Presidência Portuguesa do Eurogrupo


A candidatura de Mário Centeno à Presidência do Eurogrupo tem suscitado diversas interrogações, manifestações de apoio e algumas de repúdio. Apartando-me dos apoios e repúdios de famílias partidárias por pouco interessantes, detenho-me sobre algumas interrogações que me parecem estranhas.
Desde logo, a de saber se Centeno terá ou não tempo para assumir essa presidência e continuar a assegurar as suas funções como Ministro das Finanças de Portugal. Não sei como não haveria de ter tempo para desempenhar, em simultâneo, as funções que outros assumiram antes, para mais com a equipa de qualidade que Centeno diz ter constituído no seu Ministério.
eurogrupo
Outros questionam-se se Mário Centeno estará habilitado com a experiência necessária para o cargo a que se candidata. Parece-me uma questão que não faz sentido, uma vez que se trata de alguém academicamente habilitado e com a experiência que estes dois anos de governação e negociação com o Eurogrupo e Bruxelas lhe granjearam, sempre com sucesso.
As interrogações sobre o conhecimento e a experiência de Centeno só fazem sentido para alguém que esteja contra a sua candidatura e não o queira assumir frontalmente, até porque, recorde-se, irá suceder Jeroen Dijsselbloem que, em termos de habilitações, todos sabemos como as conseguiu.

As minhas interrogações são políticas e nada têm a ver com as capacidades de Centeno. A questão que se coloca não é porque se candidata Centeno, mas por que é que a Alemanha e a França querem que Centeno se candidate!

Vejamos, as políticas de empobrecimento que o Eurogrupo endereçou aos países com dívidas elevadas, as chamadas políticas de ajustamento ou de austeridade, mostraram duas cruéis realidades: a de terem servido para resgatar bancos privados com dinheiro dos cidadãos e a de empobrecerem os já mais desvaforecidos, enquanto enriqueciam a finança global desregulamentada!

Para esconder as consequências destas políticas abjectas, a União Europeia necessita de Portugal para dar como exemplo de sucesso, que o é, mas não devido às políticas aplicadas, mas ao facto de, apesar de o enorme aumento de impostos de Vítor Gaspar ainda estar em vigor e de ainda se ter acrescentado um enormíssimo imposto sobre os combustíveis, a economia estar a crescer, o défice a baixar, o desemprego a regredir e ter havido uma aposta social no aumento do salário mínimo, na restituição do valor das pensões e na reposição de cortes de vencimentos!
Ou seja, o sucesso de Portugal nada tem a ver com as políticas de empobrecimento da União Europeia, mas com o inesperado crescimento do turismo e com a teimosia de algumas empresas exportarem não obstante pagarem a energia e os combustíveis mais caros da Europa!

É por isto, por quererem um português, no caso, Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo para darem Portugal como exemplo de sucesso das políticas que mandaram executar, que considero que nenhum português deveria candidatar-se a essa função!
Portugal deveria estar na linha da frente para demonstrar o quão erradas, injustas e socialmente inaceitáveis foram essas políticas e nunca a jeito de ser dado como exemplo de que elas foram positivas!

Bem sei que o PS afirma que Mário Centeno irá para reformar a União Europeia, nomeadamente, a união bancária que Macron e a Merkel agora querem, mas nada se diz sobre a mutualização futura da dívida, que fará sobre a reestruturação de dívidas que todos sabem ser impagáveis.

Não, com excepção do PSD e do CDS que sempre apoiaram essas políticas de empobrecimento, bem como o PP europeu da sua família política, nenhum socialista nem nenhum português, que se bateu contra aquelas políticas, deveria candidatar-se a presidente do Eurogrupo.

Os que anunciaram pretender virar a página da austeridade, os que a viraram no sentido de repor rendimentos aos mais desfavorecidos, não deveriam permitir que se servissem deles para aclamar a política anterior, que desgraçou milhões de portugueses em benefício da finança agiota global!

Comments

  1. DESCULPE MAS TUDO O QUE ESCREVE É ABSURDO. O professor Centeno aceitou fazer uma coligação parlamentar nunca vista na União Europeia. Tem seguido normas ao contrario do cardápio que exigiram ao Passos Coelho e agora a UE quer Centeno para mostrar a bondade das suas politicas. só se combate o inimigo dentro das suas fileiras, como voce descreve parece a historia de don quixote .

    • JgMenos says:

      ‘normas ao contrario do cardápio ‘?
      «pataca ganha, pataca distribuída» nem estatuto de Política tem.
      É cretinice e propaganda a sustentar imbecis no poder.

      O que serve de bandeira à Europa é a validação da austeridade, em dois andamentos:
      – vejam como estão felizes, depois da bruta austeridade
      -…e continuam a baixar o défice.

    • ….oxalá esteja certa, Lídia Drumond, mas eu respondo assim ao seu comentário : olhe que não, olhe que não !!

  2. Rui Naldinho says:

    Pessoalmente subscrevo este texto do Carlos Araújo Alves.
    Mas deixo aqui um link https://www.publico.pt/2017/12/01/politica/opiniao/centeno-no-eurogrupo-custa-assim-tanto-admitir-o-obvio-1794550
    com a opinião de Rui Tavares, que parece ter uma avaliação um pouco diferente daquela que muitos defendem.
    Sim, de facto tudo parece mais fácil com Centeno lá dentro, mexendo os cordelinhos, não fosse o caso da experiência Durão Barroso ter sido um fiasco.

    • ZE LOPES says:

      Também subscrevo. Aliás, achei excelente!
      Quanto ao do Rui Tavares, fica-se pelo eurocontentamento que todos os dias lhe dá frémitos! Parece-me um problema dificilmente curável, tal como a obsessão por “primárias abertas” e outras coisas do estilo…

  3. Obviamente, subscrevo o que diz. Esse posicionamento e atitude seria a resposta coerente a tudo o que se tem vindo a passar com o nosso país e outros que agora também o apoiam nesta aventura – caso da Grécia. Mas, caro senhor, isso seria não contar com a vaidade humana e os jogos políticos e, porventura, partidários em desenvolvimento. À imagem e semelhança do que se passou com aquele Durão que – qual pedra de gelo – no quentinho do lugar, todo ele se derreteu, será mais do mesmo que os mandantes da Europa esperarão de Centeno. Mas… há sempre uma grande incógnita nestes processos e já que a Caixa de Pandora foi aberta, resta-nos a Esperança que Centeno não se mostre tão mole como aquele que já esteve (porque dirigiu é de mais) na Comissão.

  4. Subscrevo por inteiro a sua análise, Carlos A. Alves, e esse seu último parágrafo com realce deveria ser escrito a vermelho, como alerta para todos nós ( …é que o Centeno também veio da mesma caverna do PS ! )

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