granítica a espelhar no rio Tâmega, o cenário do esgoto não podia registar melhor (pior) sinal da sua republicana existência. O som da descarga caída livremente sobre o metálico passeio pedonal e batida na pedraria granítica das rochas que fixam a margem sobranceira à Igreja do convento, conjugando os odores pestilentos que contaminavam a sombra onde se vendia o pão e o doce e apertavam a respiração dos transeuntes desde a Alameda Teixeira de Pascoaes, não enganava quanto à origem da fonte.
Não!… Aquele caudal lamacento e churro não provinha do endereço sombrio que acolhe a Câmara Municipal de Amarante nas costas de Pascoaes. Mas, logo ali, desde a Alameda ao Largo, se confronta a demagogia e o gongorismo da política local que fecha os olhos e o nariz a tanta imundice, nessa ‘bica’ nojenta de m-e-r-d-a urbana onde se reflecte o resultado da «seriedade» e do «rigor» que a autarquia de Amarante não consegue esconder aos olhos e nariz da cidade.”

José Emanuel Queirós, in Plena Cidadania, via Anabela Magalhães

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Amarante é um concelho liderado por Armindo Abreu, eleito pelo PS e que concorre a novo mandato. O seu principal adversário é José Luís Gaspar, candidato do PSD. Jerónimo Ferreira (CDU), Hugo Silva (Bloco) e Moura e Silva (CDS) são os restantes candidatos.

Ando mesmo preocupado

Inacreditável! A Sociedade Ponto Verde, para evitar falência, vai abandonar a reciclagem de um dos tipos de plástico. E mais grave ainda, deixa no ar, que “na crise que vivemos não há sectores protegidos e alerta para “a gravidade da situação financeira da Sociedade Ponto Verde“. Neste caso específico, e por falta de fundos, a reciclagem de plásticos mistos será interrompida, e todos os resíduos deste tipo irão para aterros ou para incineração. Os efeitos desta acção já são bastante conhecidos e são nefastos. Os ministérios do Ambiente e da Economia vão-se encontrar com responsáveis da SPV para resolver este problema. É e mesmo um problema. É o problema da economia a interferir directamente e prejudicar o equilíbrio ecológico, e por consequência a todos. É o problema duma questão económica se sobrepor a uma questão de saúde pública. Sinceramente, espero que esta decisão seja anulada e que os responsáveis governamentais usem da mesma força com que têm presenteado o país e apoiem financeiramente esta iniciativa da SPV. Mas fico preocupado porque existe também a possibilidade de esta decisão se manter e o plástico não ser reciclado. Tudo porque “está já garantida a meta de reciclagem dos plásticos“. Tudo se resume a números. Apenas e só a números. Isto é mesmo estar a olhar para o saco de plástico do supermercado como o anti-Cristo ecológico e não olhar para tudo o que lá vai dentro. E é tudo de plástico. Numa autêntica “sociedade de plástico” como esta em que vivemos, interromper a reciclagem por questões financeiras deixa-me mesmo preocupado.

Poemas com história: Poema ecologista

Era com um longo Poema ecologista (podendo também servir de prefácio) que abria uma colectânea de poemas que publiquei em 1990 – O Cárcere e o Prado Luminoso. Na altura estava envolvido num projecto cuja direcção científica era conduzida pelo Professor Luís de Albuquerque, professor catedrático da Universidade de Coimbra, doutor honoris causa pela de Lisboa, figura cimeira na investigação histórica do período dos Descobrimentos, enfim, um grande intelectual, um cidadão exemplar e um homem bom. Foram alguns anos de convívio intenso, travámos uma grande amizade e, naturalmente, quando publiquei o livrinho, ofereci-lhe um exemplar. Pois Luís de Albuquerque escreveu uma réplica a este poema que hoje vos apresento. Guardo ciosamente o original escrito pelo punho do Professor e hoje compartilho convosco a leitura desse texto. Luís de Albuquerque, em plena actividade, presidindo à Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos, foi ceifado por um acidente cardiovascular e faleceu em Janeiro de 1992. Aqui vos deixo a parte inicial do meu poema e, em baixo, o valioso «contraditório» de Luís de Albuquerque.

Poema ecologista

Vítima de uma certa e cruel
forma de poluição,
de um desgaste acelerado
dos meios naturais,
tal como o bisonte, o castor,
o lince, a cabra selvagem,
o poeta é hoje
um bicho ameaçado de extinção.
A destruição indiscriminada
de elementos essenciais
ao equilíbrio da vida,
a água contaminada, a voragem
que destrói a floresta,
a natureza consumida,
põem em perigo
a existência de muitos animais.
O poeta não se extingue porém
com a dramática violência
da baleia: a fúria utilitária
que se apossou das sociedades,
a súbita transformação
dos cafés em bancos comerciais,
roubaram-lhe o habitat
e ameaçam-lhe a sobrevivência.
Não flutua morto como o peixe
na albufeira da barragem,
entre o pneu velho, o preservativo,
a embalagem perdida,
as garrafas de plástico,
os detritos industriais:
não obedecendo já ao mote,
busca o spot, a «mensagem»
que ajude o pesticida
a matar o peixe e a vender mais
a margarina,
a «promover» o cancerígeno sumo:
aparece uma manhã a boiar
na secretária da agência,
morto heroicamente
ao serviço do consumo.

Não meu Amigo

O poeta não está em vias de extinção.
O lince, o castor, a foca, o homem
não vão resistir
ao fumo fétido das celuloses
suecas,
aos rios contaminados dos detritos das celuloses
suecas,
aos verdes plásticos
que alastram por prados artificiais,
ao crude.
que faz todo o mar negro, negro.
Mas salvam-se as cabras de Cabo Verde
que se riem dos plásticos
e comem-nos.
E com elas salvam-se os poetas
que sabem viver a angústia
de não haver mais amigos nos cafés, nos jardins, na noite,
e são capazes de fazer poemas de tudo,
mesmo dos plásticos.
E a poesia, meu amigo,
não é nada um péssimo produto;
é o único produto
que anda por aí
e não se adultera.
Para a poesia não é necessária a inspecção,
nem a defesa do consumidor.
Cada um consome a poesia que quer
e se ninguém a quer
a poesia morre e não deixa despojos deletérios.
Por isso,
Os poetas não são bichos em extinção
enquanto a poesia circular,
mesmo que seja em meios pútridos,
enquanto houver alguém que a sorva
como sorve o ar ignorado
de cada manhã irrepetível.

Luís de Albuquerque
1990.04.05

albuquerque

Ambiente – o desafio da UE

“As alterações climáticas envolvem ciência, economia e tecnologia. Porém, neste momento um acordo depende de decisões políticas. Precisamos de uma abordagem nova e precisamos dela rapidamente.” (Ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico).

Este é o próximo desafio para a UE, não chega ver o Ambiente como troca entre países de produção de CO2 ou mesmo empurrar para os países menos desenvolvidos as indústrias mais poluentes. Não, trata-se de um novo modelo económico assente em novas tecnologias que exigem inovação e competências novas.

As alterações climáticas que dentro de poucos anos poderão ser dramáticas, assim o exigem. A União Ambiental, próximo desafio da UE deve constituir o elemento catalisador para um mundo liberto de carbono, ou para além dele.

A não ser este o caminho a percorrer a escassez de recursos é um dos mais dramáticos problemas que se colocam no horizonte, e que já foi a segunda razão mais importante na actual crise, logo a seguir à escassez de crédito. Vamos ter movimentos migratórios em massa, seca e escassez de água, com enormes conflitos sociais nacionais e internacionais.

O Ambiente deixou de ser um problema de uns quantos jovens hiperactivos e passou a ser um problema global.

PS: No ano passado estive na Patagónia, no sul da Argentina, fui ver as neves que deixaram de ser eternas, a serem sugadas inexoravelmente, pelas águas da baía de Vito Moreno. A milhares de quilómetros de distância da mais próxima fonte de poluição