Postcards from Greece #3 to #5 (between Athens and Thessaloniki)


‘It’s illegal by the law, but not by the people’s law’

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Disse o taxista que me transportou hoje até à White Tower (ou Tower of Blood atendendo ao seu passado como prisão), depois de eu ter perdido, porque me enganei na paragem, o autocarro 50 que faz a chamada ‘cultural route’ em Salónica, numa viagem que numa hora percorre a cidade. Custa 2 euros e leva-nos perto das várias atrações turísticas. Como o perdi e o próximo era só daí a uma hora, com partida da Torre Branca, apanhei então um táxi. Os táxis na Grécia são bastante baratos, deve dizer-se que dentro da cidade uma viagem não ficará por mais de 5 euros. O taxista quis saber de onde vinha. Portugal. Repetiu Portugal com a voz mais doce e disse que tinha um amigo português. Nisto um homem aproxima-se do táxi e diz um destino que não entendi. O taxista diz que não passa por lá. Eu pergunto se é habitual na Grécia as pessoas dividirem táxis com estranhos, já que antes tinha reparado também na mesma situação. É habitual mas não legal… ou melhor, explica, o taxista, é ‘ilegal pela lei, mas é legal pela lei das pessoas’. Esclarecidos, portanto.

Na verdade não é uma coisa surpreendente, nem na Grécia, nem no meu país. A descoincidência entre a lei nos livros e a lei das pessoas. Ainda há uns dias quando viajei de comboio entre Atenas e Salónica, numa viagem de 6 horas e pouco, entre as paisagens mais deslumbrantes que há – e que a minha máquina não conseguiu fotografar devido aos solavancos, à velocidade e aos reflexos nos vidros das janelas (mas hei de lembrar-me delas para sempre, seja como for) – apesar de ser proibido fumar, muitas pessoas fumavam nas casas de banho e num espaço, ao fundo do comboio. Fumavam nas barbas da revisora, que tinha um nariz como toda a gente tem. Eu aguentei estoicamente 4 horas e meia sem fumar. Perguntei à revisora se havia uma estação em que o comboio se demorasse mais tempo. Havia uma. 10 minutos. Aguentei-me até lá, sabe deus como, quero dizer, teria aguentado melhor se não fosse ter um nariz como toda a gente tem e se não tivesse sentido a viagem inteira o cheiro a fumo de cigarro, vindo de vários pontos do comboio. Fumei o meu cigarro legalmente pela lei dos livros e reentrei na carruagem. Os fumadores ilegais continuaram a fumar, à descarada. Passada uma hora juntei-me a eles. Perguntei a um rapaz se não era ilegal fumar nos comboios. Que era, mas não interessava, se não fossemos apanhados. Não fui apanhada. Nem eles. Mas apenas porque aqui, aparentemente, se respeita mais a lei das pessoas. O que quer que isso queira dizer e por mais discutível que seja.
 
E assim é a Grécia. Um país onde a ‘lei das pessoas’, mesmo que não seja uma boa lei em muitos casos, parece prevalecer. Deve ter sido a ‘lei das pessoas’ que fez de Salónica uma cidade não particularmente bonita e suja. Peço desculpa aos que gostam desta cidade – e eu até ver também gosto – mas é realmente desengraçada e suja. Os prédios são de má qualidade, em geral, e parecem galinheiros, vistos de fora, num grande desalinho e desarrumação. Salónica faz-me lembrar Nápoles e Palermo, mas construída por empreiteiros sem gosto, sem noção e provavelmente com a ajuda de presidentes de câmara que ganharam alguma coisa com as licenças de construção de tais aberrações. As ruas são sujas e desarrumadas. Há grafitis em toda a parte, mesmo nos sítios mais inesperados. Os riscos e rabiscos (na maior parte dos casos são apenas isto) cobrem toda a cidade como a querer esconder-lhe a fealdade, mas acrescentando-a mais. O lixo amontoa-se e as ruas parecem ser apenas limpas quando chove, o que foi hoje o caso. A baía que o mar Egeu forma quando entra na cidade é assustadoramente e tristemente suja e não é apenas por causa do porto de Salónica. Há garrafas de plástico e outras coisas semelhantes a boiar na água.
 
Hoje, inicialmente, caminhando entre a Torre Branca e a Praça de Aristóteles, aberta à baía, admirei a água, os barcos que pareciam flutuar numa ausência de fronteira entre o mar e o céu por causa da chuva. Porém, à medida que me aproximava mais da água, ao longo de toda a Nikis Avenue, o lixo era tanto que, de repente, toda a beleza desapareceu. Mais uma vez a ‘lei das pessoas’ que, aparentemente, tudo pode. Depois de um lanche na praça Aristóteles, triste também ela debaixo de uma insistente chuva, reconciliei-me com a vida e com a cidade no cais onde ficam os ex-armazéns militares, convertidos agora em Museu do Cinema, Cinemateca, Museu da Fotografia e em salas de cinema de que espero vir a ser cliente. Visitei apenas o Museu do Cinema/ Cinemateca excecionalmente aberto até às 20 horas devido à 58ª edição do Festival Internacional de Cinema de Salónica, que termina amanhã*. Não conheço muito do cinema grego e a visita permitiu-me conhecer mais qualquer coisa. Depois jantei muito bem num restaurante em frente à baía, o Coquille, mexilhões e esparguete com ameijoas. Estava bem bom. Podia fumar-se no restaurante, como é costume aqui na Grécia. Fuma-se em toda a parte, na verdade, mesmo que seja ilegal. O que não era o caso, naturalmente, do restaurante. A seguir andei um bom bocado para encontrar a paragem do autocarro 23, na direção correta, para casa. Não tinha moedas para a máquina dos bilhetes e disse ao motorista que, simplesmente, encolheu os ombros como que a dar-me a sua bênção para viajar ilegalmente. Pela ‘lei das pessoas’, assim fiz.
 
*O Festival termina a 12/11/2017

Comments

  1. “… we are in parallel lives in way.
    things are not very promising in greece. the only thing that kept me were the refugees. unemployment makes you different and i didnt even want to be with anyone, (since people are getting very easily agitated nowadays). i was getting alone and sadder by the day watching everything go wrong, and all the real people with all this loss, they kept fighting and smiling and i said to my self, what the hell, i cant be sad any more!
    i am quite better, but i lost faith in a lot of things except from people’s eyes that speak our language. the language of solidarity, the language of keep making things against what law thinks should or should not be.”

    (Excerto de um e-mail de uma amiga grega, que vive em Atenas mas é originária de Salónica. Nunca me esquecerei dela nem destas palavras)

  2. António Martinho Marques says:

    Bem… imaginam o susto que apanhei, eu e minha Mulher, quando o táxi do hotel até à Plaka, parou 2 vezes para apanhar outros tantos passageiros!!!…

    • Eu acho que quando era miúdo cheguei a ver o taxista aqui da terra a fazer isso! Até quando os taxistas levavam doentes às consultas juntavam várias pessoas. E no fundo isso até é otimizar recursos e uma medida de defesa do ambiente!

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