Postcards from Greece #28 & #29 (Thessaloniki)


‘We are not lucky, it is a right…’

APERGIA_14d
disse-me o jovem estudante de Economia Agrária, quando eu referi que tinham sorte em não pagar propinas, nem na licenciatura, nem no mestrado nem sequer no doutoramento. Evidentemente fiz o comentário apressadamente e evidentemente o rapaz tinha (tem) absoluta razão. O ensino, em qualquer nível, deve ser gratuito. A educação deve ser gratuita. Ponto. Não é sorte, de facto, é um direito que todos deviam ter. A conversa teve lugar numa sala de aula pequena e pouco equipada da AUTH (Aristotle University of Thessaloniki para os mais esquecidos ou para os que só agora chegaram a estes postais) onde fui terminar o Seminário que aqui há uns dias havia dado noutro edifício, afastado da cidade – a quinta da Faculdade de Agricultura onde, supostamente – porque nada vi nesse sentido – os estudantes terão as aulas práticas de Agronomia. Portanto, eu estava ali na sala pequena da AUTH para terminar a discussão havida nesse outro dia. Quando entrei na sala, a Maria conversava com os estudantes sobre uns seminários e defesas de teses de mestrado e doutoramento a que deviam assistir. Os estudantes, aparentemente – porque a discussão era em grego – estavam incomodados por ter de assistir a cerca de 10 desses eventos.

Eu interessei-me sobre o que discutiam e a discussão passou a ser em inglês. Um dos argumentos da Maria – a professora daquela disciplina (sociologia rural) – para que os estudantes cumprissem o estipulado era de que nada pagavam. Eu espantei-me. Já sabia que na licenciatura não havia propinas, mas também nada pagavam para frequentar um mestrado? Nada. E o doutoramento? Nada, também. Exclamei irreflectidamente, eu sei, ‘you are lucky!’, explicando que em Portugal se pagam propinas para tudo, desde os anos 90. Foi então que o rapaz me disse que não tinham nada sorte, tinham direitos! Dei-lhe imediatamente razão, como é óbvio, já o disse. E por acaso, acrescento, que não é por nada pagarem que estes estudantes me parecem menos interessados (tal como os da semana passada no Alexander Technological Educational Institute of Thessaloniki). Pelo contrário, são mais interessados, participam imenso, querem partilhar coisas e aprender.
A conversa a seguir voltou-se para os direitos que temos e para aquilo que, em Portugal e na Grécia, se paga ou não se paga. A saúde é também gratuita. Contei a minha experiência no hospital outro dia, quando lá fui por causa das mordidelas dos bichos. Fui imediatamente atendida e não paguei nada. O mesmo rapaz riu-se e disse: ‘in that you were lucky!’. As filas nos hospitais são, em geral imensas, ao que parece. Também em Portugal, quer nas urgências, quer para consultas, disse eu. E no entanto, pagamos. Quiseram saber qual era o salário médio, o salário de um médico e de um professor. Quanto pagamos de impostos. As diferenças são grandes. Ainda que o salário mínimo na Grécia seja uns 100 euros mais elevado que em Portugal, o salário de médicos e de professores é mais baixo, sobretudo devido aos pesados (cerca de 40/50%) cortes ocorridos nos últimos anos. Já o disse noutro postal, creio, que o IVA é de 24% em quase todos os produtos, mesmo nos mais essenciais. O IVA mínimo é de 13%, mas quase todos os produtos são taxados pelo valor mais elevado.
O custo de vida na Grécia é bastante idêntico ao português, acho que também já disse. A comida nos supermercados custa mais ou menos a mesma coisa, nos restaurantes paga-se aproximadamente o mesmo (excetuando as bebidas que são aqui mais caras, sobretudo – já o disse – o café), se não mesmo um pouco mais barato. Os bilhetes de autocarro são aqui um pouco mais baratos – 1 € – e o tabaco também. Os táxis são incomparavelmente mais baratos (não há aparentemente muitos Uber na Grécia, e tanto quanto pude saber através de pesquisas na internet não há Uber em Salónica). Os museus e o cinema também são mais baratos. As casas (para alugar e comprar) também são um pouco mais baratas que em Portugal, pelo menos que em cidades como Lisboa e Porto e, sim, também Aveiro. A gasolina é mais ou menos ao mesmo preço, assim como a electricidade e o gás. No entanto, aqui a crise foi incomparavelmente mais forte e é incomparavelmente mais visível que em Portugal, também já o disse. No entanto, aqui as pessoas parecem mais politizadas, mais envolvidas, parecem existir mais manifestações e greves do que em Portugal. Ainda hoje houve uma concentração do PAME (Frente Militante de Todos os Trabalhadores, uma frente sindical criada no final dos anos 90 por sindicalistas ligados ao KKE) em várias cidades gregas, incluindo Salónica. Dia 14 de dezembro haverá greve geral, convocada também por esta organização devido à escalada de violações aos direitos dos trabalhadores*, incluindo o direito à greve**. Os gregos parecem ter bastante mais noção dos seus direitos do que nós. Não é sorte, não são benefícios. São direitos das pessoas, tal como me disse o jovem estudante de Economia Agrária. E a sorte acontece, é puro acaso. Os direitos defendem-se. Pelos direitos luta-se.
*Mais informações aqui
** Mais informações aqui

Comments

  1. anonimo says:

    Com saúde e educação gratuitas deve viver-se bem na Grécia. Porquê então os protestos?

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