Banho turco 


É comovente ver o proto-fascista Erdogan preocupado e, até, indignado com o que ele diz ser a falta de liberdade e democracia nos países da Europa que lhe recusaram espaço para seu número de circo político. Na verdade, a criatura não queria, bondosamente, levar a sua campanha referendária aos seus compatriotas espalhados por esses países. Fosse esse o caso e a oposição turca também se poderia movimentar à vontade sem receio de ser presa ou morta. Erdogan investiu, sobretudo, sobre os países que atravessam processos eleitorais, tentando neles intervir de vários modos, influenciando as decisões políticas dos cidadãos – nomeadamente os de origem turca, mas não só – e procurando caçar a oposição turca exilada ou pressionado os governos desses países para que lhe fizessem o trabalho sujo. Não por acaso, a acusação de a Alemanha ter um regime nazi seguiu-se à exigência – recusada, e bem, pelo governo alemão – de prisão dos “terroristas” turcos residentes na Alemanha que são, do ponto de vista de Erdogan, os opositores ao seu regime, nomeadamente os curdos.
Só a França cedeu na importação da “campanha” do governo turco, autorizando um comício no seu território. E a grosseria agressiva e belicista do discurso do ministro turco destacado para a função foi a merecida paga que os anfitriões receberam por terem patrocinado essa imitação grotesca de “liberdade de expressão”, por essa patética insegurança na defesa de princípios fundamentais. A violência do último discurso de Erdogan – para consumo interno e externo – não devia, penso eu, deixar dúvidas quanto à natureza do seu projecto e aos riscos que aí vêm.

Não faltam agora vozes a assegurar que se a Turquia tivesse sido integrada há mais tempo na UE nada disto acontecia. Não creio. De resto, tal raciocínio não tem qualquer base objectiva que o suporte; é apenas uma fé. Ou talvez só uma fezada.

Também há muito quem clame que nada se pode conseguir sem uma posição firme e coesa da União Europeia. Claro que pode. Basta que todos e cada um dos países europeus se mostrem intransigentes nos valores que dizem defender e não ponham à venda, por lucro ou medo, os Direitos Humanos que justamente arvoram como bandeira.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Gostei deste texto, e é de facto uma boa análise. Acima de tudo porque desmistifica aquela ideia de que nós é que os excluímos, em vez de os incluirmos. Erdogan é um ditador e cima tudo pactuar com ele de igual para igual será sempre ceder a seu ímpeto autoritário. Mas isto acaba por ir dar sempre ao mesmo sítio.
    A Europa deu-se mal com a globalização. Nunca se prepararam para ela. Ela trouxe novos desafios com progressivo aumento dos movimentos migratórios. Isso estava à vista de todos, mas ninguém quis ver. A Turquia e a Grécia seriam a porta preferencial de entrada na Europa, mas poucos quiseram discernir essa evidência.
    Por sua vez, a Europa foi empobrecendo fruto dessa globalização desregulada, a qual só beneficiou financeiramente uns milhares. Aqueles que podem movimentar capitais, porque o têm. O reflexo normal disso, foi o aumento da xenofobia e do racismo, que quando um país empobrece, e processo de integração social falha, emerge nos comportamentos sociais menos esclarecidos. Ainda que não se possa de forma séria relacionar uma coisa com a outra.
    A Turquia é um local demasiado importante para ser deixado ao acaso. Mas sempre foi uma ditadura. Sempre. Por vezes travestida de democracia, mesmo em períodos muito curtos, diga-se, em que os Bulent Ecevit lideraram o Poder. Mas, mesmo aí, tínhamos uma democracia musculada, até por causa do fenómeno curdo.
    Com a crise financeira instalada, a Europa abandonou a Grécia, apesar de lhe terem andando a vender submarinos. Com a pátria do Sócrates num mísero estado, potenciaram a importância estratégica da Turquia, que não dependendo do euro, achou que podia gozar com uma Europa de incompetentes.
    Com Erdogan no poder, um ditador, conservador, que de laico tem muito pouco, para não dizer nada, temos receita perfeita para a Europa se colocar de cóqueras. Prevejo no futuro, a Turquia com uma evolução política similar à do Irão. Não haverá aiatolás, mas a poder religioso será forte.
    E ainda não vimos tudo. Se a Turquia se afastar da NATO, o que, com este fulano no poder, não é de todo impossível, a Turquia aliando-se estrategicamente à Rússia, hoje não são precisos pactos militares para nada, com Trump nos States e a Europa no estado em que està, isso até vai deixar de estar na moda, e se a Grécia leva mais um aperto da CEE/BCE, saindo do euro, aliando-se em desespero de causa aos Russos, vai ser lindo vai!

  2. Tem razão…
    a realidade de muitas pessoas na Turquia é está…
    Mamãe, porque estás na prisão ?
    Os maus-tratos, violência e tortura dos quais Tuğba foi vitima durante o interrogatório alegadamente fizeram-na perder a sanidade, acabando assim no Hospital Psiquiátrico de Bakırköy.
    https://testemundos.wordpress.com/2017/03/19/mama-quando-vais-ser-libertada-da-prisao/

  3. Serviço Federal de Inteligência da Alemanha duvida da responsabilidade de Gülen por uma tentativa de golpe
    O chefe do Serviço Federal de Inteligência da Alemanha (BND), Bruno Kahl, disse que a Turquia não poderia convencê-los que o estudioso muçulmano Fethullah Gülen estava por trás de uma tentativa fracassada de golpe no dia 15 de julho 2016 apesar das acusações contra o movimento Gülen. Mais informações
    https://testemundos.wordpress.com/2017/03/19/servico-federal-de-inteligencia-da-alemanha-duvida-da-responsabilidade-de-gulen-por-uma-tentativa-de-golpe/

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