Postcards from Greece #25 & #26


Uma missa ortodoxa e um dia perdido

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o dia perdido foi hoje. A missa ortodoxa também. E não há qualquer relação, entre uma coisa e outra, mesmo porque a missa ortodoxa terá sido, provavelmente, a melhor parte do meu dia (e é uma agnóstica que vos escreve o postal).

Ontem fui dar um seminário/aula ao Alexander Technological Educational Institute of Thessaloniki, na Escola de Agricultura onde trabalha a Roula. Choveu todo o dia, tal como hoje, embora não esteja frio. O seminário correu bem, com estudantes muito interessados e participativos. O instituto é ainda mais antigo que a AUTH, ou pelo menos parece, porque tem um ar mais degradado. Ou então foi por causa da chuva que fez com tudo parecesse um pouco mais desolador e triste. Refiro-me aos edifícios e ao campus em geral, não às pessoas. No fim, quase duas horas depois, os estudantes agradeceram-me e um deles, vejam bem, ofereceu-me, assim ‘out of the blue’, uma garrafa de sangria grega. Tinha experimentado e gostado e resolveu trazer-me, ainda que não me conhecesse de lado nenhum, nem nunca me tivesse visto. A φιλοξενία (filoxenía ou amizade aos estranhos, sobre a qual já escrevi noutro postal). Outro estudante disse-me, enquanto fumávamos um cigarro no hall as escadas, dentro do edifício (‘pode-se fumar aqui, sim, e em todo o lado. Na Grécia somos democratas, se queres fumar, porque é que não hás de fazê-lo?’. Pois, nada, a mim parece-me bem) que tinha feito Erasmus em Portugal, no IP de Santarém. Sabia dizer ‘bem vindos’, ‘obrigada’ e ‘de nada’. Disse-me ainda que os portugueses também têm φιλοξενία e eu concordei. Talvez não tanto como os gregos, mas sim, somos hospitaleiros que chegue e os estranhos despertam a nossa simpatia.

Depois regressámos, eu e a Roula, a Salónica. O Instituto fica uns bons 15 quilómetros afastado do centro da cidade. No caminho viemos a discutir, por causa de uma banca de um partido de direita que estava no Instituto, o facto de aparentemente os jovens já não quererem ‘changer le monde’. A Roula fala comigo essencialmente em francês e eu respondo-lhe, na maior parte das vezes em inglês. Explica-me que ali no Instituto os estudantes são mais de direita que na Universidade. De facto, ao contrário do que vejo todos os dias, pelo menos na Faculdade de Agricultura, não se vê mais nenhuma banca de um partido político a não ser aquela e do KKE (tão ativo na faculdade) nem sinal aqui. Voltamos a falar do Syriza e do modo como a desilusão se seguiu à esperança. Mas a Roula diz-me que pelo menos eles tentaram fazer alguma coisa e algumas mudanças e que têm, pouco a pouco, realizado pequenas coisas que podem melhorar um bocadinho a vida das pessoas.

Não foi isso que me pareceu hoje, nos autocarros que apanhei para ir, afinal, a lado nenhum. As pessoas iam todas carrancudas, apertadas como sardinhas em lata e a pingar desilusão e ‘desesperança’. Chovia, como disse, abundantemente. Levantei-me tarde e aborreci-me com a chuva que faz os dias, que já são curtos, especialmente para quem se levanta tarde, ainda mais pequenos. Lá me decidi a ir ao State Museum of Contemporary Art, mesmo assim. O museu fica em Stavroupoli, a uns bons 45 minutos a pé da Agiou Nikolau, onde vivo temporariamente. Assim penso ir de autocarro, mas tenho de apanhar dois. Apanho primeiro o 15, na Kassandrou e depois engano-me na paragem para sair e tenho de ir a pé, debaixo de chuva, até à Egnatia para apanhar o 34 para a Plateia Terpsithea. Fiquei mais de 25 minutos à espera do autocarro, numa paragem atulhada e rodeada de gente que pingava, como eu, por todos os lados. Finalmente chegou e vinha tão cheio que era impossível respirar, também por causa do aquecimento. Por bondade ou φιλοξενία uma senhora abriu uma janela, apesar da chuva. Estava um trânsito imenso e o autocarro levou horrores, cheio como um ovo, a chegar à praça onde devia sair e saí. Mas quando saí não percebi por que rua devia seguir para encontrar o museu. perguntei a um rapaz, perguntei no quiosque mas parecia que ninguém estava seguro de onde ficava o raio do museu. Nisto já se tinha passado uma boa hora e meia e desiludida como um grego num autocarro cheio num dia de chuva resolvi vir-me embora. Não ía ver o museu numa hora e meia de certeza.

No regresso apanhei um táxi e hélas! Paguei tanto para chegar à esquina da Agiou Dimitriou com a Agiou Nikolau como tinha pago nos dois autocarros… bom, na verdade um pouco mais, mas coisa insignificante que não justifica o tempo que perdi entre e dentro de autocarros. Sentei-me na esplanada coberta de um café. Paguei o exorbitante (e normal aqui) preço por um expresso e ouvi os sinos da Agiou Dimitriou, a chamarem para a missa. Já de madrugada, eram umas 4 da manhã, os tinha ouvido e vi, da varanda, as luzes da igreja acesas. Não sei se há missas às 4 e pouco da manhã, mas estava uma lua bonita por cima da igreja que a máquina fotográfica não conseguiu apanhar como deve ser. Ouvi os sinos, enquanto fumava um cigarro derrotado por um dia (pela luz do dia, pelo menos) perdido, e resolvi ali mesmo ir ver e ouvir uma missa ortodoxa. Gravei um bocadinho da missa que, basicamente, consiste num coro que canta de forma divina, num padre que não diz nada ou quase nada e que passeia várias vezes pela grande igreja com o turíbulo a deitar fumo do incenso queimado. Cheira bem. E as velas que ardem junto dos ícones, finas e frágeis, intensificam o agradável odor. Gosto genuinamente do que cantam os homens ao pé do altar e da dança das mãos das poucas pessoas que estão na grande igreja, quando se benzem muitas vezes, a acompanhar. Não percebo nada do que dizem os cânticos, mas não faz mal, é bonito na mesma e de repente já não me sinto tão desolada com o meu dia perdido e fico para ali até ao fim a ouvir as vozes dos homens que cantam a deus.

(eu filmei um vídeo de muito mal qualidade, por isso deixo aqui este, tirado do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=opwHbeTR2DU)

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    se queres fumar, porque é que não hás de fazê-lo?

    Se não queres respirar fumo de tabaco, porque é que não hás de podê-lo?

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