As transferências para as offshores e o spin


Há dias escrevia que este caso dos milhões transferidos para os offshores  deveria ser uma notícia plantada para fazer frente à investida da direita sobre Centeno. David Dinis explica que não foi spin.

Os 10 mil milhões não são impostos que ficaram por pagar. Mas é dinheiro que não sabemos se pagou impostos. É aí que está o busílis da questão. A grande pergunta é porque é que as estatísticas das transferências deixaram de ser publicadas pelo anterior governo. O ex-secretário de estado dos assuntos fiscais, Paulo Núncio, está com a cabeça no cepo por duas razões: porque nunca explicou a razão dessas estatísticas se terem deixado de publicar e porque o ex-director da Autoridade Tributária diz, preto no branco, que a responsabilidade da publicação era do Núncio. E a situação ainda se adensa mais.

Passos Coelho também tem responsabilidade no assunto, primeiro por inerência hierarquia, que é a responsabilidade menos forte, mas sobretudo devido a inacção quando houve repetidas notícias sobre essas transferências terem deixado de se publicar e nada ter feito.

Há spin a ser construído, sim, mas a crer no que diz David Dinis (citação abaixo), do qual se conhecem as tendências editoriais, esse spin está a vir da direita, da Cristas em primeiro lugar, que pretende que se trata de uma notícia plantada.

Vamos aos factos – depois iremos aos fakes. Os jornalistas, todos os jornais, andaram anos (repito, anos) a perguntar ao anterior secretário de Estado dos Assuntos Fiscais por que tinha deixado de publicar dados sobre as transferências de dinheiro para territórios offshore. Nenhum obteve resposta.

Com o Governo do PS, essas estatísticas voltaram a ser publicadas. E em Abril do ano passado deu disso conta aos leitores, contando simplesmente quanto dinheiro tinha saído do país de 2010 a 2014. Mas na semana passada, quando alguns jornais internacionais publicaram notícias sobre a Zona Franca da Madeira, incluindo o Le Monde (leram?), o Pedro Crisóstomo, jornalista do PÚBLICO, lembrou-se de ir ver se as estatísticas de 2015 já tinham sido publicadas no Portal das Finanças. Primeiro parênteses: o Ministério das Finanças nunca lhe disse que esses dados já estavam publicados, mas já estavam.

É aqui que o jornalista começa a fazer contas. Compara os números com as primeiras estatísticas, as de Abril, e faz várias perguntas oficiais, por escrito, para ficarem bem registadinhas: por que é que as estatísticas passaram a estar organizadas de forma diferente? Por que é que os dados eram muito superiores aos de Abril, precisamente em quatro anos que coincidiam com o período de ajustamento (de 2011 a 2014)?

As Finanças responderam logo na terça-feira da semana passada: as diferenças resultavam de ter havido dados não tratados; e explicaram o que significavam os quadros novos, confirmando a suspeita dele: os números tinham sido, sim, revistos. Em alta. Face a isto, o Pedro Crisóstomo fez o que um jornalista deve fazer: tratar os dados, com ajuda cá da casa. E três dias depois enviou novas perguntas. As respostas das Finanças chegaram na segunda-feira, dentro do prazo que ele, Pedro, tinha dado ao Governo. Incluindo a explicação de que aquele valor das transferências não registadas também não tinha passado pelo tratamento da Autoridade Tributária. E foi assim que se fez uma notícia. Das que marcam.

Serve isto para explicar direitinho à deputada Assunção Cristas que, sim, o caso calhou muito bem ao Governo – como é bom de ver pelo nervosismo que instalou em quem tinha, à época, a responsabilidade de governar. Mas também dizer à sra. deputada que não, neste caso o Governo não “plantou” uma notícia. Limitou-se a colher o fruto das sementes que o ex-secretário de Estado do seu partido plantou. O que espero é que a líder do CDS tenha feito três perguntas ao dr. Paulo Núncio antes de disparar preconceitos contra o jornalismo em jeito de autodefesa: se sabia que estas transferências de 10 mil milhões de euros não tinham sido fiscalizadas; se faz ideia se o perdão fiscal que decretou limpou algumas destas verbas; e por que razão escondeu ele aquelas estatísticas. Isso é que era bom saber. [PÚBLICO, David Dinis, 24 de Fevereiro de 2017]

À medida que o tempo passa, Paulo Núncio vai ficando cada vez mais comprometido. Dirão as más línguas que a SIC e Expresso estão a fazer o seu papel de guarda pretoriana do PSD.

O antigo director-geral do fisco Azevedo Pereira garante ter solicitado, por duas vezes, ao ex-secretário de Estado Paulo Núncio autorização para publicar dados relativos às transferências dinheiro para ‘offshore’, mas “em nenhum dos casos” esta lhe foi concedida. [EXPRESSO, 25/02/2017]

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Não é por David Dinis aparentemente se ter portado com alguma isenção neste assunto, que eu mudo de opinião sobre a sua postura como jornalista. É um pau mandado. Mas o patrão quer que o jornal se venda, nem que seja para pagar as despesas, apenas.
    Aliás, até fiquei admirado com essa iniciativa do Público!
    Cheira-me que as coisas devem estar a correr mal com as tiragens e algum abandono de leitores (assinaturas digitais), para eles fazerem esta inversão de marcha.
    Relativamente ao Expresso e à SIC há alguma diferença entre um e outro, apesar de tudo.
    O Expresso tem ainda algum equilíbrio entre comentadores e jornalistas. Continua a ser, apesar de tudo, um bom semanário. E Balsemão sabe que aquilo é a sua jóia da coroa. No dia em que a “Escola”, “Instituição”, EXPRESSO fechar, dou 2 ou 3 anos para a SIC ir à vida. Ou ser vendida a Angolanos e Chineses.
    A mim interessa-me saber qual é qual a origem do dinheiro saido do país. E admito que uma boa parte dele seja branqueamento de capitais e evasão fiscal.
    Tal como os Panamá Papers, vai ficar para as calendas gregas.

  2. ... 25 deAbril...onde estás?. says:

    Que tal procurar os papeis no local onde estão os dos submarinos?

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