Prepotência em defesa do modelo neoliberal


De 10 a 13 de Dezembro terá lugar a 11a Conferência Ministerial da OMC (Organização Mundial do Comércio), em Buenos Aires, Argentina (a primeira vez na América Latina). Como em todas as anteriores, está prevista uma forte presença de centenas de organizações da sociedade civil que, com manifestações, workshops e debates protestam contra a dominância dos interesses económicos de poderosos bancos, fundos de investimento e multinacionais nesta organização que visa a liberalização e desregulação dos mercados e a privatização de bens públicos. A contradição entre os objectivos de sustentabilidade globais da UN e o desregulamento comercial multilateral é varrida para debaixo do tapete, o combate à pobreza não tem lugar na agenda.

Desta vez, e pela primeira vez na história da Organização Mundial do Comércio, o Governo do país anfitrião, chefiado por Mauricio Macri, decidiu à última hora revogar as credenciais de dezenas de activistas e observadores da Europa, Ásia, África e da América Latina que tinham já obtido a sua acreditação junto da Organização Mundial de Comércio, impedindo-os assim de participar e recusando-lhes a entrada no país. Obviamente, está-se perante um grave precedente em matéria de relações internacionais e de uma violação dos termos do acordo com o país anfitrião que, conforme numerosas ONGs exigem, não pode ser aceite pela OMC.

Sem sequer apresentarem razões formais para a revogação das credenciais aos representantes das ONGs, as autoridades argentinas alegaram no entanto “preocupações de segurança”, devido a “incitação à violência para gerar caos” supostamente ocorridas nas redes sociais.

Esta acusação a organizações como a Friends of the Earth International ou a Oxfam Germany, cujos representantes estão a ser impedidos de participar, é totalmente falsa e não passa de um abuso de poder do governo argentino. Por exemplo, uma das pessoas que está a ser impedida de passar a fronteira é Petter Slaatrem Titland, coordenador da Attac Norway, uma organização que recebe fundos do governo norueguês pelas suas campanhas de informação em matéria de políticas comerciais, paraísos fiscais e outros, e que declara claramente a sua rejeição da violência.

Caricatamente, até a comissária europeia para o comércio, Cecilia Malmström, conhecida por ignorar o movimento europeu contra o CETA e outros acordos de comércio “livre”, respondeu ao apelo da rede europeia de organizações da sociedade civil, considerando lamentável que as autoridades argentinas não tenham especificado claramente as razões de segurança que levaram a tais decisões e esperando que “esta decisão seja revogada e sejam encontradas soluções para permitir a participação da sociedade civil, que pode contribuir para o sucesso desta Conferência”. Malmström afirma ainda que vários estados-membros terão intervido junto do governo argentino em favor das ONGs baseadas nos seus respectivos países para a revogação da decisão, sem no entanto obterem um resultado que permita a entrada no país de todos os representantes em causa.

Mais uma vez, são assim abusivamente e escandalosamente abafados os protestos da sociedade civil contra o dogma neoliberal e se reforça o poder das multinacionais à custa da democracia, do bem-estar dos cidadãos e do meio ambiente.

Comments

  1. JgMenos says:

    Um rude golpe no turismo reivindicativo.

    • Olha o André Insurgente está vivo. Pelos vistos os rennies acalmam-lhe mesmo o estomago.

    • ZE LOPES says:

      A propósito: como vai o tempo aí na Serra de Aire e Candeeiros? Constato que a caverna já deve ter eletricidade, ou V. Exa. não andaria por aqui! Benditas sejam as multinacionais!

    • Ernesto says:

      Ó jgmenosjosétrollpintodacruz, olha lá como os mamões mamam:
      Data:03/08/2017
      Fonte;Jornal de Negócios
      Título: Dividendos agravam dívida das cotadas
      Noticia:
      «As cotadas nacionais abriram os cordões à bolsa este ano para pagar dividendos. Mas essa maior generosidade foi um dos factores que levaram a um aumento da dívida líquida dos primeiros seis meses do ano. Subiu mais de 8%, aumentando em mais de 2.000 milhões de euros para 26.300 milhões, tendo em conta as 14 empresas do PSI-20 que já prestaram as informações financeiras. (…) Distribuíram cerca de 2.200 milhões de euros, mais 20% que no ano anterior. E isso pesou na evolução da dívida.”

      Ou seja, contrariamente à generalidade das PME e das famílias, não estão a reduzir o seu endividamento! Está a aumentá-lo! E não contraem mais dívidas, para suportar investimento e assim melhorar/modernizar/ampliar a capacidade produtiva nacional! Não é por acaso que a produtividade agregada (valor médio das produtividades dos sectores da actividade privada) se mantém estagnada. Não há investimento privado. Logo, não há novos equipamentos e tecnologias. Não há inovação. Não se melhora a gestão nem a organização do trabalho.

      Sim, endividam-se para pagar mais dividendos, mais remuneração aos accionistas, aos donos do capital. Ou seja, pagam um volume de dividendos superior aos lucros arrecadados. Onde aconteceu isso? Com «gestores de topo» e «empresas modelo». Na SONAE CAPITAL: lucros, 18,7 milhões de euros, os accionistas vão receber 25 milhões. Nos CTT: lucros, 62,2 milhões de euros, vão distribuir aos accionistas 72 milhões – deve ser por isso que os serviços postais estão cada vez melhores! Um aumento dos dividendos superior ao aumento dos lucros! Não querem esmolas, aumentos indexados à taxa de inflação ou da evolução do IAS. Não! Mais 20% nos dividendos. Por extenso: vinte por cento!

      Já viste estes mamões?! Grandes treteiros! Cornos mansos!

      PS: Peço desculpa, porque reparei agora que usei as palavras “mama”, “mamões”, “treteiros” e “cornos”, ou seja, toda a argumentação, histéricamente utilizada por ti na blogosfera!

  2. Rui Naldinho says:

    Preparem-se, que estes são os democratas que nos governarão no futuro! Uns suceder-se-ão aos outros sem que possamos dizer, mudámos para melhor. Amarrados que estaremos à vida por Acordos que nos transformarão em aves de capoeira, ou animais de estábulo. E aqueles que ainda acreditam na democracia, vão-se entretendo em serem “Presidentes de uma porra de nada”, para gáudio dos mandantes desta coisa toda. Isto para citar um comentador da nossa direita intelectual.
    É nestas horas de coragem, que se percebe como a América Latina é ainda hoje, um antro de Videlinhas e Pinhoctezitos de pacotilha. E a Europa um monte de burocratas, preocupados consigo mesmos.

    • Ana Moreno says:

      Exacto Rui, “Presidentes de uma porra de nada”, bem visto. Hoje mesmo o anúncio do próximo: “A UE e o Japão finalizam Acordo de Parceria Económica”. Dá para imaginar onde foram parar as normas europeias nas mais diversas áreas. E para este não ter que passar pelos parlamentos dos países europeus, retiraram-lhe a protecção do investimento “Ao mesmo tempo, prosseguem as negociações sobre as normas de proteção do investimento e a resolução de litígios em matéria de proteção do investimento.” Assim ficam eles com os movimentos mais livres e nós atadinhos que nem enchidos. E não perdemos pela demora, que para a protecção do investimento estão a tricotar o MIC (Multilateral Investment Court)…

    • É aterrador e fica-nos uma revolta que quase nos tolhe, apesar de nos indignar ao limite da reacção/vontade à violência contra esta prepotência…tanto que apetece dizimar todo os tentáculos de um monstro que tomou conta da nossa casa comum e pretende nos reduzir a ” aves de capoeira, ou animais de estábulo”, sim, Rui Naldinho, ou a baratas tontas sem terem para onde fugir, ou a um novo e desumano sistema de escravatura ou feudalismo sob a capa rota de democracia .
      Somos uma maioria evidente, como é possível e que tempos e forças estranhas são estas em que uma minoria tem em seu poder tais e tão grandes poderes, permitidos num mundo do politicamente corretês e hipócrita desses burocratas de caca preocupados consigo mesmos, sim !!
      …horas de coragem ??? quais e aonde e em que relógio vamos dar corda a essas horas de coragem que refere, Rui, para que o tempo da mudança seja real ? ” faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar”, cantava-se nos anos sessenta da utopia com que se sonhou e se lutou por um mundo melhor ! ele aí está afinal no seu impossível e contraditório e no começo de um fim trágico sem futuro humano… nem “umano”
      ( voza0db)
      Ana, e a si como sempre um bem haja pela sua determinação e divulgação informativa oportuna e necessária, sempre atenta e batalhadora .
      que mundo tão melhor seria possível com todos nós os de boas vontades….assim o acredito ainda !

      • Ana Moreno says:

        “e fica-nos uma revolta que quase nos tolhe, apesar de nos indignar ao limite da reacção/vontade à violência contra esta prepotência…” é mesmo Isabel, é difícil suportar este descarrilamento continuado a caminho do fundo. E aguentar a espargata de continuar a olhar em frente sem perder a cabeça. Valham-nos os consolos 🙂

  3. Fernando says:

    Bruxelas, o lugar onde as democracias europeias foram morrer…

    E isto com a cumplicidade de António Costa, Marcelo, comunicação social…

  4. Sem sequer apresentarem razões formais para a revogação das credenciais“!

    E desde quando é preciso?

  5. Ana Moreno says:

    Olá voza0db, para quem não tem iPhone nem iPad como eu, iLand não está à vista 🙂 como é essa terra?
    Ligação: último comentário em https://aventar.eu/2017/12/06/o-auge-da-hipocrisia-a-lista-negra-de-paraisos-fiscais/
    Aguardo. 🙂

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