Postcards from Greece #22 to #24 (Thessaloniki)


«e uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder…»

 

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Este é um postal (ou três, porque não tenho tido vontade de escrever ou nada de especial para contar) de Salónica, mas podia, na verdade, ser de qualquer parte, incluindo de casa onde me tem apetecido regressar bastantes vezes nos últimos dias. Em Salónica, há um bocado, leio a notícia da morte do Zé Pedro dos Xutos e Pontapés. Devo ter gostado muito de Xutos há umas boas décadas, depois passou-me como me tem passado muita coisa nestas cinco décadas de existência. Passou-me, quer dizer, continuei a gostar, mas não, por assim dizer, ativamente. Pode ser-se velho demais para gostar de Xutos ou pode-se ser velho demais para ir deixando devagar de gostar de músicas, cidades, pessoas, coisas. Não sei qual das situações é o meu caso, mas creio que também não interessa muito, até porque as duas não são sequer contraditórias. E mesmo que fossem, é disso que somos feitos.

A verdade é que apesar das saudades que tenho de casa e da minha vida ‘normal’, a minha vontade é quase sempre de ir. Se pudesse correria o mundo, estava sempre a partir, embora tenha por vezes a sensação de que parto vezes de mais. Uma vez mais, se for contraditório, não terá mal, é disso que somos feitos. Aqui há uns meses, quando cheguei da Rússia, levava um pratinho pequenino onde alguém tinha colado (ou coisa que o valha) uma fotografia minha, a sorrir com um ar bestialmente feliz. Acho que foi num dos passeios de barco no rio Neva, em São Petersburgo que me fizeram aquilo. Não tinha de o trazer, mas achei-lhe graça. Quando cheguei a Lisboa, colei o pratinho no frigorífico dos meus pais e anunciei que ficava ali para que cada vez que olhassem para ele e que vissem a minha cara contente, se lembrassem que partir é o que mais gosto de fazer (a minha mãe, apesar das minhas cinco décadas, ainda fica em cuidado quase sempre). Partir muitas vezes, conhecer lugares e pessoas, experimentar cidades e bairros e ruas, visitar museus, andar de barco em rios, subir a torres, descer a catacumbas, entrar em igrejas onde se reza a deuses diferentes, estar simplesmente nas esplanadas a ver quem passa e a inventar-lhe vidas, e depois voltar, faz com que a minha própria vida se perca menos, ou assim pareça, sendo que inevitavelmente está perdida desde o princípio, como todas.
Salónica, até ver, não tem sido uma experiência fenomenal, por várias razões, nem todas devidas à cidade. Ainda hoje, no autocarro para a universidade, admirei as pessoas e a quantidade de sacos cheios de legumes e fruta espalhados pelo chão. Entraram e saíram muitas pessoas com carrinhos de compras atafulhados de coisas. Apesar de transportarem sacos cheios de cores e apesar de não ser tarde, as pessoas tinham todas um ar cansado, desanimado e derrotado. Como as casas que há na maior parte da cidade, à exceção dos bairros junto ao golfo, de onde se avistam os barcos que chegam e partem, a correr mundo. As pessoas que estão no autocarro, rodeadas de fruta e de outra gente triste, estão todas vestidas de cores escuras – reparo nisso – e não creio que desejem correr o mundo como os barcos. Pela direção do autocarro não creio também que vivam nos bairros mais luminosos lá em baixo, abertos ao mar.
Salónica é, em quase toda a parte, uma cidade triste, acho que já o disse, apesar de nos dias de sol parecer um bocadinho mais bonita, com os seus monumentos abafados por prédios muito altos e de má qualidade, com os seus caixotes de lixo a abarrotar, com as suas casas em ruas estreitas onde não entra a luz e cheira a humidade, com as pessoas com as faces carregadas de desalento como rugas que jamais se apagarão, com os seus serviços que não funcionam, com os seus horários absurdos e incompatíveis com as horas a que se pode viver um bocadinho. Salónica é uma cidade triste e algumas vezes me perguntei já o que vim aqui fazer, sabendo bem, como é evidente, o que vim aqui fazer.
Tento aprender a gostar da cidade e sinto muitas vezes ternura pelas rugas de desalento das pessoas nos autocarros que, a seu modo, também me permitem partir e correr mundo como se fossem os mapas que realmente são. Na verdade, não sou diferente em nada destas pessoas no autocarro, rugas e desalento, tantas vezes, incluídos. Apenas parto mais vezes a tentar ganhar tempo à vida, a tentar perdê-la um pouco mais devagar. Mas acho que, afinal, nunca saí do mesmo sítio, em toda a parte, e não vale a pena ter ilusões. Por mais que se parta e se corra a vida é sempre a perder.

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